quarta-feira, 10 de setembro de 2014

04 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A angústia de Silvério


Arrastava-se o ano de 1965. Em África, a guerra colonial impunha aos naturais das proclamadas províncias ultramarinas uma nacionalidade duvidosa e um regime sem alma.

Portugal vai do Minho a Timor!

Portugal não é um país pequeno! E sobre o mapa da Europa projectava-se toda a geografia colonial.

A grandeza de um país media-se em quilómetros quadrados!

As caravelas de antanho pretendiam-se ressuscitadas agora na violência e na opressão!

O quinto império, que jamais o do Padre António Vieira, havia de impor-se sob a vontade de um fantasma medieval!

As trevas da Inquirição dita santa estavam de regresso!

A impiedade sacrílega e profana dos senhores da vida e da morte proclamava a sua vontade!

Os domesticadores do destino ditavam a Lei da Força!

E as asas privadas da sua sede de infinito!

E um povo triste que sofria, em silêncio!

Subversiva, uma resistência clandestina dizia não!

Arrastava-se o ano de 1965…

No quarto, pobremente mobilado, a espera pesava. Sentado na cama, ausente de tudo e de todos, Silvério. Quem era? Mais um desenraizado, trazido à cidade grande, onde cabia todo o desespero do mundo.

Aqui, Portugal era Lisboa… e o resto só paisagem!

Nos campos desertos, o tempo parara. A guerra, nas Áfricas!

E as Franças e as Alemanhas, a ânsia dum destino, a salto!

Na rua, erguia-se o palco e representava-se a farsa: Portugal não é um país pequeno!

Cabisbaixos, os transeuntes tentavam ignorar o drama que eram forçados a representar.

Autocarros, eléctricos, automóveis. O vaivém rotineiro da cidade grande.

A chinfrineira de um eléctrico despertou-o. Circunvagou o olhar. Lá estava o monte de livros, empilhados, no chão. Lá estava o guarda-fato, com o seu espelho indiscreto, reflectindo ausência.

Tenho de decidir-me. Ou fico ou parto. Esta indecisão não me leva a nada. E se ficar, como resistir, sozinho? Seria uma loucura e um suicídio. E se partir, para onde irei? E como iria? De comboio, de barco ou de avião é impossível. Ainda que tivesse passaporte, a polícia política não mo permitiria. A hipótese seria a França, mas como atravessar a Espanha até aos Pirenéus sem um passador e sem dinheiro bastante para pagar-lhe? Estou encurralado. Ficarei.

Pressurosa, a senhora Mariana, sua compreensiva hospedeira, uma mulher simples do povo sem voz, perguntou, timidamente, do corredor:

--- O senhor Silvério chamou? Pediu alguma coisa?

--- Não, não chamei, senhora Mariana. Estava pensando em voz alta… --- respondeu aborrecido por aquela fraqueza. --- Que diriam as pessoas ouvindo-o falar sozinho?

Os passos da senhora Mariana, no corredor, de regresso à cozinha, esmoreceram-se e o silêncio pesado regressou ao quarto.

Anoitecia. O movimento, na rua, era, agora, menor. A fraca iluminação semeava sombras e medos. Uma saudade vaga e nebulosa da infância e do tempo perdido doía-lhe no peito.

A noite caíra.

A senhora Mariana bateu discretamente na porta e perguntou:

--- O senhor Silvério não acha que se faz tarde para jantar?

--- Hoje não me apetece. Desculpe não lhe fazer companhia. Merendei tarde e dói-me a cabeça.

Pesado, o silêncio impôs-se definitivamente.

Lá fora, a brisa fresca do outonal Novembro levava para longe as folhas amarelecidas das árvores que assombravam a rua solitária.

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José Augusto de Carvalho
Lisboa, 1969
Revisto em 16 de Julho de 2014.
Viana *Évora*Portugal

domingo, 7 de setembro de 2014

05 - REFLEXÕES * O candidato


A reflexão que o leitor lerá a seguir decorre de uma casualidade, casualidade relevante, porque me permitiu alinhavar estas considerações, que partilho.



Ouvi, há dias, um diálogo curioso. Não cometo nenhuma inconfidência ao referi-lo, porque ocorreu em lugar público e sem qualquer indício de sigiloso. Nem o tema era merecedor de recato.

O tema em discussão era definir o perfil de um candidato a um cargo directivo. Como bem se compreende, tema importante; e a preocupação igualmente compreensível.

É importante o perfil de um candidato e não menos importante é votar num candidato com perfil ajustado à função a que se propõe.

O interessante do diálogo era a preocupação incidir sobre a popularidade do candidato a encontrar. Em boa verdade, não foi manifestada preocupação pela capacidade.

