sábado, 17 de julho de 2010

03 - O MEU RIMANCEIRO * Nihil sine causa

O MEU RIMANCEIRO

(QUE VIVA O CORDEL!)

*

Nihil sine causa



A feira dos medíocres continua!

Senhores, quem dá mais? Quem arremata?

Sujeita à turba e à provação da rua,

a chusma de alimárias à arreata!



Os guizos, nos molins, são uma festa!

Em algazarra, corre o rapazio!

Morenos pelo sol que em fogo cresta,

ciganos e malteses de ar sombrio...



Barracas de andrajoso amor comprado,

um vómito de nojo purulento!

E, ao sol deste martírio, o descampado

inteiriçado ao frio do relento...



Lá longe, na cidade bem guardada,

a corte, em seus festins, não dá por nada...



(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
26 de Janeiro de 2000.

10 - JORNAL DE PAREDE * A tirania dos títulos


Texto de Zoltan Zigedy

Noventa anos atrás Lenine afirmou que "sob as condições gerais da produção de mercadorias e da propriedade privada, a 'dominação' dos monopólios capitalistas torna-se inevitavelmente a dominação de uma oligarquia financeira". Ele desenvolveu a ideia de que "A supremacia do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital significa a predominância do rentista e da oligarquia financeira". Deixarei ao leitor curioso o exame de Imperialismo: A etapa superior do capitalismo para verificar a argumentação convincente que está por trás desta afirmação presciente. Mas seguramente ela decorre de um entendimento profundo da exposição de Marx da lógica do capitalismo e da evidência disponível no tempo de Lenine. Ironicamente, esta projecção agora antiga – esta previsão da dominância do capital financeiro – diz mais da crise económica que agora devasta o planeta do que a multidão de laureados com o Prémio Nobel que pontificam acerca da causa da retracção começada em 2008. A dominância de uma "oligarquia financeira", como prevista por Lenine, atingiu o seu zénite durante os últimos vinte anos com o sector financeiro a duplicar a sua fatia dos lucros corporativos nos EUA. Mas "dominância" não é meramente uma matéria de supremacia no lucro; ela inclui também a ascendência do poder político, social e ideológico. A viragem neoliberal introduzida solenemente no fim da administração Carter e vigorosamente alimentada por Reagan principiou um processo de desregulamentação que acabou por remover as algemas nas finanças estabelecidas pelo New Deal. O sector financeiro desencadeou a dívida como o mecanismo para escravizar consumidores, cidades, municípios, estados e países soberanos. Fundos de pensão foram ou privatizados ou atraídos para grupos de investimento especulativo. Cartões de crédito, hipotecas e títulos tornaram-se as ferramentas de dominação da oligarquia financeira. Ao mesmo tempo, os enormes lucros acumulados permitiram ao sector financeiro comprar uma influência decisiva no circo dos dois partidos, através de lobbies, contribuições de campanha e corrupção desenfreada. Com a notável excepção da descrição do perverso Gordon Gekko no filme de Oliver Stone, os banqueiros de investimento foram encarados como as figuras mais brilhantes, mais dinâmicas e mais invejadas da imaginação popular. Dominância inevitavelmente convida à tirania e o sector financeiro avidamente aproveitou a oportunidade. Hoje, a expressão desta tirania é a noção louca de que bancos são "demasiado grandes para falirem". Vemos esta tirania na arrogância da Goldman Sachs, a operar sem nenhum respeito pelos interesses nacionais ou a opinião pública e sem qualquer travão efectivo