Nas estradas e encruzilhadas da vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.
sábado, 20 de setembro de 2014
05 - REFLEXÕES * «Eu só sei que nada sei»
Diz a sabedoria popular que «quem semeia ventos, colhe tempestades». Isto é, dito de outra maneira: há os que provocam as situações e depois se queixam das consequências.
Há outra aparentada: a de quem provoca ardilosamente uma situação e, depois, se obtém o êxito esperado, responsabiliza o(s) incauto(s).
Estas serão as mais perigosas e poderão ter, porventura, a sua fixação no aforismo «paga o justo pelo pecador». Assim me arrisco a supor no sentido doloso que assume a autoria da armadilha contra a credulidade e talvez imprevidência de quem nela cai ou dela é vítima.
Tudo o que digo decorre de quanto tenho notícia.
Ora sabemos o que vai pelo mundo nestes tempos que temos de viver. Exactamente por isso, apenas aqui registo o que todos sabemos, ainda que, é bem verdade, todos nós, de vez em quando, sejamos vítimas desta ou daquela armadilha, quer por distracção, quer por absorvidos por preocupações.
Que fique claro que neste e noutros registos não pretendo rotular ninguém de ignorante e muito menos ensinar seja o que for. Não julgo ninguém, porque não sou juiz; não ensino ninguém, porque não sou professor. Sou apenas um cidadão que presume ter aprendido o que Sócrates, o tão justamente celebrado filósofo grego, ensinou a toda a Humanidade, entre outras coisas: «Eu só sei que nada sei.»
Até sempre!
Gabriel de Fochem
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05 - reflexões
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
04 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A angústia de Silvério
Portugal vai do Minho a Timor!
Portugal não é um país pequeno! E sobre o mapa da Europa projectava-se toda a geografia colonial.
A grandeza de um país media-se em quilómetros quadrados!
As caravelas de antanho pretendiam-se ressuscitadas agora na violência e na opressão!
O quinto império, que jamais o do Padre António Vieira, havia de impor-se sob a vontade de um fantasma medieval!
As trevas da Inquirição dita santa estavam de regresso!
A impiedade sacrílega e profana dos senhores da vida e da morte proclamava a sua vontade!
Os domesticadores do destino ditavam a Lei da Força!
E as asas privadas da sua sede de infinito!
E um povo triste que sofria, em silêncio!
Subversiva, uma resistência clandestina dizia não!
Arrastava-se o ano de 1965…
No quarto, pobremente mobilado, a espera pesava. Sentado na cama, ausente de tudo e de todos, Silvério. Quem era? Mais um desenraizado, trazido à cidade grande, onde cabia todo o desespero do mundo.
Aqui, Portugal era Lisboa… e o resto só paisagem!
Nos campos desertos, o tempo parara. A guerra, nas Áfricas!
E as Franças e as Alemanhas, a ânsia dum destino, a salto!
Na rua, erguia-se o palco e representava-se a farsa: Portugal não é um país pequeno!
Cabisbaixos, os transeuntes tentavam ignorar o drama que eram forçados a representar.
Autocarros, eléctricos, automóveis. O vaivém rotineiro da cidade grande.
A chinfrineira de um eléctrico despertou-o. Circunvagou o olhar. Lá estava o monte de livros, empilhados, no chão. Lá estava o guarda-fato, com o seu espelho indiscreto, reflectindo ausência.
Tenho de decidir-me. Ou fico ou parto. Esta indecisão não me leva a nada. E se ficar, como resistir, sozinho? Seria uma loucura e um suicídio. E se partir, para onde irei? E como iria? De comboio, de barco ou de avião é impossível. Ainda que tivesse passaporte, a polícia política não mo permitiria. A hipótese seria a França, mas como atravessar a Espanha até aos Pirenéus sem um passador e sem dinheiro bastante para pagar-lhe? Estou encurralado. Ficarei.
Pressurosa, a senhora Mariana, sua compreensiva hospedeira, uma mulher simples do povo sem voz, perguntou, timidamente, do corredor:
--- O senhor Silvério chamou? Pediu alguma coisa?
--- Não, não chamei, senhora Mariana. Estava pensando em voz alta… --- respondeu aborrecido por aquela fraqueza. --- Que diriam as pessoas ouvindo-o falar sozinho?
Os passos da senhora Mariana, no corredor, de regresso à cozinha, esmoreceram-se e o silêncio pesado regressou ao quarto.
