terça-feira, 22 de novembro de 2016

02 - POESIA VIVA * Os versos da canção




CLAVE DE SUL

OS VERSOS DA CANÇÃO


Não sinto no meu peito anseios de partida.

Não sinto nos meus pés renúncias ancoradas.

Não dei a volta ao mundo, apenas dei à Vida

as rotações que pude e quis que fossem dadas.



Dei o que pude e quis --- o mais foi extorsão.

Pequenos mundos tem o mundo e várias sendas

varridas pelo ardor dos versos da canção,

sustidas p’lo torpor de milenárias vendas.



No meu entardecer, indócil adivinho

o ser a acontecer nos versos da canção.

Não retrocede nunca o rio o seu caminho

no ciclo natural da sua condição.



Eu não verei cumprir o ciclo da evasão,

mas sempre hei-de cantar os versos da canção.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Novembro de 2016.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

10 - JORNAL DE PAREDE * A religião do medo


30/10/2016 Revista Espaço Acadêmico jornais & revistas, religiões

A religião do medo






FREI BETTO*

Convencer fiéis a abdicar de recursos para sustentar supostos arautos do divino é explorar os efeitos sem alertar para as causas

Muitos cristãos foram educados na religião do medo. Medo do inferno, das chamas eternas, das artimanhas do demônio. E quando o medo se apodera de nós, adverte Freud, transforma-se em fobia. Recurso sempre utilizado por instituições autocráticas que procuram impor seus dogmas a ferro e fogo, de modo a induzir as pessoas a trocar a liberdade pela segurança.

Quando se abre mão da liberdade, demite-se da consciência crítica, omite-se perante os desmandos do poder, acovarda-se agasalhado pelo nicho de uma suposta proteção superior. Foi assim na Igreja da Inquisição, na ditadura estalinista, no regime nazista. É assim a xenofobia ianque, o terrorismo islâmico e os segmentos religiosos que dão mais valor ao diabo que a Deus, e prometem livrar os fiéis de males através da vulgarização de exorcismos, curas milagrosas e outras panaceias para enganar os incautos.

Em nome de uma ação missionária, milhões de indígenas foram exterminados na colonização da América Latina. Em nome da pureza ariana, o nazismo erigiu campos de extermínio. Em nome do socialismo, Stalin ceifou a vida de 20 milhões de camponeses. Em nome da defesa da democracia, o governo dos EUA semeia guerras e, no passado recente, implantou na América Latina sangrentas ditaduras.

Convencer fiéis a abdicarem de recursos científicos, como a medicina, e de boa parte da renda familiar para sustentar supostos arautos do divino é explorar os efeitos sem alertar para as causas. Já que, no Brasil, milagre é o povão ter acesso ao serviço de saúde de qualidade, haja engodo religioso travestido de milagre!

A religião do medo alardeia que só ela é a verdadeira. As demais são heréticas, ímpias, idólatras ou demoníacas. Assim, reforçam o fundamentalismo, desde o bélico, que considera inimigo todo aquele que não reza pelo seu livro sagrado, até o sutil, como o que discrimina os adeptos de outras tradições religiosas e sataniza os homossexuais e os ateus.

A modernidade conquistou o Estado laico e separou o poder político do poder religioso. Porém, há poderes políticos travestidos de poder religioso, como a convicção ianque do “destino manifesto”, como há poderes religiosos que se articulam para ocupar os espaços políticos.

Até o mercado se deixa impregnar de fetiche religioso ao tentar nos convencer de que devemos ter fé em sua “mão invisível” e prestar culto ao dinheiro. Como afirmou o papa Francisco em Assis, a 5 de junho de 2013, “se há crianças que não têm o que comer (…) e uns sem abrigo morrem de frio na rua, não é notícia. Ao contrário, a diminuição de dez pontos na Bolsa de Valores constitui uma tragédia”.

Uma religião que não pratica a tolerância nem respeita a diversidade religiosa, e se nega a amar quem não reza pelo seu Credo, serve para ser lançada ao fogo. Uma religião que não defende os direitos dos pobres e excluídos é, como disse Jesus, mero “sepulcro caiado”. E quando ela enche de belas palavras os ouvidos dos fiéis, enquanto limpa seus bolsos em flagrante estelionato, não passa de um “covil de ladrões”.