do governo. Analogamente, a timidez de legisladores em conceber regulação bancária efectiva destaca esta tirania. Mas nada sublinha mais esta tirania do que a actual crise da dívida europeia. CRISE EUROPEIA A Europa, hoje, é uma refém do mercado de títulos. Porque a União Europeia é um projecto comum incompleto com desigualdades, desequilíbrios e contradições histórica, ela é presa fácil para a oligarquia financeira. Estas condições de fraqueza abandonam as economias menos desenvolvidas aos abutres do capital financeiro. Mas o jogo não era a solvência porque nunca houve realmente qualquer questão – como as coisas estavam no fim de 2009 – de que a Grécia, Portugal, Itália, Irlanda, Espanha ou mesmo Roménia e Hungria pudessem cumprir suas obrigações de dívida ou assegurar novos empréstimos. Mais exactamente, a crise foi tramada pelos predadores financeiros. O ataque especulativo em grande escala por parte do sector financeiro estrangulou estas economias até à submissão, forçando-as, no momento em que a recuperação estava no equilíbrio, a abandonar quaisquer programas de estímulo e a abraçar uma extrema austeridade do sector público. Nove meses depois, este pânico da dívida propagou-se através do mundo, com governos a correrem para cortar empregos no sector público, benefícios e salários, eliminando programas sociais e privatizando obras públicas. Como carneiros, políticos, sabichões e comentadores acrescentaram suas vozes reverenciais aos mercados de títulos. O governo do PASOK na Grécia prosternou-se à oligarquia financeira, seguido pelos governos espanhol, português e irlandês. O novo governo do Reino Unido garantiu cortes profundos nas despesas do governo. Preocupações com dívida empurraram para o lado todas as outras questões nas eleições holandesas. O governo francês está a pressionar por um aumento na idade de reforma. E o novo governo da Hungria quase entrou em colapso ao sugerir que podia desviar-se do plano de jogo imposto pelo FMI de miserabilismo fiscal. Os EUA, embora não afectados pela agressão financeira, também sucumbiram à extorsão da oligarquia financeira. O presidente Obama pretende cortar a Segurança Social e o Medicare através da sua discreta Comissão sobre Responsabilidade e Reforma Fiscal. Para aqueles que se recusam a desafiar a dominância dos mercados financeiros e a tirania dos títulos, não há nenhum outro caminho senão aceitar e impor cortes profundos nos gastos públicos. O ataque à Grécia foi uma demonstração do poder do sector financeiro e a sua brutalidade ao utilizá-lo. Exactamente quando os cortes de despesas começam a sentir-se, a Grécia experimenta inflação explosiva, um desenvolvimento fatal nos seus efeitos sobre os padrões de vida da classe trabalhadora grega. Mas há uma resposta à tirania dos títulos, uma resposta que apela à mobilização em massa do povo trabalhador contra a oligarquia financeira. Essa resposta recusa-se a acatar um sistema que promete atrasar durante décadas a segurança e os padrões de vida do povo trabalhador e oferece-lhe um futuro negro. Os omnipresentes porta-vozes da oligarquia financeira apelam a sacrifícios para restaurar a ordem no sistema económico. Isto é um logro calculado. Não há qualquer nobre sacrifício em capitular à extorsão ou aceitar que há a inevitabilidade da dominação dos mercados financeiros. Trabalhadores na Grécia, liderados pelos comunistas gregos e o agrupamento de todos os sindicatos, PAME, estão na vanguarda da organização de greves e manifestações