terça-feira, 8 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * O Conselho de Estado


Aceitando como exactos os dados obtidos em consulta efectuada na Internet, aqui os transcrevo:


REGIMENTO DO CONSELHO DE ESTADO

CAPÍTULO I

Natureza e composição

Artigo 1.º

(Definição)

O Conselho de Estado é o órgão político de consulta do Presidente da República.


Artigo 2.º

(Composição)

O Conselho de Estado é presidido pelo Presidente da República e composto pelos seguintes membros:

a)- O Presidente da Assembleia da República;

b)- O Primeiro-Ministro;

c)- O Presidente do Tribunal Constitucional;

d)- O Provedor de Justiça;

e)- Os presidentes dos governos regionais;

f)- Os antigos presidentes da República eleitos na vigência da Constituição que não hajam sido destituídos do cargo;

g)- Cinco cidadãos designados pelo Presidente da República pelo período correspondente à duração do seu mandato;

h)- Cinco cidadãos eleitos pela Assembleia da República, de harmonia com o princípio da representação proporcional, pelo período correspondente à duração da legislatura.


Não considero passíveis de contestação os textos das alíneas a a f.


Quanto à alínea g, permito-me discordar das opções presidenciais, as quais, na minha modesta opinião de cidadão, deveriam contemplar representações das Centrais Sindicais e Associações Patronais, pela relevância nacional que se lhes reconhece.

Quanto à alínea h, não consigo entender como não estão representados no Conselho de Estado todos os Partidos com assento parlamentar. E porque as ausências que se verificam decorrem da votação dos Partidos maioritários, fica claro que estes se permitem excluir os demais do Conselho de Estado como se este fosse propriedade sua.

Os meus cumprimentos.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * Posição

A minha identificação incondicional com o Homem de todas as latitudes, independentemente do credo, da cor, da raça, não me cerceia o dever de dignificar a minha condição de cidadão português e a língua portuguesa.
Serei modesto em conhecimentos, eu sei. Nem estou aqui pretendendo competir nesse campo ou noutros e muito menos pretendendo ensinar seja o seja. Estou aqui, sim, para verberar todos aqueles que supõem ter o poder de impor, em Portugal, qualquer língua estrangeira como meio de comunicação nacional.
Dizia o Poeta Fernando Pessoa: «A minha pátria é a língua portuguesa.» E eu subscrevo, sem reservas, esta sua afirmação, não por ser dele, mas por a considerar certa.
E esta minha postura em nada colide com a aprendizagem de outras línguas, aliás bem necessária nestes tempos de hoje. Atribuir-me tamanho desaforo é confundir as coisas. Evidentemente que há responsáveis por esta tentativa de menorização da língua portuguesa, a começar por alguns políticos, alguns comentadores e por aí adiante…Muitos homens grados do passado, de Luís de Camões ao padre António Vieira, por exemplo, se revolverão no túmulo, indignados. E também, no presente, muitos homens de mérito corarão de vergonha. Sei não estar sozinho ao subescrever estas linhas.
José-Augusto de Carvalho
4 de Agosto de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 29 de outubro de 2011

08 - CIDADANIA * Manifesto pela Vida


É um imperativo de consciência juntar a minha voz à de todos os que proclamam os direitos inalienáveis da Vida.

Atentar contra os direitos inalienáveis da Vida é atentar contra a Vida.

Quem permite que atentem contra os direitos inalienáveis da Vida, é cúmplice nesses atentados.

Quem se alheia dos atentados contra os direitos inalienáveis da Vida, é cúmplice nesses atentados.

Quando estão em causa os direitos inalienáveis da Vida, não há neutralidade possível: ou estamos pela Vida ou contra a Vida.

Todos, sem excepção, somos responsáveis sempre que são violados os direitos inalienáveis da Vida.

