quinta-feira, 26 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * Na Praça do Desplante



Conta-se que dois mentirosos, dos mais afamados do meio, decidiram defrontar-se, para definirem qual deles seria o mais criativo.

Dos vários temas propostos, concordaram em escolher a política.

A Praça do Desplante estava lotada.

No palanque, exuberantes, os dois amigos, agora antagonistas.

A assistência, expectante, olhava.

O primeiro mentiroso, depois de simular uma atitude reflexiva, disse:

--- Meus amigos, todos nós estamos felizes com a situação que vivemos. Finalmente, temos um governo socialista!

Um ah! em surdina malagitou a Praça do Desplante.

O segundo mentiroso, assumindo um ar pesaroso, reconheceu:

---Quem não sabe que sempre fui um grande mentiroso! Mas, aqui, perante todos, sou obrigado a confessar que nunca conseguiria dizer uma mentira tão grande.

Outro ah! em surdina malagitou a Praça do Desplante.

Depois, em boa ordem, a assistência recolheu a suas casas.

Ficaram agitando o silêncio da praça vazia os versos maiores da cantiga...

E nós, pimba! E nós, pimba!


Gabriel de Fochem

Segunda-feira, 17 de Abril de 2006.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * A Política



Sabemos que a palavra política nos chegou dos gregos e que significa o governo da cidade.

Partindo daqui, poderemos entender por micro-política o governo do nosso lar e por macro-política o governo dos países. Creio bem ser pacífico este raciocínio.

Qualquer cidadão responsável sabe governar o seu lar. É uma situação comum. Fundamentalmente, sabe que nunca poderá «dar o passo maior do que a perna». Ah, estes ditados, sempre tão carregados de sabedoria!

Qualquer um destes cidadãos responsáveis --- e tantos, tantos são! --- sabe que o seu orçamento terá de atender às necessidades, partindo das mais urgentes para as menos urgentes, e por aí... até esgotar a hierarquização que estabeleceu. Sabendo muito bem que é para toda a família a comida que põe na mesa. E para além da mesa, tudo o mais, evidentemente.

Isto é tão claro, que até parece uma aberração estar a dizê-lo.

Ora, a realidade é subvertida quando se passa da micro-política, a tal que me permiti definir como o governo do lar.

No governo da cidade sucede o que todos sabemos. No governo do país, dos países, do mundo inteiro, afinal, igualmente sabemos. E seria fastidioso estar a enumerar as tantas e tantas situações que quotidianamente nos assaltam, nos ferem, nos magoam, nos indignam, nos envergonham...

É tempo de desmistificar o papão da política!

É tempo de desmistificar os autoproclamados políticos, que se consideram iluminados e que, afinal ---está à vista de todos! --- são os causadores de todos os males sociais que quase nos fazem descrer da humana condição.


Gabriel de Fochem

quarta-feira, 18 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * Perplexidade



Nesta vida, vou tentando observar quanto se passa em meu derredor e opinar, tanto quanto mo consente a minha condição de cidadão versado em coisa nenhuma.
Hoje, manifesto a minha perplexidade acerca do teor de um cartaz que está afixado no corredor da urgência do Hospital Espírito Santo, em Évora.
Na impossibilidade de apresentar uma imagem do cartaz, aqui deixo o seu texto:


É importante saber que…

A urgência hospitalar existe para o atendimento rápido das pessoas com situações de risco para a saúde.
O grau de gravidade da pessoa impõe a rapidez no atendimento.
O atendimento faz-se tendo por base a Triagem das Prioridades

A TRIAGEM DAS PRIORIDADES
(Manchester)


fundamenta-se em:

Classificação da gravidade da situação de cada pessoa que recorre ao serviço de urgência segundo protocolo do Grupo Português de Triagem.
A Enfª. (º) recebe a pessoa, observa-a, faz perguntas e estabelece a prioridade de atendimento, que é identificada com uma cor correspondente ao grau de gravidade (emergente, 0 minutos, cor vermelha; muito urgente, 10 minutos, cor laranja; urgente --- 60 minutos --- cor amarela; pouco urgente --- 120 minutos --- cor verde; não urgente --- 240 --- cor azul)

Elaborado por Albertina Dias, Ana Guerreiro e Rosalina Marques, no âmbito do projecto do 8º. Curso de Complemento da Formação em Enfermagem.
Ora, é importante saber que…

mas eu não sei, e gostaria de saber, se este cartaz, só pelo facto evidente de estar afixado, responsabiliza o Hospital e, por extensão, o Ministério da Saúde;
mas eu não sei, e gostaria de saber, se um(a) enfermeiro(a) está habilitado(a) a proceder a uma avaliação clínica.

Na esperança de um esclarecimento, aqui deixo o meu
até sempre!


Gabriel de Fochem
Junho de 2008.

(Ilustra este texto a foto de uma obra do pintor alentejano Dórdio Gomes)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

06 - ROMANCEIRO * Aforismos





É quando a morte chega à Feira das Vaidades

que ganha nitidez a nossa condição.


É quando o sal amarga e queima as veleidades

que a morte nos reduz à nossa dimensão.


É quando a luz do sol, cegando o vaga-lume,

esmaga a pequenez da néscia presunção.


É quando por grasnar chilreio se presume

que uma qualquer lamúria intenta ser canção.


É quando a Lua-cheia incita à tentação

que a noite se revela enleio enamorado.


É quando não há mais varinhas de condão

que o charlatão se quer o príncipe encantado.


É quando já ninguém consegue acreditar

que o verso em armas faz da vida o seu altar.




José-Augusto de Carvalho
In «Da humana condição»
EdiumEditores, Março de 2008

06 - ROMANCEIRO * A saudade do alvorecer



Para Jerónimo Sardinha



Da memória do tempo levanto

a magia daquela alvorada.
Foram armas e cravos de espanto
perfumando uma terra de nada.

A palavra, a doer, clandestina,
finalmente a mordaça arrancava!
Era o verbo, que tudo ilumina,
que, qual raio, na terra se crava.

E na terra de nada, a sangrar,
florescendo, as papoilas estendem
o seu manto a pulsar o querer

da manhã que, sorrindo, a chegar,
traz os astros que nunca se rendem
aos tentáculos do anoitecer.



José-Augusto de Carvalho
20 de Maio de 2008.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 13 de abril de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * O discurso


«vivo e desnudo» assume-se como um espaço de intervenção. Com o objectivo, sempre, de encontrar «a verdade a que temos direito» de que nos falou o saudoso poeta Ary dos Santos. Exactamente por isso, aqui se acolhe o pedido de divulgação do discurso do ministro brasileiro da Educação, proferido nos Estados Unidos da América do Norte.

Informa a querida Amiga Rosa de que não é todos os dias que um brasileiro dá um «baile» educadíssimo aos norte-americanos.


Durante um debate numa universidade dos Estados Unidos, o actual Ministro da Educação, CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência em alguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta de Cristovam Buarque:

'De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país.
Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos, Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história domundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!'

Nota:

ESTE DISCURSO NÃO FOI PUBLICADO.
AJUDE-NOS A DIVULGÁ-LO porque é muito importante ... e porque foi CENSURADO!

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10 - JORNAL DE PAREDE - Respondendo ao comentário do senhor Henrique Fialho



Senhor Henrique Fialho, a fim de se evitarem interpretações incorrectas, irei responder ao seu comentário, ponto por ponto.
1
Absolutamente de acordo quanto a qualquer cidadão ser (ou dever ser) responsabilizado por aquilo que diz ou faz.
2
Com ou sem ironia, o senhor refere orfeus de terracota, situação que remete para o texto que consta da primeira página do livro: Na capa / Orfeu / Jorge Vieira / Terracota / Col. Arq. José Maria Segurado.
3
Sabendo-se que terracota significa barro cozido, que paralelismo pretende o senhor estabelecer entre uma colectânea de versos e barro cozido? Entendo que menospreze os versos, não entendo o menosprezo pelo barro, seja cozido ou cru.
4
O senhor reincide no ataque ao editor Leonardo de Freitas pela sua decisão de editar o meu livro. Se ele raciocinasse pela cabeça do senhor, certamente não teria havido edição. Mas ainda que por remota e absurda hipótese tal lhe ocorresse, seria avisado fazê-lo, quando o senhor admite que o livro nada lhe diz por (e cito) «ignorância minha, certamente»?
5
Diz ser Brecht leitura aí de casa. E ainda não o admoestou pelo punho em riste?
6
E mais diz admirar Lenine, o homem de guerras, como decide apodá-lo. Muito bem! O senhor é realmente um achado! Um grande achado!
7
Afirma ter-se habituado a conviver bem com a diversidade de opiniões, de perspectivas e a, quanto a mim muito saudável, divergência política, estética, cultural, religiosa, etc.
Pois, bastará ler o vómito que o senhor derramou sobre «a instante nudez», para se ficar com a certeza da veracidade da sua afirmação.
8
O senhor está no seu pleno direito de criticar o livro, o que não fez. Optou pelo vómito. Quanto à liberdade que se permite invocar, esta palavra não dá cobertura à linguagem que usou.
9
Tudo no livro o leva a afirmar que neles (os poemas) tudo me «cheira a mofo, já visto, arroto panfletário, servilismo bacoco, ainda que o labor da cantoria ande às voltas com a insubmissão, a resistência, a recusa, a militância, o humanismo de punho em riste. Que eles digam muito a outros leitores, é o que, sem qualquer ironia ou cinismo, espero e desejo.
O senhor tem razão: a indignidade já cheira a mofo, mas persiste aí; o já visto, também;o arroto reaccionário, idem; e por aí… Basta olhar em derredor e, já agora, bastará lê-lo.
Quanto ao que os outros dirão, deixe-os serem eles a falar.
Depois do que o senhor disse do livro e de mim, é com repulsa que leio a hipocrisia desta frase: Que eles (os poemas) digam muito a outros leitores, é o que, sem qualquer ironia ou cinismo, espero e desejo.

Nesta apagada e vil tristeza, de que falou Luís de Camões, e que persiste, assim vamos… cruzando-nos, no caminho árduo, com iluminados como este senhor Henrique Fialho, de Rio Maior… e sem moca!

José-Augusto de Carvalho
Viana do Alentejo, 13 de Abril de 2008.
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