domingo, 15 de novembro de 2009

13 - CALEIDOSCÓPIO * Discórdia



Quando tu gritaste isto é meu,

logo a discórdia corrompeu

o nosso da fraternidade.

José-Augusto de Carvalho
22 de Abril de 2004.

Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

05 - REFLEXÕES * Caminhos...



Impenitente aprendiz, registo os sinais da memória vigilante. Aqui, é um caminho sem pressa de chegar; alí, é um valado bem guardado de silvas, amodorradas ao sol, enquanto as suas amoras amadurecem a saborosa guloseima da passarada; além, é o monte silencioso, no abandono da terra; mais além, em todo o derredor, é o azul, numa campânula celeste de parada beleza.


Ah, Se fores ao Alentejo, / não bebas em Castro Verde, / que as fontes cheiram a rosas / e a água não mata a sede.


O silvo de um comboio corta o silêncio. Os carris rasgam a imensidão das herdades. São raras as povoações que serve neste percurso ferroviário do Barreiro à Funcheira. Muitas das estações ficam a uma distância de quilómetros. Algumas já foram desactivadas e, ao abandono, arruinam-se. O critério que determinou o rasgar desta Linha de Sul não teve seguramente a finalidade de servir as populações. Assim foi no século XIX, assim foi no século XX, assim continua neste século XXI.


Aqui, as minhas primeiras idas a Lisboa eram uma aventura: de churrião, cumpria os quatro quilómetros da vila até à estação, estação que foi desactivada, se a memória me não trai, na década de sessenta do século XX. Hoje, para utilizar a linha férrea, terei de cumprir seis quilometros, de táxi, até à estação mais próxima, situada noutro concelho.
Uma maravilha de serviço público!


Há cerca de ano e meio, devido a internamento hospitalar de minha mulher, em Évora, durante um mês, utilizei, diariamente, o transporte colectivo rodoviário. Apenas de segunda a sexta-feira, por não haver esse transporte aos sábados, domingos e feriados.
Outra maravilha de serviço público!


Este é o país real.


Até sempre!
Gabriel de Fochem

terça-feira, 10 de novembro de 2009

01 - POSIÇÃO * Neste chão!




Não canto, porque não quero,
nem filhos de algo, nem clero.

Poeta, filho do vento,
invento os meus pergaminhos!
Que fiquem, por testamento,
ao pó de incertos caminhos!

Poeta sou, panteísta!
Acima de mim permito
apenas quem, alquimista,
poemas faz de infinito.

Poeta sou, neste chão!
E canto como quem lavra
uma promessa de pão
suado em cada palavra...





José-Augusto de Carvalho

17 de Abril de 2006.
Viana * Évora * Portugal
In Da humana condição, Março de 2008.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

10 - JORNAL DE PAREDE * OUTRORAGORA...





Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os, dizendo:


Em verdade vos digo,

-Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

-Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

-Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...


Pedro interrompeu:

- Temos que aprender isso de cor?


André disse:

- Temos que copiá-lo para o papiro?


Simão perguntou:

- Vamos ter teste sobre isso?


Tiago, o Menor, queixou-se:

- O Tiago, o Maior, está sentado à minha frente, não vejo nada!


Tiago, o Maior, gritou:

- Cala-te, queixinhas!


Filipe lamentou-se:

- Esqueci-me do papiro-diário.


Bartolomeu quis saber:

- Temos de tirar apontamentos?


João levantou a mão:

- Posso ir à casa de banho?


Judas Iscariotes exclamou:

(Judas Iscariotes era mesmo malvado, com retenção repetida e vindo de outro Mestre)

- Para que é que serve isto tudo?


Tomé inquietou-se:

- Há fórmulas? Vamos resolver problemas?


Judas Tadeu reclamou:

- Podemos ao menos usar o ábaco ?


Mateus queixou-se:

- Eu não entendi nada... ninguém entendeu nada!


Um dos fariseus presentes, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:

Onde está a tua planificação? Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didáctica mediatizada? E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional? Quais são as tuas expectativas de sucesso? Tens a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão? Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios? Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo aassegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem? Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais? Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes? Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, praxeológico e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e metadisciplinares?


