quarta-feira, 6 de março de 2013

05 - REFLEXÕES * O escadote

Ignácio Pedralva era um homem muito respeitado no meio rural onde vivia. As suas barbas brancas davam testemunho de uma vida longa. Já homem feito, casado e pai, assistira à derrocada da Monarquia e ao advento da República. Sem entusiasmos, passara da velha à nova ordem estabelecida. Lia a Imprensa e ouvia com atenção o filho que vivia na cidade.

Alfredo, de quando em quando, conseguia uns dias de licença e visitava o pai. E sorria sempre quando ouvia a pergunta: Filho, como vai a política, lá na cidade?


A República passara. Havia aberto de par em par as portas ao autoritarismo. Como sempre sucede, uns adaptaram-se, outros mantiveram-se fieis ao ideário apeado. Ignácio Pedralva meneava a cabeça, apreensivo. As coisas continuavam a não caminhar bem. Agora, pior.


Alfredo, homem vigoroso de corpo e de entendimento, ficara ao lado dos que resistiam. Sustentava que as forças do reviralho recuperariam a República e os seus ideais de Outubro de 1910. E insistia em transmitir ao pai essa convicção.


Um dia, Alfredo sugeriu ao pai que aderisse a um movimento local. Afirmava que a força residia nas bases. E sentenciava: o Terreiro do Paço não poderá governar contra as bases.


Ignácio Pedralva, sorrindo, respondeu-lhe: Meu filho, nunca fui degrau de escadote para os outros subirem.


Surpreso, Alfredo ficou calado, digerindo a resposta do pai. Entretanto, eram horas de almoço. Sentaram-se à mesa. Uma açorda de alho e poejos com peixe frito esperava-os, fumegando.


Alfredo tentou recuperar a conversa: Pai, não quer pensar melhor no que lhe sugeri?


Ignácio Pedralva, fitando o filho com ternura: Não quero destruir as tuas esperanças com as minhas desilusões. Também as tive e lutei por elas. Fiquei desiludido. Naquele meu tempo, muitos dos que estavam, não eram; e muitos do que eram, não estavam... Entendes-me? E, agora, é demasiado tarde para mim.


Alfredo tentou insistir...


O velho atalhou: Não insistas, filho. A minha decisão está tomada. Apenas desejo que, dessa tua aventura, não saias tão magoado como eu saí da minha. Talvez, quem sabe?, as coisas sejam diferentes, hoje...


E continuaram a refeição, em silêncio.


Gabriel de Fochem

5 de Março de 2013.

domingo, 3 de março de 2013

08 - CIDADANIA * «Que se lixe a troika»



O POVO É QUEM MAIS ORDENA!


A emblemática «Grândola, Vila Morena», de José Afonso, a canção-senha que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, determinou o arranque da acção libertadora do MFA-Movimento das Forças Armadas para derrube do Estado Novo e a subsequente devolução ao Povo Português da Liberdade e da Dignidade, foi cantada por centenas de milhar de pessoas indignadas na manifestação extraordinária de ontem, dia 2 de Março de 2013.


O movimento popular «Que se lixe a troika» exigiu o fim da intervenção estrangeira e a demissão do Governo.


José Afonso, o resistente antifascista que fez da canção uma arma, já não está entre nós, mas perdurará na memória de todos o seu exemplo, a sua música e as suas canções.


Este espaço não poderia deixar de assinalar, ainda que modestamente, mais esta acção de resistência e luta do Povo Português.


Ilustra este registo a elucidativa foto que, com a devida vénia, colhi de empréstimo ao nosso centenário Diário de Notícias.


Até sempre!
JoSé-Augusto de Carvalho


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

08 - CIDADANIA * Insólito

Chega-me de Espanha, disfarçado de humor, este diálogo insólito de mãe e filha menor.




Pede a menina:
Mãe, antes de eu adormecer, lê-me um artigo da nossa Constituição política.
Responde a mãe:
Não, minha filha, porque, depois, tu sonhas...

Lá como cá, o mesmo desencanto...

Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2013.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

08 - CIDADANIA * Crónica de um dia sem história


O Largo

Hoje, desci ao Largo. Sim, também eu tenho um Largo. Não é, seguramente, o Largo de que o Manuel (da Fonseca) nos fala e que era o centro do mundo. Este meu, mais modesto, é, apenas, o centro do meu povoado.
Neste meu Largo, está sempre um homem olhando em frente. Alheado das árvores que o circundam, olha em frente. Fixamente. Tentará, porventura, desvendar as novas e os mandados que virão.
Fica indiferente às conversas que escuta, tal como à chuva que o molha, ao frio e ao calor que já não poderão incomodá-lo.
Um ou outro, mais velho, fala dele como de um passado morto. Interiormente, sorri. O passado não morreu. O passado é a raiz, as fases diversas sobre que assenta o presente. O presente à espera do futuro. O passado é ontem; o presente é hoje; o futuro é amanhã.
Do passado nos chega a sentença: quem boa cama fizer, nela se há-de deitar.
Como dizia, desci ao Largo. Hoje. Hoje deveria ser um dia especial, deveria ser mas não é. Mais exactamente, não vi que fosse.
Em derredor do homem sempre presente, havia diversas pessoas, cavaqueando. Também um carro de som, tentando animar o ambiente com banalidades pseudo-desportivas.
Senti-me defraudado. De dia especial, nada vi. Regressei a casa. Olhei a estante onde arrumo alguns livros. Lá estavam Os Lusíadas. Melancolicamente, recordei: Esta é a ditosa pátria, minha amada!
Pois…

José-Augusto de Carvalho
10 de Junho de 2011.
Viana*Évora*Portugal