Este meu reparo coincidirá com algumas observações habituais de muitos eleitores sobre candidatos: “este é simpático”; “aquele nunca se ri”; “não gosto da cara daqueloutro” ; e por aí…

Nada tenho a opor às apreciações que cada um faz e declara ou cala. Tenho, sim, que sejam ou possa ser determinantes na sua decisão de votar.

Sustento, e muitos me acompanham nesta posição, que a decisão de votar, de escolher, afinal, deve assentar na competência e nos valores que qualquer candidato comprovadamente defende.

Mais sustento, e aqui também não estou sozinho, que deveremos mais privilegiar a prática quotidiana do candidato do que os seus discursos de campanha.

Sustento ainda, e finalmente, que será sempre ideal questionar o candidato, de preferência em sessões de esclarecimento, porque as respostas que der às perguntas que lhe forem dirigidas serão matéria para reflexão e posterior decisão quando o eleitor for chamado a votar, isto é, a escolher quem considera mais apto para o cargo político ou outro.

Espero que o leitor não esteja propondo meditação sobre a inexistência de sessões de esclarecimento. Se for esse o caso, dir-lhe-ei que um candidato que se oponha a sessões de esclarecimento não terá o meu voto.

Até sempre!

Gabriel de Fochem
7 de Setembro de 2014.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

08 - CIDADANIA * Tempos difíceis


Nestes tempos que vivemos, os acontecimentos que nos desgostam e/ou nos indignam sucedem-se a um ritmo avassalador.
Sei que é recorrente esta afirmação, mas nem sempre há a predisposição para o silêncio. Como diz o velho rifão: Um homem não é de ferro!
Vivemos tempos difíceis!
Vivemos tempos difíceis, fundamentalmente devidos à acção despudorada do Homem.
Em todas as latitudes, há violência: a violência da fome; a violência da carência; a violência da intolerância; a violência do esbulho; a violência dos conflitos armados; a violência dos jogos obscenos de poder e de opressão.
Hoje, os telejornais abrem, via de regra, com notícias de desgraça, de desprezo pela Vida, de insulto e humilhação.
Vivemos tempos difíceis!
A globalização da desumanidade e da infâmia é a realidade de todas as horas.
E se é verdade em termos globais, adentro do nosso pequeno mundo também as coisas não irão melhor.
Hoje, pessoa amiga visitou-me para me dar a notícia da morte de alguém que bem conhecíamos. Este facto banal não motivaria a redacção de qualquer texto. Afinal, morrer é a consequência natural de qualquer ser vivo. A Morte vive connosco. É a única certeza que temos nesta vida!
O que motivou estas linhas foi constar que a pessoa morreu há três ou quatro dias e só ontem se ter sabido.
Esta funesta ocorrência levanta a interrogação: os Centros de Saúde, as Juntas de Freguesia, as Câmaras Municipais não têm sinalizadas as pessoas em risco, designadamente as que vivem sozinhas?
É com desgosto e indignação que vivo estes dias de desumanidade e violência.
Li, há anos, um texto de autor brasileiro, cujo nome não recordo, no qual, uma personagem dizia: «Se o mundo é isto, parem o «bonde» (carro eléctrico), porque eu quero sair.»
Até sempre!
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José-Augusto de Carvalho
3 de Setembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 22 de fevereiro de 2014

09 - IN MEMORIAM * Al-Mu'tamid





I
Quando soube de ti,
era tarde demais
para te conhecer!


Quando soube de ti,
era tarde demais
para ouvir-te cantar!...


Quando soube de ti,
era tarde demais,
tarde demais, em Beja?


II
Que jardins perfumaram
a sombra enamorada
de sonho e meio-dia?


Que enfeitiçadas sedes
mitigaram as fontes
de espanto e sedução?


Que inseguros trinados
ensaiaram felizes
hinos de primavera?


Que ilusão me embriaga
de respirar os ares
que respiraste um dia?


III
Nos lábios de romã
da doce Xerazade
o dulçor dos teus versos…


Os poentes de sangue
entardecem ainda
a tua amada Beja…


Nas auroras de Maio,
os campos em promessa
da tua amada Beja…


IV
Enquanto houver memória
de Vida e Poesia,
nunca é tarde demais
na tua amada Beja!


Que por ti e por nós,
assim seja, Poeta!




José-Augusto de Carvalho
29 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

08 - CIDADANIA * Falando de Carnaval...


Qualquer pessoa só se levanta depois de cair. Esta verdade, dita de La Palisse, é frequentemente esquecida pelos incautos e desprezada pela jactância militante.

Situações há em que da queda não se levanta, carecendo do auxílio alheio.

Verdade verdadinha que quase todos nós já demos uma queda e dela mos levantámos ou fomos levantados. Pois é, como diz o rifão, quem anda à chuva, molha-se…

Às vezes, por uma boa causa, arriscamos a intempérie. Aí, a molha vale como sacrifício recompensado.

