sábado, 28 de maio de 2016

6 - ROMANCEIRO * Desconforto






É sempre o mesmo desconforto!

A chuva, o vento, a tempestade…

Fechada a barra,

vazio o porto,

há um vazio na cidade,

um vazio que nos amarra

como os barcos parados,

ao largo fundeados.



Galopes de fúria das águas

que salgam as mágoas

dos olhos molhados.

Gaivotas em terra, transidas

de frio nos molhes do porto.

Asas recolhidas,

corpos fustigados

p’los látegos do desconforto.



E os barcos parados,

ao largo fundeados,

descendo, subindo

ao sabor das vagas

que investem rugindo…

E a chuva caindo!

E o vento ululante de pragas

agredindo o porto…

E a barra fechada

e a cidade ouvindo,

ouvindo calada,

sofrendo calada

tanto desconforto.



E os barcos parados,

ao largo fundeados…

E a barra fechada

negando a largada.



*

José-Augusto de Carvalho
16 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 27 de maio de 2016

02 - POESIA VIVA * Ah, Poesia!






Ah, Poesia, eu não consigo ser

poeta neutro em Torre de Marfim!

Se foi o que quiseste ter de mim,

prefiro te perder a me perder...



Talvez poeta seja, mas, primeiro,

sou homem por direito e condição.

Um homem que tem norte e tem timão

não pode ter grilhões nem carcereiro.



Eu canto as asas livres deste Céu!

Eu choro a flor que o tempo emurcheceu!

Eu luto contra todas as algemas!



Por transgredir aceito ser teu réu

e, por defesa, alego que meu eu

aqui te enfrenta com ou sem poemas!






José-Augusto de Carvalho
23 de Março de 2006, 
Viana * Évora * Portugal

quinta-feira, 26 de maio de 2016

09 - IN MEMORIAM * Llanto por Ernesto «che» Guevara



Argentina, 14.6.1928
Bolívia, 9.10.1967



Tú miraste el carmín de las mañanas,     

encendido en los pechos libertarios

de los hombres cargados de futuro!


Y viniste,

por los rumbos abiertos por la sangre,

en las noches oscuras

de mujeres sin hombres,

de los hijos del miedo,

de los viejos que estan de màs para tener

esperanzas.


Y viniste,

con tu sed adyacente, a sumergirte

altas olas

de la mar de ansiedad y de peligros.


Y viniste,

con la luz de la dádiva,

y caíste

en la tierra lejana que quisiste

tuya.





José-Augusto de Carvalho
22 de Dezembro de 2007.
Viana * Évora * Portugal

09 - IN MEMORIAM * Llanto por Victor Jara


Chile, 28.9.1932
Chile, 16.9.1973




No te dieron el derecho de coger amapolas

en todos los caminos de tu tierra.



Para ellos,

el derecho que querias de vivir en paz

era el peligro de la luz sobre las tinieblas…



Ay, las tinieblas hijas de la muerte

y amantes de todos los asesinos!



Ya no llueve en Santiago!

El cielo ha secado todo su llanto!

Y los ecos de tus canciones se han perdido

en las alas heridas del cóndor

subyugado por los bandoleros.





José-Augusto de Carvalho
9 de Dezembro de 2007.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 25 de maio de 2016

06 - ROMANCEIRO * Em tempo de natal


Nas águas do nosso Odiana

Em tempo de Natal




Da barra, em Vila Real,

a maré vem rio acima.

E que frio traz o Natal,

o Natal que se aproxima!



Sem atraso no percurso,

cumpridor do calendário,

vem repetir o discurso

do messias operário.



Vem ainda pequenino,

e nas palhinhas deitado,

puro e nu como é destino

doutro qualquer deserdado.



Sobem as águas do Odiana,

cumprindo as leis naturais,

rumo à terra transtagana

de planuras e trigais.



Águas salgadas deveras,

fartas de peixes e de iodo!

Fim de angústias e de esperas

das mesas de um povo todo.



Como é mãe a natureza!

Corrige o inepto poder,

dando a todos com justeza

pra que todos possam ter.



E ninguém às águas tece

Hosanas e gratidão!

Ai, às vezes apetece

verberar a ingratidão.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Dezembro de 2015.

09 - IN MEMORIAM * Pablo Picasso





Dom Pablo era malaguenho,

bem do Sul da Andaluzia.

Se foi génio no desenho,

na pintura foi magia.





Deu sonho às suas Espanhas 

de gentes, lendas e cores...

Chorou, nas suas entranhas,

feridas, ódios e dores.





Em Guernica foi o grito

desmascarando os horrores

da barbárie sem perdão;





na pomba, as asas do mito

erguendo um altar de flores

à Paz, do berço ao caixão.







José-Augusto de Carvalho
14 de Janeiro de 2006.
Viana * Évora * Portugal



09 - IN MEMORIAM * Ibéria


Federico García Lorca
(Fuentevaqueros, 5 de junio de 1898
Viznar, 19 de agosto de 1936)





N' Os grandes cemitérios sob a Lua,

o grito do cigano de Granada

a noite da vergonha perpetua

na dor da minha Ibéria assassinada.



Ardia o mês de Agosto. Era verão.

E a terra ensanguentada ainda jaz,

memória de um sem tempo e sem razão

que fuzilou o sonho, o verbo e a paz.



Agora, nas palavras, o tardio

consolo do clamor que repudia

o gesto da barbárie consentida.



Mataron Federico! E no vazio

do tempo sem amor e sem Poesia,

persiste, em carne viva, esta ferida.







José-Augusto de Carvalho
26 de Março de 2007.
Viana * Évora * Portugal