sexta-feira, 9 de julho de 2010

06 - ROMANCEIRO * O delírio


Cada dia que passa, o mundo é mais pequeno.
As notícias que chegam, desnudam as misérias paridas pelo incensado avanço duma civilização que se reclama, aos quatro ventos, dos direitos humanos.
A civilização que, num frenético leilão, compra e vende consciências.
A civilização que avilta a dignidade em chás de caridade e em paradas de pompa e circunstância.
Ah, e como as pantalhas de todas as latitudes disputam, como as feras, a presa indefesa, em acções concertadas de eficaz e paciente anestesia!
Ah, e como a presa indefesa e quase inerme voga na corrente dum recuperado Hades, donde foi banido Caronte e a sua barca!...

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender, cada vez a preços mais acessíveis, as manhãs sem sol, o mar sem vida nem aventura, a desgraça sem fim da desesperança!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender o elixir da alienação, para, mais e mais, ser garantida a ostentação dos poderosos!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender as lotarias que fazem um rico e desesperam milhões de pobres!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender balelas coloridas que distraiam o dia sem fim e torturam de sonhos a noite da vida!

É preciso lamentar! É urgente lamentar! É inadiável lamentar o luto dos sobreviventes da catástrofe!

É preciso chorar! É urgente chorar! É inadiável chorar o pranto continuado das carpideiras que, por trinta dinheiros, elegem heróis os mortos, os mortos que já nada podem reclamar aos vendedores de ilusões e mentiras e aos carcereiros desta penitenciária de segurança provada, que pretende a fuga impossível e a morte o alívio que resta!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar os gritos lancinantes dos condenados!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar as verdades alucinadas da loucura que ainda grita que o rei vai nu na força da vontade que recusa render-se!

É preciso incensar o Poder! É urgente incensar o Poder! É inadiável incensar o Poder que legitima as cruzes intemporais de todos os calvários!

É preciso regressar a Roma! É urgente regressar a Roma! É inadiável regressar a Roma e recrucificar todos os perigosos malvados que sabem conjugar o verbo em todos os tempos.


Viana de Fochem
Julho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

06 - ROMANCEIRO * N' A jangada de pedra

Homenagem a José Saramago



N' «A jangada de pedra» partiste.
Tenebroso é o mar, nós sabemos,
mas, à vela ou à força de remos,
sempre chega quem nunca desiste.

«Levantados do chão», nós seremos
a certeza de nós que entreviste
mais além do «Mostrengo» que existe,
porque mais Cabos Não dobraremos.

Na memória dos nossos avós,
vem o sonho que apenas se faz
quando um homem tem pão e tem voz.

Chegaremos. E tu estarás,
sorridente, no meio de nós,
nesse cais de verdade e de paz.



José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2010.
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 8 de junho de 2010

06 - ROMANCEIRO * A verdade de mim!


Bendito seja o meu nome!
Semeio e colho este pão,
mas só migalhas me dão,
enganando a minha fome.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Arautos de feira exultam.
E com palavrinhas mansas
e falazes esperanças,
o meu dia a dia insultam.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Quem me promete o que é meu,
como se fosse oferenda?
Quem supõe que estou à venda?
Quem é aqui mais do que eu?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Da noite dos tempos venho,
vergado, chapéu na mão,
à deriva como um lenho
sem velame nem timão.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Milénios já percorridos
de sofrimento e lições,
quando os terei aprendidos
por memória e por razões?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Continuo um pé descalço,
um deserdado, a ralé,
a subir ao cadafalso
num qualquer auto de fé...

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Enredado em várias malhas
e presa dos maiores danos,
morro em todas as batalhas
só p'ra mudar de tiranos!

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Ah, que força, que arreganho
assim me tolhe a vontade
de me erguer e com verdade
ser livre e do meu tamanho?!

Até mudar de caminho,
serei sempre o Zé-povinho?



José-Augusto de Carvalho
Redigido em 21.03.1996
Corrigido em30.10.2009
Viana * Évora * Portugal

Nota: Este poema foi incluído no livro «Pátria Transtagana», editado em Outubro deste ano de 2014.

domingo, 6 de junho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Irã: quem atira a primeira pedra?