contra a oligarquia financeira. A sua determinação e apelos à unidade estabeleceram um exemplo para todos os trabalhadores europeus. Nos calcanhares das acções gregas, trabalhadores portugueses foram às ruas. A maior central sindical da Espanha, Comisiones Obreras, foi à greve em 8 de Junho, com 75% dos 2,6 milhões de trabalhadores da organização aderindo à acção e com uma greve geral prevista. Trabalhadores do sector público na Roménia organizaram várias acções militantes. Quando o combate se intensifica, a unidade é essencial – mas não a expensas da militância. Os resmungos das lideranças de muitos sindicatos europeus são bem vindos, mas devem ser apoiados por organização efectiva e mobilização de massa. Recentemente, vários líderes sindicais do Reino Unidos falaram iradamente dos cortes draconianos prometidos pelo novo governo, mas falharam em apresentar mais do que retórica estridente e futuras ameaças eleitorais. Nos EUA, uns poucos líderes têm falado contra o assalto encoberto da administração Obama a programas sociais, mas um movimento de massa ainda está por emergir. Uma confrontação de base classista com a oligarquia financeira enfrenta muitos obstáculos, o não menor dos quais é a quase total dominação do trabalho organizado no pós Guerra-Fria pelos colaboracionistas de classe, a liderança social-democrata. E os oligarcas financeiros estão plenamente conscientes desta fraqueza. Recentemente, o chefe da Comissão Europeia, presidente José Manuel Barroso, reuniu muitos dos líderes sindicais social-democratas para instruí-los sobre os perigos de resistir ao assalto aos padrões de vida provocados pela "crise" predatória da dívida. Conforme relatado pelo Daily Mail britânico: "Numa palestra extraordinária a responsáveis sindicais na semana passada, o presidente da Comissão José Manuel Barroso expôs uma visão "apocalíptica" na qual países atingidos pela crise no Sul da Europa poderiam tornar-se vítimas de golpes militares ou levantamentos populares quando taxas de juro subirem e serviços públicos entrarem em colapso porque acaba o dinheiro dos seus governos". São os "levantamentos populares" que Barroso teme, um temor que é partilhado pelos líderes sindicais social-democratas. Além disso, ele quer alistar estes líderes na tarefa de empurrar o programa de austeridade goela abaixo dos trabalhadores. John Monks, responsável do European Trades Union Congress, comentou: "Tive uma discussão com Barroso sexta-feira passada acerca do que pode ser feito para a Grécia, Espanha, Portugal e o resto e a sua mensagem foi brusca: "Olhe, se eles não executarem estes pacotes de austeridade, estes países poderiam virtualmente desaparecer do modo que os conhecemos como democracias. Eles não têm nenhuma escolha, é isto". Ao mesmo tempo, "o sr. Monks advertiu ontem que as novas medidas de austeridade poderiam por si próprias levar o continente 'de volta à década de 1930' ", segundo o Daily Mail. Claramente, sociais-democratas como o sr. Monks estão desejosos de remeter a classe trabalhadora europeia "de volta aos anos 1930" ao invés de arriscar levantamentos populares que desafiariam a oligarquia financeira. A Federação Sindical Mundial apelou a um dia internacional de acção do movimento sindical em 7 de Setembro de 2010. Devem ser feitos todos os esforços para preparar esta acção ao longo do Verão. Devem ser feitos todos os esforços para mobilizar o povo trabalhador contra a oligarquia financeira. Levantamentos populares é o que precisamos.

