sábado, 15 de março de 2008

06 - ROMANCEIRO * Da insanidade

        
   
Se não encantas cantando,
por que teimas em cantar?
Se não convences falando,
por que insistes em falar?

Quem não sabe que deliras,
ouvindo as tuas mentiras?

Quem não sabe que a vaidade
é toda a tua verdade?

Quem não sabe que Narciso
teve mais modéstia e siso?

És o anverso e o reverso
da mesma falsa moeda,
mácula do pátrio terso
que resiste e que leveda...

És o direito e o avesso
da casaca já no fio,
que, na feira, é adereço
dos arautos do sandio.

terça-feira, 11 de março de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Socorro!


Noutros tempos, quando se estava em aflição, bradava-se: Aqui d'El Rei!
Mais recentemente, brada-se: Oh, da guarda!
Hoje, eu prefiro gritar por socorro.
Claro está que este povo anda, desde sempre, gritando por socorro. E de pouco lhe vale, pois brada no deserto. Ninguém o ouve. Posto isto, sei muito bem que o meu pedido de socorro se perderá no vazio. Mas vou gritando... É uma postura que em nada altera o pântano.
Viana do Alentejo está deficientemente servida de transportes públicos. A estação de Caminhos de Ferro, a quase quatro quilómetros de distância da vila, está desactivada. A estação da CP de Vila Nova da Baronia é a que actualmente a serve. É uma distância de seis quilómetros. Sempre que necessito de usar o comboio, terei de me deslocar de taxi. É este o panorama ferroviário.
O tansporte rodoviário existe, mas apenas de segunda a sexta-feira. Logo, quem necessitar de se deslocar aos sábados, domingos e feriados terá de ir a Vila Nova da Baronia, de taxi, para utilizar o comboio.
Não se vislumbra qualquer alteração no mal-servir da população. A autarquia nada faz para minimizar estas dificuldades. E assim vamos, neste pântano.
Como disse e, agora, reitero, sei muito bem que estou bradando no deserto. Os bem instalados rejubilam. Os mal instalados que se danem!
Como muito bem disse George Orwell, somos todos iguais, mas há sempre uns mais iguais do que outros.
E foi para este pântano que tantos lutaram e morreram?
Os cravos de Abril estarão irremediavelmente murchos?
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
*