Anoitecia. O movimento, na rua, era, agora, menor. A fraca iluminação semeava sombras e medos. Uma saudade vaga e nebulosa da infância e do tempo perdido doía-lhe no peito.
A noite caíra.
A senhora Mariana bateu discretamente na porta e perguntou:
--- O senhor Silvério não acha que se faz tarde para jantar?
--- Hoje não me apetece. Desculpe não lhe fazer companhia. Merendei tarde e dói-me a cabeça.
Pesado, o silêncio impôs-se definitivamente.
Lá fora, a brisa fresca do outonal Novembro levava para longe as folhas amarelecidas das árvores que assombravam a rua solitária.
---
José Augusto de Carvalho
Lisboa, 1969
Revisto em 16 de Julho de 2014.
Viana *Évora*Portugal
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04 - fantasmas da memória
domingo, 7 de setembro de 2014
05 - REFLEXÕES * O candidato
A reflexão que o leitor lerá a seguir decorre de uma casualidade, casualidade relevante, porque me permitiu alinhavar estas considerações, que partilho.
Ouvi, há dias, um diálogo curioso. Não cometo nenhuma inconfidência ao referi-lo, porque ocorreu em lugar público e sem qualquer indício de sigiloso. Nem o tema era merecedor de recato.
O tema em discussão era definir o perfil de um candidato a um cargo directivo. Como bem se compreende, tema importante; e a preocupação igualmente compreensível.
É importante o perfil de um candidato e não menos importante é votar num candidato com perfil ajustado à função a que se propõe.
O interessante do diálogo era a preocupação incidir sobre a popularidade do candidato a encontrar. Em boa verdade, não foi manifestada preocupação pela capacidade.
Este meu reparo coincidirá com algumas observações habituais de muitos eleitores sobre candidatos: “este é simpático”; “aquele nunca se ri”; “não gosto da cara daqueloutro” ; e por aí…
Nada tenho a opor às apreciações que cada um faz e declara ou cala. Tenho, sim, que sejam ou possa ser determinantes na sua decisão de votar.
Sustento, e muitos me acompanham nesta posição, que a decisão de votar, de escolher, afinal, deve assentar na competência e nos valores que qualquer candidato comprovadamente defende.
Mais sustento, e aqui também não estou sozinho, que deveremos mais privilegiar a prática quotidiana do candidato do que os seus discursos de campanha.
Sustento ainda, e finalmente, que será sempre ideal questionar o candidato, de preferência em sessões de esclarecimento, porque as respostas que der às perguntas que lhe forem dirigidas serão matéria para reflexão e posterior decisão quando o eleitor for chamado a votar, isto é, a escolher quem considera mais apto para o cargo político ou outro.
Espero que o leitor não esteja propondo meditação sobre a inexistência de sessões de esclarecimento. Se for esse o caso, dir-lhe-ei que um candidato que se oponha a sessões de esclarecimento não terá o meu voto.
Até sempre!
Gabriel de Fochem
7 de Setembro de 2014.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014
08 - CIDADANIA * Tempos difíceis

Nestes tempos que vivemos, os acontecimentos que nos desgostam e/ou nos indignam sucedem-se a um ritmo avassalador.
Sei que é recorrente esta afirmação, mas nem sempre há a predisposição para o silêncio. Como diz o velho rifão: Um homem não é de ferro!
Vivemos tempos difíceis!
Vivemos tempos difíceis, fundamentalmente devidos à acção despudorada do Homem.
Em todas as latitudes, há violência: a violência da fome; a violência da carência; a violência da intolerância; a violência do esbulho; a violência dos conflitos armados; a violência dos jogos obscenos de poder e de opressão.
Hoje, os telejornais abrem, via de regra, com notícias de desgraça, de desprezo pela Vida, de insulto e humilhação.
Vivemos tempos difíceis!
A globalização da desumanidade e da infâmia é a realidade de todas as horas.
E se é verdade em termos globais, adentro do nosso pequeno mundo também as coisas não irão melhor.
Hoje, pessoa amiga visitou-me para me dar a notícia da morte de alguém que bem conhecíamos. Este facto banal não motivaria a redacção de qualquer texto. Afinal, morrer é a consequência natural de qualquer ser vivo. A Morte vive connosco. É a única certeza que temos nesta vida!