Texto de Frei Betto
02-Jun-2010


O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um "paiseco" como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?
Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?
Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o "eixo do mal". Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.
Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.
O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criação diabólica de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.
Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.
Fortalecido belicamente, o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?
Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, 5. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?
Há que se admitir: o Irã não está preparado para se integrar ao seio das nações civilizadas... Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade, fazem do consumismo o ideal de vida.
E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e que a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.
Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.
Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.
Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate as portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.
Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.

Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/
Cartaoberro

domingo, 9 de maio de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Há 65 anos...


8 de Maio de 2010 - 23h00
O dia em que os povos derrotaram o fascismo

A humanidade comemora neste domingo, 9 de maio, o dia da vitória. Nesta data, há 65 anos , os representantes do comando do exército nazista alemão, assinavam perante o comando soviético o ato de capitulação incondicional.

Por José Reinaldo Carvalho*
Nesse mesmo dia, depois de desbaratadas as tropas nazistas nos campos de batalha em toda a Europa, eram liquidadas em Praga, então capital da Tchecoslováquia, os últimos focos daquela que fora a maior máquina de guerra já montada até então. Estes dois acontecimentos assinalam o final da Segunda Guerra Mundial na Europa. É o dia da vitória, vitória dos povos da União Soviética, que arrostaram os maiores sacrifícios impostos pela guerra, vitória dos povos que derrotavam o regime fascista e reconquistavam a liberdade, vitória das nações que resgataram sua independência em face do império nazi-fascista. Vitória da humanidade.
Pouco antes, em 30 de abril, depois de uma desesperada resistência alemã nos campos de batalha da Prússia Oriental e da Áustria, as tropas soviéticas entraram em Berlim, atacaram os últimos redutos dos nazistas e içaram sobre o Reichstag a bandeira da vitória, o pano encarnado da aliança operária e camponesa que ali representava a unidade dos povos de todo o mundo. Em 2 de maio, capitulava a guarnição de Berlim.
Caía assim o estado fascista alemão, quebrava-se a colossal máquina de guerra que submeteu e atormentou a humanidade.
Guerra imperialista
Naquele 9 de maio, há 65 anos, terminava na Europa a guerra que causou a morte de 50 milhões de pessoas nos campos de batalha e sob bombardeios. Nos campos de concentração nazistas 12 milhões de pessoas foram assassinadas sob cruéis suplícios. Outros milhões de pessoas – quase 100 milhões! – ficaram inválidas ou mutiladas. Os povos da União Soviética pagaram o maior preço – 27 milhões de mortos, entre estes 7,5 milhões de soldados. Quatro meses depois, em dois de setembro, terminava em definitivo o conflito, com a capitulação japonesa.
A Segunda Guerra Mundial iniciada em 1939, com o ataque à Polônia, tinha em sua origens, tal como a Primeira, as contradições interimperialistas. Desencadeada pelas potências mais agressivas à época, sobretuido a Alemanha nazista, foi a culminância do desenvolvimento desigual do mundo capitalista, de suas crises, da luta por mercados e fontes de matérias primas, pela redivisão do mundo e pelo poder mundial.
Nessa disputa, o objetivo da Alemanha era estabelecer a hegemonia na Europa e ampliar seu império no Oriente Médio e na África. O Japão pretendia estabelecer sua hegemonia no Oceano Pacífico, transformar em suas colônias a China, a Coreia, a Indonésia, a Indochina, a India e as ilhas do Pacífico. Já os fascistas italianos sonhavam em transformar o Mar Mediterrâneo num “mare nostrum” italiano, submeter os países balcânicos e ocupar a Argélia, a Tunísia, a Córsega e outros países. Esses objetivos hegemonistas entravam em contradição com os interesses da Grã- Bretanha, da França e dos Estados Unidos.
A Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha , mas nenhuma ação militar se desenvolveu na frente ocidental até abril de 1940, o que permitiu à Alemanha aumentar o número de territórios ocupados. Em abril de 1940 foi a vez da Dinamarca e da Noruega serem pisoteados pelo tacão nazista e em maio maciços bombardeios foram feitos sobre a Holanda, a Bélgica e a França. Sem resistência e até com dócil cooperação das vítimas, avançavam pela Europa as tropas hitleristas. Pior dos opróbrios para uma nação que se orgulhava de ter sido revolucionária, a França cai sob o ditame hitleriano e assina a ata de capitulação.
Grandes batalhas soviéticas
A guerra muda de caráter a partir da invasão da União Soviética, em 22 de junho de 1941. Parecia o auge da campanha militar fascista, mas logo se viu que a agressão à pátria do socialismo foi o começo do fim do exército e do regime de Hitler. A imaginada derrocada do socialismo sugeriu a alguns, primeiramente os fascistas mas também às potências capitalistas ocidentais, a estratégia de soerguer uma “nova ordem”através de acordos secretos e de uma bem urdida divisão do mundo entre os países imperialistas. Mas foi exatamente a partir daí que o curso dos acontecimentos mudou.