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Brasil


Texto de Frei Beto

A história do Brasil, vista pela ótica do governo, pode ser caracterizada pela alternância entre momentos de euforia e desalento. Assim ocorreu durante a ditadura militar, quando o “Pra frente, Brasil” enchia de ufanismo os arautos dos maquiados índices econômicos delfinianos e vangloriavam-se de obras como a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica, enquanto nos porões do regime borrifavam-se as paredes com sangue dos torturados e assassinados.Todos os governos pós-ditadura – Sarney, Collor, Itamar e FHC – exaltaram seus “milagres” econômicos, impondo à nação planos mirabolantes que jamais reduziram a miséria, promoveram a distribuiçãode renda e preservaram a soberania nacional.Lula evita tratamento de choque na economia, mas multiplica a riqueza do andar de cima, asfixia a classe média com o peso de impostos exorbitantes e faz de conta que ameniza a miséria dos beneficiários do Bolsa Família, incapazes de se emancipar da mesada oficial e produzir a própria renda.Nossos governos não têm estratégias, têm programas de euforia cíclica para mero efeito eleitoral. Não miram a história, olham o próximo pleito. No atual, a euforia cíclica começou com o Fome Zero, passou para a Campanha Nacional de Alfabetização, alardeou o lançamento do PAC, proclamou o fim da crise de energia, comemorou a auto-suficiência em petróleo (e nem por isso reduziu o preço da gasolina) e, agora, aclama Deus como brasileiro pela descoberta de inesgotável manancial de petróleo na bacia de Santos.Será mesmo que Deus é brasileiro? Quanto às nossas condições ambientais, estou convencido de que Ele, ainda que não seja brasileiro, sem dúvida privilegiou o nosso país: temos dimensões continentais e nenhuma catástrofe natural, como terremoto, furacão, ciclone, tornado, tufão, vulcão, deserto, geleira. A Amazônia ocupa 2/3 de nosso país e conserva 12% da água potável disponível no planeta, sem contar o vasto potencial do Aqüífero Guarani, ainda inexplorado no centro-sul do país. Produzimos todo tipo de alimentos e temos uma área cultivável de 600 milhões de hectares.Se o Brasil não é o Jardim do Éden a culpa não é de Deus, é dos políticos que elegemos e de nossa inércia diante do estrago que produzem, atuando em favor, não do povo, mas de seus interesses corporativos. Nossa abundante riqueza é injustamente distribuída. Saúde aqui é privilégio de quem dispõe de plano privado; a educação pública está sucateada; jamais conhecemos a reforma agrária; nossas cidades estufam-se de favelas; a desigualdade social é gritante; a violência urbana provoca mais vítimas por ano que a guerra dos EUA ao Iraque.Deus não pode ser culpado por nada disso. A culpa é de governos que prometem mudanças e, uma vez empossados, deixam tudo como dantes no quartel de Abrantes, restritos a políticas públicas eleitoreiras, incapazes de atacar as causas que promovem tamanhos desníveis sociais. Mudam-se governos, perenizam-se as estruturas injustas.Deus não tem nacionalidade nem religião, mas tem rosto. Está no capitulo 25 do evangelho de Mateus, versículos 31 a 46: “tive fome e vocês me deram de comer etc.” Quem vê o faminto, o desamparado, o enfermo, o migrante, enfim, o excluído, vê Deus. É neles que Deus quer ser visto, servido e cultuado.Nesse sentido, Deus pode ser visto e servido em qualquer lugar do Brasil, pois toda parte está repleta de gente com fome, desamparada, enferma etc. Deus não é brasileiro, mas esse contingente enorme de excluídos – cerca de 12 milhões de pessoas – é a mais singular imagem e semelhança de Deus, e neles Ele quer ser amado.Resta saber se estamos dispostos a reconhecer a presença de Deus, não apenas nos benefícios naturais, como poços de petróleo, mas sobretudo na face daqueles que, neste país, não escolheram nascer e viver como miseráveis e pobres, desprovidos de condições mínimas de acesso aos bens que asseguram ao ser humano dignidade e felicidade. Na loteria biológica, eles tiveram o azar de engrossar os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza ou, em termos financeiros, com renda mensal inferior a US$ 60.Se nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que nasceu, a loteria biológica é injusta e pesa sobre os premiados uma dívida social. Resta-nos assumi-la para que Deus seja de fato brasileiro: quando todos, enfim, tiverem direito ao “pão nosso” e, assim, proclamarem sem mentira que ele é “Pai/Mãe nosso”.


Notas:
1 --- Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros.
2 --- Carlos Alberto Libânio Christo O.P., conhecido como Frei Betto, (Belo Horizonte, 25 de agosto de 1944) é um escritor e religioso dominicano brasileiro, filho do jornalista Antônio Carlos Vieira Christo e da escritora e culinarista Stella Libânio. Professou na Ordem Dominicana, em 10 de fevereiro de 1966, em São Paulo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Hoy





Hoy,
no hay nubes en el cielo
y los aullidos del viento
se han perdido a lo lejos...

Hoy,
en los caminos vacíos,
ya se borraron las huellas
de caminares antiguos...

Hoy,
tan sólo los juglares
nos traen las profecías
de otros mundos más allá...



José-Augusto de Carvalho
4.2.2008
Viana*Évora*Portugal
Do livro em construção «AL ANOCHECER»
*

10 - JORNAL DE PAREDE * Assim vamos...

I
O escritor irlandês James Joyce nunca recebeu um prémio literário, foi ignorado pela crítica enquanto viveu e alguns dos seus livros foram proibidos em Inglaterra.
Morreu na Suiça, em 1941, quase na miséria.






II
Aqui, a justeza do rifão:
«Se queres ser bom, morre ou vai-te!...»

sábado, 23 de fevereiro de 2008

10 - JOR NAL DE PAREDE * Afirmação



Em Janeiro de 1998, Fidel Castro recebeu o Papa João Paulo II e lembrou-lhe:


"ESTA NOITE,
MILHÕES DE CRIANÇAS DORMIRÃO NA RUA,
MAS NENHUMA DELAS É CUBANA".

domingo, 17 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Ousada Incursão

Causa Nossa

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008


Intersindical

A recusa de adesão à Confederação Sindical Internacional e a hostilidade em relação à UE mostram que o PCP continua a manter um controlo absoluto sobre a CGTP.


[Publicado por Vital Moreira] [17.2.08] [Permanent Link]



Nota:

Sempre acompanhei com interesse o pensamento do Professor Doutor Vital Moreira. No texto que reproduzo, com a devida vénia, intuo uma crítica à posição da Intersindical.

Pois, inversamente, eu não vejo como o mundo laboral poderá algum dia confraternizar com o mundo do capital.