Caifás, o pior de todos os fariseus, disse a Jesus:

- Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não lhe falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se lhe estraguem as estatísticas do sucesso. Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada. E vê lá se reprovas alguém! Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva!...


E Jesus pediu a reforma antecipada, aos trinta e três anos...



Nota: Recebi sem indicação de autor.
Publicada por José-Augusto de Carvalho

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

06 - ROMANCEIRO * Vocês...




Vocês vieram depois
das trevas da noite densa
e encaram com displicência
os medos da nossa insónia...

Vocês vieram depois
dos tempos das grandes fomes,
quando nos negaram ter
nosso tempo de meninos...

Vocês vieram depois
do tempo da delação,
das masmorras e torturas
de todos os Tarrafais...

Vocês vieram depois
e nem sequer lhes ocorre
que nós arriscámos tudo
para erguer este depois...

Vocês vieram depois
e não nos devem nada...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 3 de Setembro de 1996.



1- Memória do nazifascismo.
2- O Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, mandado construir pela ditadura fascista de Salazar, foi inaugurado em 1936 e encerrado em 1954. Em 1962, voltou a reabrir, mas só para os naturais das ex-colónias portuguesas, e foi definitivamente encerrado após o 25 de Abril de 1974.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

05 - REFLEXÕES * No reino do faz de conta

Sabia que o autoproclamado Estado Novo foi, entre muitas outras coisas, um reino do faz de conta. O que estaria longe de supor é que também este país de novembro o seria.

Hoje, desde o desfile dos que mudaram de ideário aos descaramento dos que ensaiam acrobacias para se equilibrarem no arame e negarem o óbvio, tudo é uma farsa. E os casos são sérios de mais para os encararmos com um sorriso de indiferença.

Os tempos que vivemos são de grande complexidade, agravada pela ambiguidade de uns e pela desfaçatez encapotada ou declarada de outros. E o povo interiorizou uma indiferença desencantada, resumindo-a num agastado «São todos iguais!».

Sem saudosismos, mas com verdade, aliás de fácil verificação para quem duvide, creio bem ser urgente um regresso à autenticidade, ao saber e ao decoro, à entrega e ao despojamento cívico, para se retomar o caminho da esperança íntegra e autêntica.

Basta de mistificação!

Basta de carnaval!


Gabriel de Fochem

domingo, 24 de maio de 2009

05 - REFLEXÕES * O Pensamento do Homem

Nunca o ano foi ruim por haver fartura
Pois é, a safra será sempre boa quando corresponde em quantidade e qualidade ao esforço-objectivo da sementeira? Ou convirá determinar o que é uma boa sementeira e também uma boa safra?
Diz a sabedoria dos povos que «quem semeia ventos, colhe tempestades». Posto isto, facilmente se entende que semear ventos não corresponderá a uma boa sementeira; logo colher tempestades, ainda que fartas, também não constituirá uma boa safra.
A memória dos homens regista os malefícios dessas muitas e muitas sementeiras e muitas e muitas safras envenenadas. E, apesar disso, as sementeiras e correspondentes safras continuam, para nossa desgraça.
Recentemente, falando com um amigo, dizia-me ele que essa história das ideologias já não conta. Tentei, em vão, recordar-lhe que o Pensamento do Homem determinou as correntes de opinião e delas decorrem as diversas respostas aos problemas, constituindo uma riqueza colectiva a nunca desprezar. Manteve a sua opinião.
Sabendo todos nós que, em democracia, das correntes de opinião resultaram os partidos políticos, concluiremos que que aquela posição do meu amigo é a negação das correntes de opinião enquanto tal responsáveis e responsabilizáveis.
Não quero nem posso acreditar na falência do Pensamento do Homem, mas sei que a opinião que divulgo aqui é subscrita por muitas pessoas, numa evidente condenação dos partidos políticos que nem sempre respeitarão como é seu dever os ideários de que se reclamam. E da falência do Pensamento do Homem ao ressurgir do homem-salvador vai um passo. E a História aí está a dar-nos conta desses homens-deuses e dos rosários de amarguras que provocaram.
Até sempre!

Gabriel de Fochem