A União Soviética, no começo em inferioridade, organiza a resistência. Mais adiante passará à ofensiva. E fará com que a guerra termine no quartel-general de quem a iniciou.Todo o poder estatal da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, nas circunstâncias de ameaça à sobrevivência da pátria, concentra-se doravante no Comitê Estatal de Defesa. Com a proclamação “A Pátria em Perigo!”, Stálin faz um chamamento a todos os povos da URSS a se levantarem e concentrarem forças na luta para desbaratar os agressores. O front e a retaguarda se transformaram num só e indivisível campo de batalha.
Ainda em 1941, o exército nazista fez profundas incursões no território da URSS. Ocupou a Ucrânia e a Bielorrússia e iniciou celeremente uma marcha rumo a Moscou. O comando nazista imaginou uma rápida tomada da capital e chegou a declarar que em 7 de novembro, quando habitualmente os soviéticos comemoravam o aniversário da Revolução num grande desfile militar e em concentrações populares, o exército alemão realizaria sua parada militar na Praça Vermelha. Mas o povo moscovita travou encarniçadas batalhas e sustentou heroica resistência, primeiro detendo, em seguida rechaçando para bem longe os agressores nazistas. A derrota germânica às portas de Moscou foi um acontecimento militar de grande importância que viria a exercer enorme influência nos desdobramentos da guerra. Terminava ali o mito de que o exército hitlerista era invencível. A partir de então, os povos soviéticos e todos os povos submetidos pelo fascismo ganharam confiança, inspiração e força moral para enfrentar o pior inimigo da humanidade.
Outra virada radical que determinou o desenvolvimento posterior dos acontecimentos políticos e militares da Segunda Guerra Mundial foi a batalha de Stalingrado. Foram travados sangrentos combates, a partir de determinada altura em cada palmo da cidade, em cada rua, em cada casa, transformadas em trincheiras, combates de cada homem e mulher, velhos e jovens, soldados improvisados, que escreveram uma das epopeias mais heróicas de todos os tempos.
Em Stalingrado, começou a queda do exército germânico, do estado fascista. Após Stalingrado inverteu-se o quadro de forças da guerra. Duas outras grandes batalhas, dentre as centenas de ações de resistência e combate do Exército Vermelho, a de Kursk (julho de 1943) e a de Leningrado (janeiro de 1944) foram também enfrentamentos decisivos para desbaratar a máquina de guerra de Hitler.
Ofensiva libertadora
É necessário assinalar ainda a grande ofensiva do exército soviético em 1944 e 1945, com a libertação da Ucrânia, da Bielorrússia, dos países bálticos e as incursões nos territórios da Romênia, Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia e, por fim, a já mencionada tomada de Berlim.
A vitória dos povos na Segunda Guerra Mundial é resultado ainda de dois outros fatores – a
coalizão anti-fascista e as lutas democráticas e populares, que constituíram fator decisivo para a derrubada do fascismo. Espalharam-se as lutas guerrilheiras e os exércitos guerrilheiros em toda as partes da Europa e Ásia. Em todos os continentes, os povos se organizaram em frentes populares de libertação nacional nas quais participavam amplos setores progressistas. Amadureceu a ideia e consolidou-se a experiência de realizar amplas alianças políticas para bater o inimigo comum, com papel destacado para as forças revolucionárias, particularmente os comunistas.
Em todas as partes foi grande o clamor para que os Estados Unidos e o Reino Unido se aliassem à União Soviética e fosse criada a frente ocidental. O reflexo disso no Brasil foi a pressão política e social para que o governo de Getúlio Vargas abandonasse a política de eqüidistância e aderisse ao esforço de guerra dos Aliados. Os governos das grandes potências ocidentais, nomeadamente os EUA e o Reino Unido e os das nações por estes polarizadas acabaram compreendendo que era indispensável a cooperação com a URSS, para enfrentar a Alemanha, mesmo mantendo suas ambiguidades, seus objetivos imperialistas e os seus interesses meramente pragmáticos de afastar o concorrente interimperialista.
A celebração do Dia da Vitória não é algo que não diga respeito à geração que numa outra situação histórica luta hoje pela paz, a democracia, a independência nacional e o socialismo. São graves as ameaças que pairam sobre a humanidade. Com diferenças na forma e nas proclamações, as forças imperialistas e em primeiro lugar os Estados Unidos da América submetem os povos a novos tipos de tirania, funcionais à manutenção de uma ordem iníqua, baseada no poder do imperialismo e de classes dominantes retrógradas, que impõem restrições de toda ordem à liberdade, atentam contra a soberania nacional, promovem políticas anti-sociais em que a regra básica é a violação dos direitos dos trabalhadores, militarizam o planeta, põem em perigo a paz e a segurança da humanidade e contaminam o ambiente.
É indispensável conhecer o passado, como agiu o inimigo e como lutaram os povos, primeiro para que os crimes de lesa-humanidade não se repitam jamais e também para que as atuais gerações de militantes sejam capazes de recolher as ricas lições que emanam da experiência heróica das gerações anteriores.
* Editor do Portal Vermelho