José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal













domingo, 23 de outubro de 2011

10 - JORNAL DE PAREDE * Halloween - de "Cartas de uma Judia a um Pastor"

Caro Pastor,

Em seu sermão, você falou nos males de se comemorar Halloween. Isto me fez lembrar de algumas coisas.
Natal é o Solstício de Inverno, uma festa nórdica pagã. Para apaziguar e satisfazer o povo, a Igreja comprometeu as profecias escritas na Bíblia, erradicou diversos de seus livros (agora considerados "Apócrifos"), e promoveu a maior fraude de todos os tempos: o Natal, inclusive com Iggdrasil, a árvore eternamente verde da mitologia nórdica.
Amigo, se formos erradicar cada festividade pagã de nosso calendário, vamos lá – comecemos por aqui mesmo, erradicando o Natal.
Para começo de conversa, de acordo com as Escrituras, tanto judias quanto cristãs, Jesus teria que ter nascido em outubro, durante as festividades de Succot (a Festa dos Tabernáculos), quando os pastores ainda podiam estar “nos campos com as ovelhas”. Em dezembro, amigo, nem mesmo o pastor mais lunático estaria fora à noite, em campos cobertos de neve. Muito menos ovelha!
Como você pode ver, se vamos ser exatos, cortemos o Festival de Inverno do Natal, com seus bonecos loiros representando um Jesus nórdico, em um Festival nórdico de orgia invernal.
Cortemos também a Páscoa, já que estamos cortando tudo, porque ela não tem nada a ver com o histórico bíblico da ressurreição do Cristo, que aconteceu três dias depois do Shabbat, portanto numa quinta-feira, logo após a Passover que, naquele ano, caiu bem no Shabbat. É só estudar os festivais através dos séculos, e tem-se a data.
Vamos também dar um fim ao Dia de Ação de Graças - Thanksgiving -, que comemora o fim, sem nunca ter havido um começo, da boa vontade dos Peregrinos recém-chegados ao Novo Continente, para com os nativos americanos. Logo depois disto, eles começaram a roubar a terra deles, matando-os e destruindo suas tradições – tudo em nome de fazer para si mesmos um lugar onde pudessem ser livres para “adorar a Deus”...
Vamos nos livrar também do Dia da Bandeira, Dia do Soldado, Dia da Descoberta da América... ora, todos os feriados, já que eles, todos eles, sem nenhuma exceção, comemoram a vitória de um grupo, com a destruição de outro.
Agora voltemos ao Halloween, Dia das Bruxas, que deu início a tudo isto. Ele existe? Sim. É o Dia dos Mortos, no qual, aqui no Brasil e em muitos países, as pessoas vão aos cemitérios honrar seus parentes falecidos. E por que não? Abraão honrou o local onde Sara fora enterrada. José honrou seus próprios ossos, e ordenou que fossem levados à Terra Prometida. Segundo o Novo Testamento, Jesus foi colocado na tumba de um homem rico. Honrar os mortos com um dia especial não tem nada a ver com o mal. O que há de errado nisto?
Deixe que as crianças brinquem, meu amigo. Exorcizemos Halloween, fazendo com que flores cresçam onde descansam cinzas. Por que lutar com medo contra o que se vê como sendo o mal? Encaremos nossos medos! Deus fez cada um dos dias. “Este dia foi feito pelo Senhor. Vamos nos regozijar e ser felizes nele.” Salmos 118:24.
Deixe que as crianças se fantasiem, brinquem, comam doces: cada dia pertence ao Senhor, deixe-os se regozijarem e serem felizes nele. Até mesmo o Novo Testamento diz, em Tito 1:15: “Para o puro todas as coisas são puras, mas para os impuros e descrentes, nada é puro; mas até a mente e a consciência deles está corrompida.”
Bom. Agora que você está completamente horrorizado, e perguntando-se de onde fui tirar todas estas idéias, deixe-me contar-lhe: é sempre bom basear sua fé em fatos reais. Até mesmo o Cristo – ele baseou suas obras e suas palavras no que Deus já havia feito aos judeus, e não nos temores do povo. Ele rompeu todas as regras, mantendo apenas o essencial: pureza e amor – que são os atributos de Deus.
Tudo o mais é somente isto, meu amigo: tudo o mais...


Dalva, inutilmente abrindo a boca

₢ Dalva Agne Lynch


30 de Outubro de 1998.