*

quarta-feira, 14 de julho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Francisco Luciano Lepera


O jornalista Francisco Luciano Lepera morreu aos 86 anos de idade na manhã deste domingo (11), em sua residência, em Ribeirão Preto, após lutar por quase dois anos contra o Mal de Alzheimer.O corpo de Lepera foi enterrado hoje (12) no Cemitério da Saudade. Além de jornalista, Lepera também foi vereador e deputado estadual pelo Partido Comunista, entre as décadas de 50 e 60.Lepera teve os direitos políticos cassados por 10 anos e impedido, inclusive, de trabalhar em qualquer veículo de comunicação. Ele deixa um filho, uma neta e dois bisnetos.

Um patriota, um lutador do povo
Texto de Vanderley Caixe


Conheci Luciano Lepera quando eu tinha 15 anos. Foi num comício nas confluências da rua Minas com a rua Paraíba. Estava ele em cima de um caminhão velho, com o microfone na mão e o som do alto-falante vindo da capota do veículo. Luciano era candidato pela primeira vez à Assembléia Legislativa de São Paulo. Vinha de vários mandatos como vereador, em Ribeirão Preto. Fora um dos vereadores mais atuantes na defesa dos trabalhadores e dos interesses nacionais. Autor de mais de 700 projetos nessa linha. A fala de Luciano Lepera, em cima daquele caminhão, não era um discurso de comício, era a palavra segura, emocionante em defesa do nosso povo e da soberania nacional. Era didático. Comício que não se faz mais. Luciano era o professor: explicava a origem da carestia, nominava os grupos que exploravam a nossa gente e o nosso país. Fazia do palanque a sala de aula. Não fabricava eleitores, mas produzia em cada comício homens conscientes, cidadãos indignados com a rapina de nosso país. Naquela noite, recordo-me ainda, falava da luta : o "petróleo é nosso", da árdua luta para manter essa riqueza em nosso solo e aproveitá-la somente em prol do Brasil.
Lembro-me dos nomes de nacionalistas, como Euzébio Rocha, o autor do substitutivo que deu origem à Lei 2004 , instituindo o monopólio estatal do petróleo, para a tristeza dos imperialistas da Esso, Shell, Texaco e outras componentes das sete irmãs : as responsáveis pelas guerras e invasões e tantos horrores cometidos nos países do terceiro mundo. Luciano Lepera nominava os nossos patriotas como o general Estilac Leal, Gondim da Fonseca, Maria Augusta Tibiriçá Miranda, entre tantos outros valorosos defensores da nossa nacionalidade; estimulava a nossa virtude e o orgulho de ser brasileiro. Fui conscientizado nesse comício-aula. Relembro, ainda, a sua simplicidade no vestir, como aliás é até hoje, revela o seu total desapego aos bens materiais. Sempre ofereceu tudo o que ganhava às lutas populares, aos sindicatos, ajudando os companheiros em dificuldades. Era a imagem do lutador , do conscientizador, do agitador que entregou a sua vida pela causa do nosso povo e do nosso país. Lepera, eleito deputado estadual, dedicou o seu mandato inteiramente a serviço do povo e da nação: ora estava na Assembléia Legislativa denunciando os esbirros da polícia e o massacre da população, que lutava pelos seus direitos; ora estava nas portas das fábricas ajudando a garantir o direito de greve; ora estava nos palanques na luta pela paz e contra as invasões imperialistas nos países do nosso continente ; ora ainda preocupava-se em elaborar projetos em defesa do trabalhador rural e urbano, dos professores, dos menos favorecidos e dos excluídos. Não foram poucas as viagens que fez para o interior do Estado de São Paulo, ajudando a criar sindicatos, interferindo junto às delegacias de polícia nos casos de prisões de trabalhadores. Uma luta incansável, diuturna, popular e patriótica. Esse não era o deputado que interessava à classe dominante, exploradora e entreguista. Era preciso calar a boca do líder Luciano Lepera. Esse deputado era um "perigo para os privilegiados do sistema, das empresas estrangeiras sediadas no Brasil". Em 1962, eu ingressava na Faculdade de Ciências Econômicas, da qual fui presidente