domingo, 25 de abril de 2010

06 - ROMANCEIRO * A recusa


A Rosa dos Ventos - Ponta de Sagres, Portugal


Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!


O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.

Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!

Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte e com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...



José-Augusto de Carvalho
20 de abril de 2010.
Viana * Évora * Portugal


(Apenas com este poema me é possível assinalar a Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de Abril de 1974.)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Tiradentes e a atualidade da Questão Nacional



Brasil, 20 de Abril de 2010.

Tiradentes e a atualidade da Questão Nacional


Aldo Rebelo*



Joaquim José Da Silva Xavier
Tiradentes, primeiro mártir da independência


Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!

Cecília Meireles, em O Romanceiro da Inconfidência


A atualidade de Joaquim José da Silva Xavier deve ser celebrada no 218º aniversário de sua imolação como símbolo de um movimento de autonomia nacional que ainda hoje está por se completar na formação social brasileira. A Conjuração Mineira foi um daqueles sonhos a que os homens se entregam por intuírem o caminho da História antes de a História lhes oferecer as condições determinantes para a materialização do sonho. Assim ocorreu com a Comuna de Paris, em 1791, definida por Karl Marx como uma tentativa de tomar o céu de assalto. Como já tive oportunidade de observar, também aos revolucionários de Vila Rica a História não recusou a razão, mas lhes negou a oportunidade.
O projeto político de conquistar a Independência e proclamar a República do Brasil foi muito além da troça que certos centros de pensamento querem lhe atribuir, apontando os conjurados como mais interessados em não pagar impostos à Coroa portuguesa do que em fundar uma nação. Joaquim José da Silva Xavier foi líder visionário, não um fantoche manipulado pela elite de Vila Rica, que, afinal, se era elite interessada na Independência do Brasil, constituía o povo da época. Como na memorável luta contra os holandeses no Nordeste, no século anterior, em Minas também se reuniam pela causa nacional os reinóis, os mazombos, os mestiços. Todos foram punidos, uns com a morte na cadeia, outros com o degredo e Tiradentes com a forca. Os banidos para a África e que lá morreram só voltariam à pátria por ordem do presidente Getúlio Vargas, que em 1942 mandou buscar um a um os heróis falecidos no desterro.
Inspirados por versos de Virgílio [Libertas quae sera tamen], reivindicavam liberdade ainda que tarde, e tinham como fonte os filósofos do Século das Luzes que refletiam a crise do Absolutismo e do Colonialismo no século XVIII e forjavam novas idéias e poliam os homens que iriam lutar e morrer por elas. Os conjurados de Minas Gerais miravam as nuvens que a Ilustração espalhara no céu da democracia, do que foram exemplos mais eloqüentes a Independência dos Estados Unidos da América, que nasciam como república, e a gloriosa Revolução Francesa. Nações em formação no Novo Mundo, como a americana e a brasileira, e as Colômbias de Simon Bolívar, já eram grandes demais para caber no apertado gibão da Europa feudal em transição para o capitalismo.
O sonho dos conjurados era implantar fábricas de tecidos e siderurgias na colônia que queriam tornar país. Tiradentes desenvolveu sua consciência política patrulhando o Caminho Novo, que ligava Minas ao Rio, por onde via passar as riquezas das jazidas auríferas do Brasil desviadas para Portugal, na quota de 100 arrobas de ouro por ano, aumentada em 1762 para oito mil quilos a título de dívida fiscal atrasada. O esbulho levava o nome de derrama.
Preterido nas promoções da Cavalaria, nunca tendo passado do posto de alferes, estabeleceu-se no Rio, levando a vida como qualquer do povo, trabalhando de mascate, tropeiro, boticário e dentista. Não era um homem sem luzes: órfão, sem nunca ter feito estudos regulares, projetou a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para melhorar o abastecimento de água da sede do vice-reino. Há notícias de que admirava o progresso industrial da Inglaterra, guardava um exemplar da Constituição dos Estados Unidos e citava a figura do presidente da República em oposição a um rei distante.
Depois de enforcado, em 21 de abril de 1792, no Largo de Lampadosa, atual Praça de Tiradentes, no Rio de Janeiro, teve os restos mortais espalhados na estrada que patrulhara e onde tecera seu sonho de Independência política, econômica e cultural do Brasil. Seus algozes o queriam maldito e esquecido, mas cada parte de seu corpo esquartejado parece ter servido de semente para a árvore da liberdade que germinou no Brasil e ornamentou os versos de Cecília Meireles. O povo do Rio de Janeiro logo mandou celebrar missas na intenção da alma do herói, e, pelo repúdio público, fez com que o traidor Joaquim Silvério dos Reis mudasse o nome para Montenegro e o domicílio para o Maranhão.
A atualidade de Tiradentes é a mesma da Questão Nacional que ele antecipou antes da expressão. Seu vulto histórico nos repõe a importância e urgência de um projeto de autonomia nacional com vistas à consolidação de um País forte, soberano, próspero, que produza e distribua riquezas suficientes para assegurar o bem-estar material e espiritual desta civilização única que erguemos nos tópicos.
Desde a infância da Nação esta tem sido uma empreitada difícil. A mesma rainha louca Maria I que mandou esquartejar Tiradentes, promulgou um alvará proibindo fábricas no Brasil e mandou destruir até os teares em que as mulheres fiavam a roupa dos filhos. Quase um século depois, os próceres da República, empenhados em industrializar o Brasil, eram dissuadidos pela casa bancária inglesa dos Rotschild, que nos recomendava exportar café e deles comprar linha, agulhas e botões. Foi na construção da identidade nacional que a República resgatou o heroísmo de Tiradentes.
As lutas do passado continuam, por outros meios e caminhos, no presente. Os embates que o Brasil trava contra o protecionismo das grandes potências, as pressões para a liberalização comercial que nos engoliria como país produtor de riquezas, e tantas outras ofensivas, fortalecem a convicção de que a Questão Nacional está viva, e aponta para a necessidade de mantermos a soberania nacional como atributo essencial do Estado.
Nos dias de hoje, sofremos um tipo novo de intervenção que nos limita a autonomia de dispormos de nosso território e recursos naturais em benefício do desenvolvimento e do bem-estar do povo. A abertura de estradas, construção de hidrelétricas, vivificação das zonas de fronteira, modernização de leis para ampliação da agricultura e democratização da propriedade da terra são boicotadas por governos estrangeiros e suas cabeças de ponte chamadas ONGs do meio ambiente. O exemplo histórico de Tiradentes é um alento para continuarmos a luta pela autonomia de um projeto nacional e soberania do Brasil.*Aldo Rebelo é jornalista, escritor e deputado federal (PCdoB-SP). Recebeu em 10 de novembro de 2003 a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

*Aldo Rebelo é jornalista, escritor e deputado federal (PCdoB-SP). Recebeu em 10 de novembro de 2003 a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.