Ah, mas outras vezes, arriscamos a intempérie por algo que não vale o sacrifício. E aí, ganhamos a molha e, não raro, uma constipação. Nestes momentos, vale a sabedoria que conheço desde criança: deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.

Nem sempre discernimos a boa causa do logro. A sedução da boa causa leva o logro a vestir as roupagens da boa causa e é nessas situações que claudica o discernimento. Que fazer? É da humana condição a cedência à sedução, seja genuína, seja uma mascarada perversa.

Meditar nestas coisas vulgares do quotidiano é um exercício prudente e ensina-nos que todo o carnaval tem a sua quarta-feira de cinzas.

A quarta-feira de cinzas é, como sabemos, o primeiro dia da Quaresma, dia que simboliza o dever da conversão, logo a alteração da vida descuidada, etc.

Este carnaval que vivemos e consentimos terá a sua quarta-feira de cinzas. Uns vão na leva, outros ficam-se olhando o desfile, esperando nem eles saberão exactamente o quê. E assim, crédulos e incrédulos, olhamos a comédia a que assistimos e que simultaneamente representamos.



José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 4 de janeiro de 2014

08 - CIDADANIA * Hora Política



Andam por aí uns quantos reclamando que a Constituição da República carece de revisão. Até eu concordo, a bem do primado da Lei e da Democracia.

Aos doutos reclamantes proponho esta alteração fundamental, a ser referendada, de modo deliberativo e não consultivo, a fim de que o Povo sem voz se pronuncie de vez:


Artigo - Todos os governantes, seja Poder Central, seja Poder Regional, seja Poder Local, cumprirão escrupulosamente os seus programas sufragadas pelo Povo Eleitor.

Único – O incumprimento total ou parcial provocará a sua destituição pelo Tribunal Constitucional, com efeitos imediatos, e a convocação de novo acto eleitoral.


Vamos a isto?



José-Augusto de Carvalho
4 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

10 - JORNAL DE PAREDE * O meu (primeiro) testamento


Introdução
Ninguém pode encontrar-se ou perder-se em caminhos que sempre recusou percorrer.


Cidadania

Estou onde sempre estive, progressivamente mais firme nas convicções e mais decidido na sua defesa sustentada.

No caminho percorrido, deparei-me, como era inevitável, com perspectivas que recusei subscrever. É dura esta difícil caminhada! Mas ceder a cantos de sereia acaba sempre em perdição.

Hoje como ontem, reclamo-me aluno da Escola da Vida: estudo e aprendo. Numa constante revisão da matéria dada, corto aqui, acrescento ali.

Aceito como boa orientação a dúvida sistemática. Sou um daqueles que entendem haver muitas dúvidas e raras certezas. Sem nunca perder de vista o objectivo último, a correcção da rota é uma tarefa de todos as horas.

Não carrego no meu bornal a obstinação nem a auto-suficiência; são mantimentos que rejeito por indigestos.

Prezo a ponderação e a discussão; delas sempre nasce a luz possível que nos alumia. E, entre companheiros de jornada, não perco nem ganho debates de ideias: contribuo; não imponho e não tolero imposições. Na grande jornada da Humanidade, o contributo de todos é indispensável. Por dever e por respeito por mim e pelos outros.


Literatura

Leio desde criança; escrevo desde criança.

Quanto ao que li, li de tudo, em boa verdade, mas tentei privilegiar a qualidade; a qualidade sempre relativa que o peso dos anos intenta sublimar.

Quanto ao que escrevo, ajuizará quem me ler. Não sou nem pretendo ser juiz em causa própria. Apenas posso garantir que procuro ser decente. Será pouco? Para mim, é um tudo de que não abdico.

No meu percurso, há livros publicados e textos em antologias. É o meu passado atestando etapas cumpridas.

Posteriormente, tive ofertas de publicação que recusei. E soube, até, de quem tivesse a pretensão de ajudar-me, confundindo divulgação de um trabalho com benemerência.

Distante de tertúlias por opção, comigo conto. E porque assim é, suporto o encargo deste isolamento que escolhi.

Na Literatura, serei ou não o que tiver de ser, mas sempre por merecimento e nunca por favor.

Quase tudo quanto escrevo está publicado em alguns espaços da Internet. Se, um dia, algum editor me ler e desejar editar-me, estarei disponível para ponderar a hipótese. Se tal oportunidade não surgir, talvez, um dia, eu decida assumir o encargo da publicação ou arrumar as centenas de páginas escritas na gaveta das inutilidades.

Se optar pela publicação, o favor ou desfavor dos meus concidadãos será da sua exclusiva responsabilidade. Sem recriminações, aceitarei o seu veredicto. E por uma óbvia razão: se a eles decidir destinar o resultado deste meu labor, a eles competirá aceitá-lo ou recusá-lo.

Hoje, é assim. Nada de definitivo existe sob o Sol.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
1 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal