domingo, 16 de junho de 2013

05 - REFLEXÕES * Só




Neste final de jornada, quando supunha nada mais caber no meu bornal, a surpresa vem. E já não valia a pena. Não porque a sobrecarga seja pesada; apenas porque já nada acrescenta. É aquela situação de quem é surpreendido por uma trovoada, num descampado: depois de chover uns minutos, os restantes, muitos ou poucos, já nada acrescentam à molha.
No monte, os dias trazem-me a monotonia de um tempo parado.
As notícias que me chegam, ainda que poucas, confirmam-me a monotonia.
O dia é o resultado do fatal movimento de rotação; o ano é o resultado do fatal movimento de translação. Assim sendo, nada de novo sob o sol. Mas os dias e os anos, para além do fatalismo planetário, dão-me coisas bonitas: os passarinhos chilreiam, felizes; as flores insistem em maravilhar-me com os seus aromas e as suas cores; «todo o sol do Alentejo» me encanta em apoteoses de cor. Pois, na contemplação, tudo bem.
Na acção, retenho do poema do grande Poeta Miguel Torga sobre Bartolomeu Dias, a fatal conclusão: um herói sem remate. Inevitável. É da sabedoria que não se pode pedir o que se não tem para dar.
Nestes dias quentes, fico-me à sombra, olhando a estrada deserta. Uma andorinha ensaia acrobacias. Como lhe é fácil ser acrobata e como é difícil a tanta gente dar o passo certo no momento certo!
Só, deixo-me entontecer pela tremulina.

Gabriel de Fochem 

15/6/2013.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

05 - REFLEXÕES * Amigos

Esta é a história de dois amigos. Por comodidade, um será identificado por Alfa; o outro, por Ómega.
Há anos, Alfa e Ómega encontraram-se. Não se viam desde a adolescência. Cada um quis saber do outro. Depois de inteirados do que consideraram ser necessário, decidiram encontrar-se amiúde e assim reatarem os laços da infância e da adolescência. Verificaram, com agrado, que ambos residiam e trabalhavam na cidade grande. Era uma vantagem. Despediram-se com um até breve!
Depois deste encontro, outros mais se seguiram. E os laços foram estreitando-se. Ambos verificaram que as suas condições de vida ditas económicas eram diferentes. Um vivia folgadamente, outro nem tanto.
Certa vez, Alfa convidou Ómega, ao fim da tarde, para irem a um espectáculo de variedades. Ómega, menos abastado, declinou o convite. Surpreso, Alfa quis saber por que motivo lhe era declinado o seu convite. E Ómega, sorrindo, respondeu: somos amigos, mas a tua carteira é maior do que a minha, logo tu tens um poder de compra que eu não tenho. Seremos sempre amigos, mas nem sempre poderemos ser companheiros.
Alfa mal disfarçou a mágoa que lhe causou a resposta de Ómega. E nem sequer quis ponderar a disponibilidade para suportar as despesas. Sabia bem que Ómega não aceitaria. A desigualdade evidenciada era superior à vontade de ambos. Uma desigualdade de somenos, pois nem tudo na vida se mede pelo poder de compra que se tem ou não tem. Sentiram-se mais unidos na amizade, certos de que os afectos não se compram nem se vendem. Companheiros seriam na longa estrada da vida, nem tanto no supérfluo que a sociedade também oferece, pagando.

Gabriel de Fochem
11.4.2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

05 - REFLEXÕES * O escadote

Ignácio Pedralva era um homem muito respeitado no meio rural onde vivia. As suas barbas brancas davam testemunho de uma vida longa. Já homem feito, casado e pai, assistira à derrocada da Monarquia e ao advento da República. Sem entusiasmos, passara da velha à nova ordem estabelecida. Lia a Imprensa e ouvia com atenção o filho que vivia na cidade.

Alfredo, de quando em quando, conseguia uns dias de licença e visitava o pai. E sorria sempre quando ouvia a pergunta: Filho, como vai a política, lá na cidade?


A República passara. Havia aberto de par em par as portas ao autoritarismo. Como sempre sucede, uns adaptaram-se, outros mantiveram-se fieis ao ideário apeado. Ignácio Pedralva meneava a cabeça, apreensivo. As coisas continuavam a não caminhar bem. Agora, pior.


Alfredo, homem vigoroso de corpo e de entendimento, ficara ao lado dos que resistiam. Sustentava que as forças do reviralho recuperariam a República e os seus ideais de Outubro de 1910. E insistia em transmitir ao pai essa convicção.


Um dia, Alfredo sugeriu ao pai que aderisse a um movimento local. Afirmava que a força residia nas bases. E sentenciava: o Terreiro do Paço não poderá governar contra as bases.


Ignácio Pedralva, sorrindo, respondeu-lhe: Meu filho, nunca fui degrau de escadote para os outros subirem.


Surpreso, Alfredo ficou calado, digerindo a resposta do pai. Entretanto, eram horas de almoço. Sentaram-se à mesa. Uma açorda de alho e poejos com peixe frito esperava-os, fumegando.


Alfredo tentou recuperar a conversa: Pai, não quer pensar melhor no que lhe sugeri?


Ignácio Pedralva, fitando o filho com ternura: Não quero destruir as tuas esperanças com as minhas desilusões. Também as tive e lutei por elas. Fiquei desiludido. Naquele meu tempo, muitos dos que estavam, não eram; e muitos do que eram, não estavam... Entendes-me? E, agora, é demasiado tarde para mim.


Alfredo tentou insistir...


O velho atalhou: Não insistas, filho. A minha decisão está tomada. Apenas desejo que, dessa tua aventura, não saias tão magoado como eu saí da minha. Talvez, quem sabe?, as coisas sejam diferentes, hoje...


E continuaram a refeição, em silêncio.


Gabriel de Fochem

5 de Março de 2013.

domingo, 3 de março de 2013

08 - CIDADANIA * «Que se lixe a troika»



O POVO É QUEM MAIS ORDENA!


A emblemática «Grândola, Vila Morena», de José Afonso, a canção-senha que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, determinou o arranque da acção libertadora do MFA-Movimento das Forças Armadas para derrube do Estado Novo e a subsequente devolução ao Povo Português da Liberdade e da Dignidade, foi cantada por centenas de milhar de pessoas indignadas na manifestação extraordinária de ontem, dia 2 de Março de 2013.


O movimento popular «Que se lixe a troika» exigiu o fim da intervenção estrangeira e a demissão do Governo.


José Afonso, o resistente antifascista que fez da canção uma arma, já não está entre nós, mas perdurará na memória de todos o seu exemplo, a sua música e as suas canções.


Este espaço não poderia deixar de assinalar, ainda que modestamente, mais esta acção de resistência e luta do Povo Português.


Ilustra este registo a elucidativa foto que, com a devida vénia, colhi de empréstimo ao nosso centenário Diário de Notícias.


Até sempre!
JoSé-Augusto de Carvalho