O critério para se avaliar uma verdadeira religião não é o que ela diz de si mesma. É aquela cujos fiéis se empenham para que “todos tenham vida, e vida em abundância” (João 10, 10) e abraçam a justiça como fonte de paz.

Deus não quer ser servido e amado em livros sagrados, templos, dogmas e preceitos. E sim naquele que foi “criado à Sua imagem e semelhança”: o ser humano, em especial aqueles que padecem de fome, sede, doença, abandono e opressão (Mateus25, 36-41).


* FREI BETTO é escritor, autor do romance policial Hotel Brasil (Rocco), entre outros livros. Publicado em O Globo, 29.10.2016, disponível em http://oglobo.globo.com/sociedade/a-religiao-do-medo-20378879

sábado, 12 de novembro de 2016

02 - POESIA VIVA * A minha mão...






Dizei-me, iluminados, onde fica

a terra decantada da utopia?

Eu quero ver a mão que modifica

o fel em mel, o choro em melodia.



Quisestes ensinar-me a boa nova

do lobo e do anho em paz pascendo juntos.

Aqui, onde a penar, do berço à cova,

de paz apenas gozam os defuntos.



Eu soube de Caim matando Abel!

Ainda quente o barro ao sol cozido…

O mel azedo transformado em fel

na mesa dos incautos é servido.



Soube também da pena de Talião…

…e mais e mais morrendo a utopia!

Que pode e que não pode a minha mão

para rasgar a treva e ver o dia?



Descubro, iluminados, que sou eu

quem vai além do barro à utopia!

Sou eu quem a si mesmo prometeu

e há-de cumprir o fim desta agonia.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 12 de Novembro de 2016.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

05 - REFLEXÕES * Discorrendo… Os semi-deuses



1.

Todo o ser vivo, quando nasce, traz a certeza de que irá morrer. Porque assim é, a vida carrega a sua finitude. Não será destino nem sentença inexorável, será apenas da sua condição.

Não creio que esteja errado no que escrevo, mas, previdentemente, apelo: Vinde, amados mestres! Que caia sobre mim a correcção iluminada do vosso saber! E corrigirei feliz a evidência do meu mundo e da finitude que sempre vi, que sempre senti, que sei que me espera!...

Esta nossa condição de mortais demonstra-nos a efemeridade das nossas certezas, das nossas verdades, sempre modeladas conforme os condicionalismos redutores de quem não sabe nem poderá saber além do conhecimento existente e do conhecimento de um porvir próximo que pode enubladamente entrever.



2.

O curso milenar de um rio pode ser alterado por um qualquer inesperado cataclismo. E em segundos ou minutos o que era deixou de ser. O vulcão Vesúvio transformou a bela Pompeia numa cidade fantasma que podemos ver ainda. As convulsões na Natureza, ora destroem, ora criam e recriam na transformação constante de que nos falou Lavoisier.



3.

Hoje, de posse que estamos de poderes destruidores, um momento de raiva demente pode ser responsável pelo dedo que prime o botão que determina o fim de milénios de existência. E depois quem sobreviverá para contar a tragédia?

Hoje como ontem, há lampejos de florescências perfumadas e trevas de ansiedades e de medos.

Hoje como ontem, o tempo é de equilíbrios instáveis e de incertezas dolorosas.



4.

Os grandes do Pensamento vêm legando-nos obras-primas do Conhecimento.

Os grandes da Beleza vêm legando-nos obras-primas em todas as manifestações da Arte.

Os grandes da Ciência vêm-nos legando maravilhas que quase ofuscam o maravilhoso da fantasia.

E tudo isto faz ou parece fazer de nós semi-deuses.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as erupções da vulgaridade, do obscurantismo, das vaidades e da jactância mais imbecil.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as mesas sem pão, perante a inocência prostituída, perante a dignidade encarcerada, perante a palavra amordaçada, perante a Justeza reduzida a uma Justiça dispendiosa em demasia para dela se socorrerem os humilhados e ofendidos.

Ah, continua preponderante contra tudo e contra todos a verdade que li no poeta alentejano José Duro: “O oiro de um palácio é a fome de um casebre”.

Ah, de que valem as caridadezinhas, as «boas» intenções, os «bons» corações?

De que nos vale a perigosa recomendação bíblica “dá com a mão direita de modo que a mão esquerda não veja”? Que dar é este em segredo? Que dar é este senão aprovar a existência de quem pode dar a quem tem necessidade de receber? Que dar é este senão a confirmação de que «o oiro de um palácio é a fome de um casebre»?