do Centro Acadêmico e expulso, no golpe militar de 1964. Nesse período, continuei acompanhando a luta pela reeleição de Luciano Lepera. Alguns meses depois, surpreso, soube que o Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo havia cassado o registro da candidatura de Luciano Lepera, com base num extenso relatório do Departamento de Ordem Política e Social – o famigerado DOPS. Luciano Lepera recorreu e concorreu às eleições. Foi eleito, mas não lhe deram posse. Um ano depois, veio o golpe da direita, dos grandes grupos econômicos, do imperialismo e dos traidores da pátria. E Luciano foi preso, perseguido e silenciado durante todo o tempo da ditadura. Resistiu sempre, sem perder a dignidade alimentada pelos seus ideais, de uma sociedade justa, de um povo livre e um país soberano. Hoje, apesar da idade, continua a lutar. Leio todos os dias os seus magníficos artigos, nas páginas do jornal A Verdade e me inteiro da admiração, respeito e carinho que essa geração mais nova, de jornalistas e idealistas, têm pelo nosso Luciano Lepera. Entre eles o Zé Fernando Chiavenatto, de quem o Luciano sempre me fala. Mesmo essa geração que o admira e o respeita, talvez conheça pouco da dimensão dessa figura e das causas (arbitrariedades) apontadas para a cassação do seu registro. Há dias, procurando nos arquivos do Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo, localizamos parte dessas arbitrariedades, praticadas contra o Luciano Lepera. Encontramos, nos porões daquele famigerado órgão, os arquivos deste processo e o relatório do DOPS, que serviu de base para a cassação do registro desse nosso grande patriota. Lendo-os, seria preciso não ser brasileiro para não nos revoltarmos com as indignidades, o servilismo aos grandes grupos alienígenas tanto de belegüins de polícia como de juízes, procuradores e desembargadores dessa nossa “justiça”. O objetivo de fazer conhecer esse "dossiê" (relatório) político-policial é o de revelar a magnitude da grandeza e a história política, popular e patriótica de Luciano Lepera; enquanto para o DOPS, para os exploradores do povo, para o imperialismo, Luciano era “criminoso” e deveria ser cassado. Essa é a verdade dos dominadores e exploradores do povo. A luta de Luciano Lepera é a luta dos justos, pelos excluídos da grande sociedade, a luta em defesa da nossa pátria e das nossas riquezas. Para os vendilhões da pátria e exploradores do nosso povo, era preciso negar-lhe o registro e os votos de quantos votaram na continuidade da sua luta. Vou citar apenas alguns trechos desse relatório do Dops e da denúncia oferecida pela procuradoria contra Luciano Lepera: "....segundo informação prestada pela autoridade policial de Ribeirão Preto em 17 de novembro de 1948, a pedido deste DOPS, o epigrafado era componente do comitê do "Centro de Estudos do Petróleo" daquela cidade, pertencendo ao "Departamento de Imprensa" desse comitê ". Em outro trecho (do relatório do DOPS)... ".....(Luciano Lepera e outros) realizaram, no dia 24 de março de 1956, nos salões do "C. Paulista", uma reunião de apoio a Campanha Nacional Pró-Anistia aos Presos e Processados Políticos". Outro "crime" de Luciano Lepera, anunciado pelo DOPS a serviço do imperialismo: ".....que no dia 3 de novembro de 1957, realizou-se na sede da União Geral dos Trabalhadores – UGT - de Ribeirão Preto, a primeira reunião do "Núcleo Nacionalista" daquela cidade que, como as demais congêneres do País, se propõe a "defender as riquezas nacionais, preservando-as da conquista estrangeira." Nessa oportunidade, procedeu-se a eleição da comissão provisória e, na sua constituição, consta o nome do vereador e jornalista Lepera." Eis o "crime" de Luciano Lepera: "defender o povo e as riquezas nacionais... Por isso e, por toda a história de Luciano Lepera, tenho a honra de partilhar dessas justas homenagens, para perpetuar esse exemplo de dignidade e perseverança aos ideais de defesa do nosso povo e da nossa Pátria. Parabéns, Luciano!
Do companheiro, sempre,