Site oficial da autora: http://www.dalvalynch.net
Endereço da autora na Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA):
http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1158

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

10 - JORNAL DE PAREDE * Discussões sobre a Verdade Universal


₢ Dalva Agne Lynch


Qualquer discussão sobre a Verdade Universal(chamem-na de Deus, Adonai, Alá, Grande Mãe, Inteligência Cósmica ou seja lá o que for, porque não muda nada - todos eles são os proverbiais nomes da mesma rosa) está fadada ao fracasso, simplesmente porque:

1. Cada pessoa chegou a seus conceitos após seguir por um caminho absolutamente individual e solitário, seja este caminho longo e tortuoso, ou tipo miojo - instantâneo e seguindo as instruções do pacote.

2. Se eu conseguir convencer você de que estou certa e você está errado, isto não significa necessariamente que minhas idéias são mais verdadeiras que as suas. Pode ser porque sou mais eloquente, ou porque minhas idéias são mais concatenadas. Quer dizer, ganha quem tem mais lábia, não necessariamente quem tem razão.

3. Cada um vê a Verdade Universal da mesma forma como a famosa historinha dos três indianos cegos perante um elefante: um apalpou a tromba e disse que o elefante era como uma serpente; outro apalpou a perna e disse que o elefante era como um tronco de árvore; o último apalpou a barriga e disse que era como uma pedra. Quer dizer, cada cego apalpou apenas A SUA ÍNFIMA PARTE DO TODO, e concluiu que o que apalpara era o todo. Estavam errados? Não - apenas limitados pela sua incapacidade de percepção.

Amigos e amigas, cada um de nós percebe o Infinito, a Verdade Universal, de acordo com suas próprias limitações,             idiossincrasias, experiências e vivências. A sua verdade é diferente da minha porque somos ambos diferentes um do outro, e não porque a Verdade per se é diferente. Nossa percepção individual é que é o ponto variável.

Vai daí - pegar em pedras e chamar nomes só porque alguém mais não aceitou o que você disse, então você vai pegar sua bola e não vai mais brincar, é, no mínimo, infantil, e no máximo, destrutivo. É deste tipo de atitude que vêm todas as guerras dos homens.

Amigos e amigas, todos estão certos, cada um de acordo com sua capacidade de percepção. Ainda que não possamos dar um fim a guerras, pelo menos podemos, nem que seja por puro exercício intelectual, tentar perceber o elefante pelo ponto de vista do outro cego ao nosso lado. Talvez assim consigamos entender um             pouquinho mais do que vem a ser o elefante em questão - a Verdade Universal.

E se isto não pode mudar a situação política, social e educacional do mundo inteiro, pode pelo menos mudar nossa própria vida, e a vida daqueles que dependem de nós.

Afinal, um pouco de percepção e entendimento pode abrir mais caminhos que todas as armas e todas máquinas do mundo.


domingo, 5 de dezembro de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * História - um trabalho de Augusto Buonicore

A memória histórica
como campo da luta de classes (I) e (II)

por Augusto Buonicore

Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, ela rapidamente nos diria: É algo que trata de factos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (factos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente.
O artigo é de Augusto Buonicore, publicado originalmente no "site" da Fundação Maurício Grabois.


(I)

Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los a desvendar e, principalmente, a transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os factos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser colectados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exactas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos factos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os factos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os factos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os factos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os factos que vêm à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de factos históricos que existem objectiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direccionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de factos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos factos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objectivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objectos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.

Por que os trabalhadores devem conhecer a história?

Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egipto foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais subtis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egipto, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foi contado por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar a ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exacta da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessário para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiriam ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeças do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará a travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a acção consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente activo de sua própria história.

Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983


(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.


***
Mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.


(II)


D. Pedro I: um grito parado no ar

Vejamos agora como se constroem socialmente os factos e personagens históricos, tendo como referência a história do Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico facto histórico. Acredito que ninguém, actualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional.
É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objectivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Braganças, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República.
O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didácticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis.
Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817).
No 7 de Setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina.
Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além-mar.
Em Fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de Julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola.
Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída.
Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação.
Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e acção dos sectores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.

Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas

Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin.
Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “acto de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.
Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, foram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – quem mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional.
Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários, etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes.
A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.
Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.

Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial

Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo.
Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza.
Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu sector mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como o legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus.
Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.
O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e factos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, correctamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos.
Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.
Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O acto solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.

Quem e como se faz a história


Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como colecção de fatos puros (objectivos), distribuídos cronologicamente.
Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.
As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.
Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

Bibliografia[/b}
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* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010.
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