Ah, que haja palácios, concedo, mas que nunca sejam erguidos pela fome dos casebres.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Outubro de 2016.

domingo, 23 de outubro de 2016

02 - POESIA VIVA * Balada das chagas






Há vidas que nunca morrem. 

Ninguém as pode matar. 


São chagas do nosso corpo, 


sempre, sempre a supurar. 





Chagas que nenhum unguento 


irá conseguir sarar, 


chagas que um golpe de vento 


sempre, sempre faz sangrar. 





Chagas que são carne viva 


doendo só de as olhar, 


chagas de voz aflitiva 


e sempre, sempre a gritar. 


 


Chagas de um tempo passado 


e a nosso lado a passar, 


chagas de um tempo parado 


sempre, sempre a supurar. 





São chagas de todos nós, 


que ninguém pode calar. 


São chagas sonhando a voz 


que também sabe cantar. 




 


José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 23 de Outubro de 2016 
















sexta-feira, 21 de outubro de 2016

12 - HISTÓRIA * OS DONOS DISTO TUDO



¿Qué ocurre con la Base Naval de Guantánamo, 

en el Oriente de Cuba?




Estados Unidos mantiene ilegalmente una base naval en Cuba contra la voluntad de su pueblo. Esta instalación se encuentra en la Bahía de Guantánamo, una de las mayores de la isla. Dista 64 kilómetros de Santiago de Cuba, la segunda ciudad en importancia del país, y 920 kilómetros de su capital La Habana. Abarca un área de 117,6 kilómetros cuadrados (49,4 de tierra firme y el resto de agua y pantanos). Delimita una línea de costa de 17,5 kilómetros. La bahía posee buenas características en cuanto a profundidad, seguridad y capacidad, pero actualmente carece de importancia estratégica.


La Enmienda Platt, bochornosa ley del Congreso de Estados Unidos impuesta a la primera Constitución cubana a principios del siglo XX, bajo la amenaza de que de no aceptarse la isla permanecería ocupada militarmente, estableció la obligación de ceder porciones de territorio para instalaciones militares del poderoso vecino. No tardó en ponerse en práctica esa exigencia. En diciembre de 1903 Estados Unidos tomó posesión "hasta que lo necesitaren" de la Bahía de Guantánamo, mediante la imposición de un leonino tratado. Desde entonces y durante más de medio siglo fue centro de estímulo a la prostitución, el juego y las drogas, y de un abierto intervencionismo.

Desde el triunfo de la Revolución en 1959, la base ha sido fuente de provocaciones y agresiones, tanto de las tropas del enclave como de contrarrevolucionarios que allí encontraron refugio, muchos de ellos después de cometer crímenes y otras fechorías. En 1961 personal de la Base provocó la muerte a golpes de un obrero cubano y menos de un año más tarde fue secuestrado, torturado y asesinado un humilde pescador. Dos soldados cubanos resultaron asesinados en 1964 y 1966, respectivamente, por disparos realizados desde esa instalación norteamericana. Son muchas las violaciones del espacio aéreo, marítimo y terrestre cometidas, junto a diversas provocaciones como disparos, lanzamiento de piedras, proferir ofensas y otras muchas.

Los ejercicios de las tropas norteamericanas han provocado daños ecológicos irreparables al entorno, incluso han estacionado allí submarinos nucleares. Violando hasta el ilegal tratado que Estados Unidos esgrime para mantener su presencia militar, la base fue convertida en 1994 en campamento de refugiados, en gran parte haitianos, y aún se utiliza ocasionalmente para esto fines. Ante tales hechos Cuba ha asumido invariablemente una actitud firme y serena, no se ha dejado provocar ni intimidar. Los combatientes de la Brigada de la Frontera, unidad de las Fuerzas Armadas Revolucionarias encargada de la defensa de este límite fronterizo artificial, son ejemplo de preparación profesional, valor y disciplina.

Las máximas autoridades cubanas han declarado en muchas ocasiones que no aceptarán ninguna negociación con respecto a este territorio ilegalmente ocupado que no sea la retirada incondicional de las tropas extranjeras allí acantonadas contra la voluntad expresa del pueblo de Cuba. Con igual seriedad el gobierno cubano ha ratificado que no intentará recuperar sus legítimos derechos mediante la fuerza y esperará pacientemente a que la justicia se imponga tarde o temprano.