O que motivou estas linhas foi constar que a pessoa morreu há três ou quatro dias e só ontem se ter sabido.
Esta funesta ocorrência levanta a interrogação: os Centros de Saúde, as Juntas de Freguesia, as Câmaras Municipais não têm sinalizadas as pessoas em risco, designadamente as que vivem sozinhas?
É com desgosto e indignação que vivo estes dias de desumanidade e violência.
Li, há anos, um texto de autor brasileiro, cujo nome não recordo, no qual, uma personagem dizia: «Se o mundo é isto, parem o «bonde» (carro eléctrico), porque eu quero sair.»
Até sempre!
.
José-Augusto de Carvalho
3 de Setembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal
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08-Cidadania
sábado, 22 de fevereiro de 2014
09 - IN MEMORIAM * Al-Mu'tamid
I
Quando soube de ti,
era tarde demais
para te conhecer!
Quando soube de ti,
era tarde demais
para ouvir-te cantar!...
Quando soube de ti,
era tarde demais,
tarde demais, em Beja?
II
Que jardins perfumaram
a sombra enamorada
de sonho e meio-dia?
Que enfeitiçadas sedes
mitigaram as fontes
de espanto e sedução?
Que inseguros trinados
ensaiaram felizes
hinos de primavera?
Que ilusão me embriaga
de respirar os ares
que respiraste um dia?
III
Nos lábios de romã
da doce Xerazade
o dulçor dos teus versos…
Os poentes de sangue
entardecem ainda
a tua amada Beja…
Nas auroras de Maio,
os campos em promessa
da tua amada Beja…
IV
Enquanto houver memória
de Vida e Poesia,
nunca é tarde demais
na tua amada Beja!
Que por ti e por nós,
assim seja, Poeta!
José-Augusto de Carvalho
29 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal
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09 - In memoriam
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
08 - CIDADANIA * Falando de Carnaval...
Qualquer pessoa só se levanta depois de cair. Esta verdade, dita de La Palisse, é frequentemente esquecida pelos incautos e desprezada pela jactância militante.
Situações há em que da queda não se levanta, carecendo do auxílio alheio.
Verdade verdadinha que quase todos nós já demos uma queda e dela mos levantámos ou fomos levantados. Pois é, como diz o rifão, quem anda à chuva, molha-se…
Às vezes, por uma boa causa, arriscamos a intempérie. Aí, a molha vale como sacrifício recompensado.
Ah, mas outras vezes, arriscamos a intempérie por algo que não vale o sacrifício. E aí, ganhamos a molha e, não raro, uma constipação. Nestes momentos, vale a sabedoria que conheço desde criança: deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.
Nem sempre discernimos a boa causa do logro. A sedução da boa causa leva o logro a vestir as roupagens da boa causa e é nessas situações que claudica o discernimento. Que fazer? É da humana condição a cedência à sedução, seja genuína, seja uma mascarada perversa.
Meditar nestas coisas vulgares do quotidiano é um exercício prudente e ensina-nos que todo o carnaval tem a sua quarta-feira de cinzas.
A quarta-feira de cinzas é, como sabemos, o primeiro dia da Quaresma, dia que simboliza o dever da conversão, logo a alteração da vida descuidada, etc.
Este carnaval que vivemos e consentimos terá a sua quarta-feira de cinzas. Uns vão na leva, outros ficam-se olhando o desfile, esperando nem eles saberão exactamente o quê. E assim, crédulos e incrédulos, olhamos a comédia a que assistimos e que simultaneamente representamos.
José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2014.
Viana*Évora*Portugal
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08-Cidadania
sábado, 4 de janeiro de 2014
08 - CIDADANIA * Hora Política
Andam por aí uns quantos reclamando que a Constituição da República carece de revisão. Até eu concordo, a bem do primado da Lei e da Democracia.
Aos doutos reclamantes proponho esta alteração fundamental, a ser referendada, de modo deliberativo e não consultivo, a fim de que o Povo sem voz se pronuncie de vez:
Artigo - Todos os governantes, seja Poder Central, seja Poder Regional, seja Poder Local, cumprirão escrupulosamente os seus programas sufragadas pelo Povo Eleitor.
Único – O incumprimento total ou parcial provocará a sua destituição pelo Tribunal Constitucional, com efeitos imediatos, e a convocação de novo acto eleitoral.
Vamos a isto?
José-Augusto de Carvalho
4 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal
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