terça-feira, 13 de março de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Dia da mulher. Que mulheres?

Antes de celebrar o Dia da Mulher a 8 de março, há que comemorá-lo. Os dois verbos têm diferentes significados, embora frequentemente empregados como sinônimos. Celebrar é promover cerimônia, destacar, tornar célebre, donde celebridade. Comemorar é fazer memória, resgatar o passado, atualizar lembranças.
De que mulheres tratamos nesta efeméride? Da empregada doméstica que a família preza como parente para camuflar a sonegação de seus direitos trabalhistas, a falta de carteira assinada, de férias regulares e salário digno?
É também o dia das babás, a quem é negado o direito de estudar, aprimorar-se profissionalmente, e exigido cuidado e afeto aos bebês da família? Quem se lembra das mulheres chefes de família, largadas à deriva por seus maridos, obrigadas à dupla jornada de trabalho para tentar educar os filhos?
As mulheres são a metade da humanidade. A outra metade, filhos de mulheres. E, no entanto, bilhões prosseguem submetidas ao machismo irreverente, proibidas de dirigir carros em alguns países árabes, obrigadas a suportar a poligamia em clãs africanos, forçadas à infibulação (castração feminina) em culturas fundamentalistas, menosprezadas ao nascer na China patriarcal.
Pobre Ocidente que, do alto de sua arrogância, mira tais práticas como se aqui as mulheres tivessem alcançado a emancipação. É verdade, multiplica-se o número de mulheres chefes de Estado ou de Governo, como, atualmente, Dilma Rousseff (Brasil); Cristina Kirchner (Argentina); Laura Chinchilla (Costa Rica); Ângela Merkel (Alemanha); Tarja Halonen (Finlândia); Pratibha Patil (Índia); Dália Grybauskaité (Lituânia); Eveline Widmer-Schlumpf (Suíça); Ellen Johnson Sirleaf (Libéria); e Sheikh Hasina (Bangladesh).
Não olhemos, porém, apenas para o alto. Mirem-se nas mulheres de Atenas, sugere Chico Buarque. "Elas não têm gosto ou vontade. ¤ Nem defeito, nem qualidade; ¤ têm medo apenas. ¤ Não têm sonhos, só têm presságios. ¤ O seu homem, mares, naufrágios... ¤ Lindas sirenas, morenas.”
Há que mirar em volta: mulheres como isca de consumo, adornando carros e bebidas alcoólicas. Mulheres no açougue virtual da chanchada internáutica e nas capas de revistas que cobrem as bancas de jornais, a exibir, como vacas em exposição pecuária, seus atributos físicos anabolizados cirurgicamente.
Milhões de mulheres tentando curar suas frustrações, via medicamentos e terapias, por não corresponderem aos padrões vigentes de beleza. Mulheres recauchutadas, anoréxicas, siliconizadas, em luta perene contra as rugas e as gorduras que o tempo, implacável, imprime a seus corpos. São as gatas borralheiras sempre a fugir da hora em que a velhice bate à porta, tornando-as menos atrativas aos olhos masculinos.
Sim, é preciso fazer memória de mulheres que não foram ricas de imbecilidade nem se expuseram na vitrine eletrônica do voyeurismo televisivo em rede nacional. Refiro-me a Judite, que derrotou o general Holofernes; Maria, que exaltou os pobres, despediu os ricos de mãos vazias e gerou Jesus; Hipácia, filósofa e matemática de Alexandria; Joana d’Arc, queimada viva por desafiar monarcas e cardeais; Teresa de Ávila, que arrancou Deus dos céus e centrou-o no coração humano; Joana Angélica, monja baiana que se opôs ao colonialismo português; Olga Benário, combatente contra o nazifascismo; Zilda Arns, que ensinou dezenas de países a reduzirem a mortalidade infantil; e tantas outras mulheres anônimas que, literalmente, carregam o mundo no ventre e nas costas.
À tradição cristã se deve muito a demonização da mulher. A começar pela interpretação equivocada de que foi Eva a responsável por introduzir o pecado no mundo. Assim como o papa se penitenciou por ter a Igreja Católica condenado Galileu e Darwin, é hora de se aproveitar uma data como 8 de março para reabilitar a mulher na Igreja, permitindo-lhe acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado.
Jesus primeiro se revelou como messias a uma mulher – a samaritana do poço de Jacó. Ela pode ser considerada a primeira apóstola. E foi a uma mulher – Madalena - que primeiro Jesus apareceu ao ressuscitar.
E é bom sempre recordar a afirmação do papa Sorriso, João Paulo I: "Deus é mais mãe do que pai”.



Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

14 - CURIOSIDADES * Revisitando a juvenília

Arrumando e rearrumando papeis antigos, na presunção de manter viva a lembrança de um tempo que irremediavelmente desapareceu na voragem do movimento planetário que gera e cavalga o tempo, encontrei estes versos da juvenília. São dois glosamentos em forma imitada de Bocage. Não importa, agora, a qualidade; apenas dou a conhecer o que eu escrevia e como escrevia, na adolescência. Revisitar o passado é, muito vezes, acariciar a memória do que fomos.


I

O PENEDO

Oh, alta serra das neves
donde o penedo caiu!...
Ninguém diga o que não sabe
nem afirme o que não viu!

(quadra popular)


1
Nas asas do pensamento,
que nunca as houve mais leves,
encontrei-me, num momento,
«oh, alta serra das neves»,
no teu cume de cristal,
onde o reino vegetal
jamais medrou ou floriu!
Lá vi, do alto duma fraga,
essa parte, agora vaga,
«donde o penedo caiu».


2
Pelos fraguedos rolando,
que a desgraça a todos cabe,
foi ao mundo aconselhando:
«ninguém diga o que não sabe!»
Do tumular desfiladeiro,
já no esforço derradeiro,
que a voz do eco repetiu
por vales e por montanhas,
ainda arrancou das entranhas:
«nem afirme o que não viu!»




II

LUTA INTERIOR


Comigo me desavim,
sou posto em todos o perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Francisco Sá de Miranda
(1481-1558)




1
Cansado de procurar
a Lei do Princípio e Fim,
sem a poder encontrar,
«comigo me desavim».
Que razão em vão procuro
do Passado e do Futuro?
Como louco me persigo!
Quero hoje, amanhã não quero!
E, com tanto desespero,
«sou posto em todo o perigo».


2
Este viver, mar de fel,
a todo o instante maldigo.
Não posso viver com ele,
«não posso viver comigo»!
Esta vida, este martírio,
este constante delírio,
só na morte terá fim...
Meu destino está traçado:
Não posso fugir do Fado
«nem posso fugir de mim»!


Nota:
Textos com uma única publicação, no jornal República (suplemento República das Letras e das Artes), em 27 de Agosto de 1965.
Cordiais saudações.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Salvar vidas ou o capital?

Frei Betto
(Escritor e assessor de movimentos sociais)

Adital



O melhor Papai-Noel do mundo mereceram 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano!


Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!


Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…


Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o Mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19).


No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.


Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa - como a fé em Javé - exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do Mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício "necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.


Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus - que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.


Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.


O deus da razão do Mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana.


O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente através do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente.


A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada. Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.


A lógica da vida encara o relato bíblico pelos olhos de Isaac. Este não sabia que seria assassinado, tanto que indagou ao pai onde se encontrava o cordeiro destinado ao sacrifício. Abraão cumpriu todas as condições para matar o filho. Subjugou-o, amarrou-o, colocou-o sobre a lenha preparada para a fogueira e empunhou a faca para degolá-lo.


No entanto, inspirado pelo anjo, Abraão recuou. Não aceitou a lógica da morte. Subverteu o preceito que obrigava os pais a sacrificarem seus primogênitos. Rejeitou as razões do poder. À lei que exigia a morte, Abraão respondeu com a vida e pôs em risco a sua própria, o que o forçou a mudar de território.


Se não mudarmos de território – sobretudo no modo de encarar a realidade -, como Abraão, continuaremos a prestar culto e adoração a Mamom. Continuaremos empenhados em salvar o capital, não vidas, e muito menos a saúde do planeta.


[Frei Betto é escritor, autor de "Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes), entre outros livros.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

08 - CIDADANIA * Agenda


Agenda

(Do latim agenda – coisas que devem ser feitas; de ager= agir, fazer)

Todos nós temos a nossa agenda. Uns fazem-na; outros adoptam a(s) que lhes dão ou lhes impingem.
Hoje, importará falar da agenda do nosso dia-a-dia colectivo. Como é natural, a comunicação verbal é uma das partes mais importantes do nosso quotidiano. Falamos com os familiares, com os amigos, com os colegas, com os vizinhos, com os conhecidos e até com desconhecidos. Falamos muito e essa prática é boa. Por vezes, é agradável conversar; por vezes, nem tanto; por vezes, é um dever de ofício ou de civilidade.
Com raras excepções, todos nós propomos ou aderimos a propostas de conversas sobre o tempo que faz ou não faz, sobre o estado de saúde dos nossos, sobre o último acontecimento ocorrido no nosso meio, no país ou na estranja, etc.
Para além destas conversas, são frequentes muitas outras provocadas pela dita Comunicação Social. Sabemos quanto nos influenciam (e quantas vezes condicionam) a Televisão, a Rádio, os jornais e revistas, exactamente porque são parte importante da nossa vida colectiva. E compreende-se: a função principal da Comunicação Social é informar e formar.
Chegados a esta definição da Comunicação Social (informar e formar), importará determo-nos na responsabilidade que impende sobre quem decidiu assumir a responsabilidade de contribuir para uma mais adequada informação e formação de todos nós. Ora, este exercício de análise, que se deseja constante, é fundamental para separarmos o trigo do joio. Porque queremos informação e não desinformação; porque queremos formação e não mal formação.
Ficamos entendidos? Oxalá!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 26 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