Vanderley Caixe.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

06 - ROMANCEIRO * O delírio


Cada dia que passa, o mundo é mais pequeno.
As notícias que chegam, desnudam as misérias paridas pelo incensado avanço duma civilização que se reclama, aos quatro ventos, dos direitos humanos.
A civilização que, num frenético leilão, compra e vende consciências.
A civilização que avilta a dignidade em chás de caridade e em paradas de pompa e circunstância.
Ah, e como as pantalhas de todas as latitudes disputam, como as feras, a presa indefesa, em acções concertadas de eficaz e paciente anestesia!
Ah, e como a presa indefesa e quase inerme voga na corrente dum recuperado Hades, donde foi banido Caronte e a sua barca!...

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender, cada vez a preços mais acessíveis, as manhãs sem sol, o mar sem vida nem aventura, a desgraça sem fim da desesperança!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender o elixir da alienação, para, mais e mais, ser garantida a ostentação dos poderosos!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender as lotarias que fazem um rico e desesperam milhões de pobres!

É preciso vender! É urgente vender! É inadiável vender balelas coloridas que distraiam o dia sem fim e torturam de sonhos a noite da vida!

É preciso lamentar! É urgente lamentar! É inadiável lamentar o luto dos sobreviventes da catástrofe!

É preciso chorar! É urgente chorar! É inadiável chorar o pranto continuado das carpideiras que, por trinta dinheiros, elegem heróis os mortos, os mortos que já nada podem reclamar aos vendedores de ilusões e mentiras e aos carcereiros desta penitenciária de segurança provada, que pretende a fuga impossível e a morte o alívio que resta!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar os gritos lancinantes dos condenados!

É preciso calar! É urgente calar! É inadiável calar as verdades alucinadas da loucura que ainda grita que o rei vai nu na força da vontade que recusa render-se!

É preciso incensar o Poder! É urgente incensar o Poder! É inadiável incensar o Poder que legitima as cruzes intemporais de todos os calvários!

É preciso regressar a Roma! É urgente regressar a Roma! É inadiável regressar a Roma e recrucificar todos os perigosos malvados que sabem conjugar o verbo em todos os tempos.


Viana de Fochem
Julho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

06 - ROMANCEIRO * N' A jangada de pedra

Homenagem a José Saramago



N' «A jangada de pedra» partiste.
Tenebroso é o mar, nós sabemos,
mas, à vela ou à força de remos,
sempre chega quem nunca desiste.

«Levantados do chão», nós seremos
a certeza de nós que entreviste
mais além do «Mostrengo» que existe,
porque mais Cabos Não dobraremos.

Na memória dos nossos avós,
vem o sonho que apenas se faz
quando um homem tem pão e tem voz.

Chegaremos. E tu estarás,
sorridente, no meio de nós,
nesse cais de verdade e de paz.



José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2010.
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 8 de junho de 2010

06 - ROMANCEIRO * A verdade de mim!


Bendito seja o meu nome!
Semeio e colho este pão,
mas só migalhas me dão,
enganando a minha fome.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Arautos de feira exultam.
E com palavrinhas mansas
e falazes esperanças,
o meu dia a dia insultam.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Quem me promete o que é meu,
como se fosse oferenda?
Quem supõe que estou à venda?
Quem é aqui mais do que eu?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Da noite dos tempos venho,
vergado, chapéu na mão,
à deriva como um lenho
sem velame nem timão.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Milénios já percorridos
de sofrimento e lições,
quando os terei aprendidos
por memória e por razões?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Continuo um pé descalço,
um deserdado, a ralé,
a subir ao cadafalso
num qualquer auto de fé...

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Enredado em várias malhas
e presa dos maiores danos,
morro em todas as batalhas
só p'ra mudar de tiranos!

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Ah, que força, que arreganho
assim me tolhe a vontade
de me erguer e com verdade
ser livre e do meu tamanho?!

Até mudar de caminho,
serei sempre o Zé-povinho?



José-Augusto de Carvalho
Redigido em 21.03.1996
Corrigido em30.10.2009
Viana * Évora * Portugal

Nota: Este poema foi incluído no livro «Pátria Transtagana», editado em Outubro deste ano de 2014.

domingo, 6 de junho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Irã: quem atira a primeira pedra?

Texto de Frei Betto
02-Jun-2010


O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um "paiseco" como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?
Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?
Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o "eixo do mal". Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.
Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.
O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criação diabólica de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.
Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.
Fortalecido belicamente, o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?
Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, 5. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?
Há que se admitir: o Irã não está preparado para se integrar ao seio das nações civilizadas... Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade, fazem do consumismo o ideal de vida.
E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e que a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.
Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.
Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.
Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate as portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.
Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.

Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/
Cartaoberro