terça-feira, 18 de junho de 2013

08 - CIDADANIA * Os meus textos

Os meus textos não têm destinatários preferenciais.
Tempos houve que sim, que almejava ser lido por esta ou aquela pessoa. Foi o tempo romântico, que já lá vai, há muito. Desses caminhos, juncados de flores de utopia adolescente, restam pétalas secas e ressequidas. E uma saudade imensa da inocência perdida.
Hoje, escrevo para mim, como se fosse um diário. É certo que, neste blogue, publico os meus textos. E não menos certo é que tenho leitores, quase sempre amigas e amigos. Amigas e amigos que me criticam e me incentivam a não ficar calado. Outros há que me falam deste ou daquele assunto. E quando lhes digo já ter escrito sobre e publicado no blogue, logo me dizem que não me leram por absoluta falta de tempo. A falta de tempo é uma praga. Claro que antes falta de tempo do que falta de ar. Se assim não fosse, lá ficaria eu mais pobre ainda. Claro que ouço e calo. Não tenho por que me melindrar. Só me lê quem quer. Verdade que alguns, raros, me foram ler, depois.
Como disse, ajo como se estivesse escrevendo um diário. E, quantas vezes, me leio e releio! Ora por desfastio, ora para recordar algumas situações. E como sempre sucede com quem escreve, dou comigo a corrigir mentalmente, aqui e ali, o texto já escrito e divulgado. E isto porque, como salientou o grande poeta espanhol António Machado, «o caminho faz-se caminhando» … Nada é definitivo e ainda bem.
Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
18 de Junho de 2013.
 


domingo, 16 de junho de 2013

05 - REFLEXÕES * Só




Neste final de jornada, quando supunha nada mais caber no meu bornal, a surpresa vem. E já não valia a pena. Não porque a sobrecarga seja pesada; apenas porque já nada acrescenta. É aquela situação de quem é surpreendido por uma trovoada, num descampado: depois de chover uns minutos, os restantes, muitos ou poucos, já nada acrescentam à molha.
No monte, os dias trazem-me a monotonia de um tempo parado.
As notícias que me chegam, ainda que poucas, confirmam-me a monotonia.
O dia é o resultado do fatal movimento de rotação; o ano é o resultado do fatal movimento de translação. Assim sendo, nada de novo sob o sol. Mas os dias e os anos, para além do fatalismo planetário, dão-me coisas bonitas: os passarinhos chilreiam, felizes; as flores insistem em maravilhar-me com os seus aromas e as suas cores; «todo o sol do Alentejo» me encanta em apoteoses de cor. Pois, na contemplação, tudo bem.
Na acção, retenho do poema do grande Poeta Miguel Torga sobre Bartolomeu Dias, a fatal conclusão: um herói sem remate. Inevitável. É da sabedoria que não se pode pedir o que se não tem para dar.
Nestes dias quentes, fico-me à sombra, olhando a estrada deserta. Uma andorinha ensaia acrobacias. Como lhe é fácil ser acrobata e como é difícil a tanta gente dar o passo certo no momento certo!
Só, deixo-me entontecer pela tremulina.

Gabriel de Fochem 

15/6/2013.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

05 - REFLEXÕES * Amigos

Esta é a história de dois amigos. Por comodidade, um será identificado por Alfa; o outro, por Ómega.
Há anos, Alfa e Ómega encontraram-se. Não se viam desde a adolescência. Cada um quis saber do outro. Depois de inteirados do que consideraram ser necessário, decidiram encontrar-se amiúde e assim reatarem os laços da infância e da adolescência. Verificaram, com agrado, que ambos residiam e trabalhavam na cidade grande. Era uma vantagem. Despediram-se com um até breve!
Depois deste encontro, outros mais se seguiram. E os laços foram estreitando-se. Ambos verificaram que as suas condições de vida ditas económicas eram diferentes. Um vivia folgadamente, outro nem tanto.
Certa vez, Alfa convidou Ómega, ao fim da tarde, para irem a um espectáculo de variedades. Ómega, menos abastado, declinou o convite. Surpreso, Alfa quis saber por que motivo lhe era declinado o seu convite. E Ómega, sorrindo, respondeu: somos amigos, mas a tua carteira é maior do que a minha, logo tu tens um poder de compra que eu não tenho. Seremos sempre amigos, mas nem sempre poderemos ser companheiros.
Alfa mal disfarçou a mágoa que lhe causou a resposta de Ómega. E nem sequer quis ponderar a disponibilidade para suportar as despesas. Sabia bem que Ómega não aceitaria. A desigualdade evidenciada era superior à vontade de ambos. Uma desigualdade de somenos, pois nem tudo na vida se mede pelo poder de compra que se tem ou não tem. Sentiram-se mais unidos na amizade, certos de que os afectos não se compram nem se vendem. Companheiros seriam na longa estrada da vida, nem tanto no supérfluo que a sociedade também oferece, pagando.

Gabriel de Fochem
11.4.2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

05 - REFLEXÕES * O escadote

Ignácio Pedralva era um homem muito respeitado no meio rural onde vivia. As suas barbas brancas davam testemunho de uma vida longa. Já homem feito, casado e pai, assistira à derrocada da Monarquia e ao advento da República. Sem entusiasmos, passara da velha à nova ordem estabelecida. Lia a Imprensa e ouvia com atenção o filho que vivia na cidade.

Alfredo, de quando em quando, conseguia uns dias de licença e visitava o pai. E sorria sempre quando ouvia a pergunta: Filho, como vai a política, lá na cidade?


A República passara. Havia aberto de par em par as portas ao autoritarismo. Como sempre sucede, uns adaptaram-se, outros mantiveram-se fieis ao ideário apeado. Ignácio Pedralva meneava a cabeça, apreensivo. As coisas continuavam a não caminhar bem. Agora, pior.


Alfredo, homem vigoroso de corpo e de entendimento, ficara ao lado dos que resistiam. Sustentava que as forças do reviralho recuperariam a República e os seus ideais de Outubro de 1910. E insistia em transmitir ao pai essa convicção.


Um dia, Alfredo sugeriu ao pai que aderisse a um movimento local. Afirmava que a força residia nas bases. E sentenciava: o Terreiro do Paço não poderá governar contra as bases.


Ignácio Pedralva, sorrindo, respondeu-lhe: Meu filho, nunca fui degrau de escadote para os outros subirem.


Surpreso, Alfredo ficou calado, digerindo a resposta do pai. Entretanto, eram horas de almoço. Sentaram-se à mesa. Uma açorda de alho e poejos com peixe frito esperava-os, fumegando.


Alfredo tentou recuperar a conversa: Pai, não quer pensar melhor no que lhe sugeri?


Ignácio Pedralva, fitando o filho com ternura: Não quero destruir as tuas esperanças com as minhas desilusões. Também as tive e lutei por elas. Fiquei desiludido. Naquele meu tempo, muitos dos que estavam, não eram; e muitos do que eram, não estavam... Entendes-me? E, agora, é demasiado tarde para mim.


Alfredo tentou insistir...


O velho atalhou: Não insistas, filho. A minha decisão está tomada. Apenas desejo que, dessa tua aventura, não saias tão magoado como eu saí da minha. Talvez, quem sabe?, as coisas sejam diferentes, hoje...


E continuaram a refeição, em silêncio.


Gabriel de Fochem

5 de Março de 2013.