08 - CIDADANIA * «Tento na Língua»

Pela sua inegável importância, aqui se releva este trabalho do senhor António Marques, retirado, com a devida vénia, do seu blog http://tentolingua.wordpress.com/

Gralhas que por aí grasnam
Erros que por aí grassam


“Tratam-se de”?! Não! “Trata-se de” – erros de “excelência” abusadaAntes de mais, ‘abusada’, porque são incorrecções (que abusam da norma); de ‘excelência’, porque são cometidos por utentes da língua, por vezes grandes plumitivos, que tinham (têm) por obrigação dar exemplo. E, não só não dão exemplo, como até, às vezes, se arrogam o direito de se obstinarem no erro, como quem diz que assim é que deve ser. Ou seja, decretam a abolição da norma e, logo a seguir, decretam como norma a sua opinião, que não passa disso e ainda por cima é… incorrecta. Vejamos então alguns exemplos (maus exemplos…).

“Só publicamos audiências do primeiro-ministro com outros governantes quando se tratam de primeiros-ministros […] “ (DN 13/NOV/07, p. 20. Negrito nosso).

Este erro é um dos que se ouvem e se lêem a toda a hora nas televisões, nas rádios e nos jornais, saído muitas vezes da pluma de grandes plumitivos, mesmo em jornais ditos de “referência”, como neste caso. Trata-se nem mais nem menos do que da expressão verbal tratar-se de que, nesta acepção, é impessoal, ou seja, só se usa, como todos os verbos impessoais, na 3ª pessoa do singular: trata-se disto, trata-se daquilo. Trata-se, aqui, de confusões gramaticais, de incorrecções, de ignorância. Corresponde ao francês il s’agit de, também impessoal, quer se trate de uma só coisa ou de muitas coisas. E quer se trate do português – trata-se de, tratou-se de, tratava-se de –, quer do francês – il s’agit de, il s’agissait de –, os dois casos têm a ver com o latino agitur (= trata-se), donde herdaram, certamente, a sua impessoalidade.

Outro caso: “A Al-Arabiya exibiu duas novas fotografias de soldados americanos, pousando [sic] ao lado de um iraquiano morto enquanto sorriam e exibiam os polegares erguidos, indicando que se tratavam [sic] de novas imagens de abusos cometidos em Abu Ghraib.[…] “ (DN 21/Maio/07, p. 14)

Vejamos, devidamente corrigida, a incorrecção referida (segunda sublinhada): “…indicando que se tratava de novas imagens de abusos cometidos…”. Vejam bem: “que se tratava” e não “que se tratavam”. Digo-lhes uma coisa: se eu fosse a contar as vezes que, num só dia, leio ou ouço esta incorrecção linguística, era capaz de passar da dezena…

Na segunda linha da citação, podemos ver outro erro que, já agora, vamos também tentar explicar: trata-se do verbo pousar, incorrectamente usado em vez de posar. Temos em português o neologismo posar (pronunciar como se o ‘o’ tivesse acento circunflexo) que nos veio do francês poser e que, segundo os dicionários, que de data recente o registam como neologismo/galicismo, significa: “Tomar posição conveniente para se deixar pintar ou fotografar. / Fazer-se notado, assumir atitudes de quem está sendo muito observado.” Presente do indicativo: eu poso, tu posas, ele posa, nós posamos, vós posais, eles posam. No texto jornalístico, confundiu-se posar com pousar que tem significado diferente, deriva do latino pausare e significa: colocar, pôr, assentar. Podem ser considerados parónimos e é daí certamente que vêm estas confusões. De notar que o francês poser abrange os significados dos dois parónimos portugueses.

Senhores jornalistas, orais ou escreventes, daqui lhes peço, pelas alminhas que lá têm, que não cometam mais esses abusos linguísticos. Trata-se, para classe de tanto poder, de coisas que têm a ver com honra, com brio, com orgulho de classe, pois então!…

08 - CIDADANIA * A rendição

Foi anunciado com pompa e circunstância um acordo na Concertação Social.
Intervenientes: Governo+Associações Patronais+UGT (União Geral de Trabalhadores).
No acordo assinado há apenas perdas para os Trabalhadores. E porque assim é, o que mereceu a concordância final da Central Sindical  (UGT)?
A História de Portugal e a História do Movimento Sindical Português registarão, para reflexão dos vindouros, a rendição do Povo Trabalhador, sob a assinatura da UGT.

***
Nota importante:
A CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses) abandonou os trabalhos, recusando, indignada, a rendição.