Chega-me de Espanha, disfarçado de humor, este diálogo insólito de mãe e filha menor.
Pede a menina:
Mãe, antes de eu adormecer, lê-me um artigo da nossa Constituição política.
Responde a mãe:
Não, minha filha, porque, depois, tu sonhas...
Lá como cá, o mesmo desencanto...
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2013.
Nas estradas e encruzilhadas da vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
08 - CIDADANIA * Crónica de um dia sem história
O Largo
Hoje, desci ao Largo. Sim, também eu tenho um Largo. Não é, seguramente, o Largo de que o Manuel (da Fonseca) nos fala e que era o centro do mundo. Este meu, mais modesto, é, apenas, o centro do meu povoado.
Neste meu Largo, está sempre um homem olhando em frente. Alheado das árvores que o circundam, olha em frente. Fixamente. Tentará, porventura, desvendar as novas e os mandados que virão.
Fica indiferente às conversas que escuta, tal como à chuva que o molha, ao frio e ao calor que já não poderão incomodá-lo.
Um ou outro, mais velho, fala dele como de um passado morto. Interiormente, sorri. O passado não morreu. O passado é a raiz, as fases diversas sobre que assenta o presente. O presente à espera do futuro. O passado é ontem; o presente é hoje; o futuro é amanhã.
Do passado nos chega a sentença: quem boa cama fizer, nela se há-de deitar.
Como dizia, desci ao Largo. Hoje. Hoje deveria ser um dia especial, deveria ser mas não é. Mais exactamente, não vi que fosse.
Em derredor do homem sempre presente, havia diversas pessoas, cavaqueando. Também um carro de som, tentando animar o ambiente com banalidades pseudo-desportivas.
Senti-me defraudado. De dia especial, nada vi. Regressei a casa. Olhei a estante onde arrumo alguns livros. Lá estavam Os Lusíadas. Melancolicamente, recordei: Esta é a ditosa pátria, minha amada!
Pois…
José-Augusto de Carvalho
10 de Junho de 2011.
Viana*Évora*Portugal
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08 - CIDADANIA * Se...
Se eu me apresentasse a sufrágio, três interrogações me colocaria:
1ª.- Serei eu um candidato esperado pelos meus concidadãos?
2ª.- O que esperarão de mim os meus concidadãos?
3ª.- O que poderei prometer (para cumprir) aos meus concidadãos?
Depois destas interrogações, outras três me colocaria:
1ª.- Que colectivo irei eu integrar?
2ª.- Quais os recursos disponíveis para ponderar o êxito da tarefa?
3ª.- Quais os recursos outros a desenvolver?
E depois destas, ainda mais cinco interrogações me colocaria:
1ª.- Que prioridades exige a população?
2ª.- Que necessidades mais urgentes a debelar?
3ª.- Como motivar a população para participar no seu bem-estar?
4ª.- Como motivar a população para o desenvolvimento da comunidade?
5ª.- Como motivar a população a participar na "res publica"?
Uma candidatura é um desafio. E desse desafio é parte maior a entrega sem limites ao dever de servir e de cumprir.
Uma candidatura pressupõe ainda a existência de um projecto, o qual determina, para além da gestão corrente, a criatividade, o desenvolvimento, o rigor na defesa da identidade colectiva e a superação do Presente rumo ao Futuro.
Assim seria se eu me apresentasse a sufrágio.
Será uma hipótese remota, mas a Vida ensina-nos a nunca dizer nunca. Hipótese seguramente remota porque nem eu luto por isso nem os meus concidadãos; mas esta realidade objectiva não poderá jamais impedir-me de expressar o que penso, hoje, e o objectivo por que me bateria.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
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08 - CIDADANIA * Evocando Camões
Oxalá saibamos libertar o nosso
PoetaMaior
da angústia que levou para o
túmulo...
Não mais, Musa, não mais a lira que
tenho
Destemperada e a voz enlouquecida.
E não do canto, mas de
ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com
que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está
metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil
tristeza.
Luís Vaz de Camões
(Os Lusíadas,
Canto X, 145).
publicado por Do-verbo às 17:21
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
08 - CIDADANIA * Considerações cívicas
Na minha modesta intervenção cívica, sempre me inseri na força do colectivo, bem ciente da verdade que encerra a parábola dos vimes.
Acredito na decisão que decorre do confronto das perspectivas várias que se nos deparam quando analisamos um problema e buscamos solucioná-lo racionalmente.
Muitas vezes, foi vencida a perspectiva que apresentei; algumas vezes, saiu vencedora. Nada de importante, porque estava em causa encontrar uma solução e não a alimentação estreita de um qualquer ego igualmente estreito.
Ultrapassei barreiras, algumas com a satisfação do dever cumprido; outras com a recusa de enveredar por caminhos que não são nem nunca foram os meus.
Hoje, remetido ao meu cantinho doméstico, vejo com apreensão o presente e o futuro, tal como vi apreensivamente o passado mais ou menos recente. Muito se poderia ter feito e não se fez; muito há a fazer e não consigo vislumbrar condições para cooperar.
Hoje, campeia a presunção de vencer eleições. Para quê? A resposta das populações é visível no seu desencanto e no seu afastamento da res publica. Mais, bastará atentar no partido das abstenções e no partido dos votos em branco e dos votos nulos, ambos em crescimento preocupante.
Onde as propostas construtivas e credíveis para erguer colectivamente uma estrutura social sustentada e sustentável e com as garantias possíveis de progressão quantitativa e qualitativa?
Onde a recusa de rendas e prebendas ao arrepio duma situação deplorável de baixos rendimentos, de carências sociais degradantes?
Onde as acções supletivas, privilegiando o fundamental e preterindo o acessório?
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
12 de Novembro 2012
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