sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

03- O MEU RIMANCEIRO * Que viva o cordel!


O MEU RIMANCEIRO

(QUE VIVA O CORDEL!)

*

O jumento




Tão manso, sobe a ladeira!
Manso, manso, mansidão!
Vai à feira, vem da feira,
leva ou traz a servidão.


Sobre o dorso, pesa a albarda.
Sobre a albarda vai o dono.
Só a noite alta lhe guarda
algumas horas de sono.


No estábulo solitário
espera a magra ração:
é o mísero salário
de quem vive em servidão.


Cale-se a palavra gasta
incensando a compaixão!
De tantas loas já basta!
É tempo de dizer não!


E que venha o que vier
na mudança anunciada!
Traga a vida o que trouxer, 
sempre será outra estrada.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Janeiro de 2017.

sábado, 14 de janeiro de 2017

12 - HISTÓRIA * Coerência e elevação

Portugal, Lisboa - Assembleia da República, 11-1-2017
João Oliveira, presidente do grupo parlamentar do PCP

Sobre o voto de pesar pelo falecimento de Mário Soares
11 Janeiro 2017




Senhor Presidente,
Senhores membros do Governo,
Senhoras e senhores Deputados,

No momento em que a Assembleia da República assinala formalmente o falecimento do Dr. Mário Soares, quero começar, em nome do Grupo Parlamentar do PCP, por apresentar as condolências à sua família, em particular aos seus filhos, Deputado João Soares e Dra. Isabel Soares, aos seus netos e ao Grupo Parlamentar do PS.

O Dr. Mário Soares será lembrado como uma personalidade relevante da vida política nacional das últimas décadas, pela sua participação no combate à ditadura fascista e no apoio aos presos políticos, pela sua intervenção política como fundador e Secretário-geral do PS, pelo desempenho dos mais altos cargos políticos após o 25 de Abril, designadamente como Deputado à Assembleia Constituinte, à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, Primeiro-Ministro, Presidente da República e membro do Conselho de Estado.

Lembrando-o em todas essas circunstâncias, não deixa naturalmente de ser lembrado pelas convergências e divergências com que marcou as suas posições e percurso.

Não é este o momento apropriado para dissecar o deve e o haver das convergências e divergências que marcaram a relação do Dr. Mário Soares com o PCP mas seria hipocrisia política esconder que essas divergências existiram e que se basearam em convicções profundas quanto ao presente e ao futuro de Portugal.

Mário Soares convergiu com o PCP na luta contra o fascismo, pela liberdade e a democracia alcançadas com a Revolução de Abril, bem como em outros momentos da vida política nacional.

Pelas razões reais que em cada momento assumimos e não por efabulações construídas em processos de revisão da história, o PCP divergiu profundamente do Dr. Mário Soares pelo papel destacado que este assumiu no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril e a muitas das suas conquistas, incluindo a soberania nacional.

Continuamos hoje a ser oposição a um conjunto largo das suas ideias e posições cujas consequências permanecem e, em alguns casos, agravam os problemas nacionais, com um balanço que está longe de poder ser feito. A começar pelas consequências da adesão à então CEE em que assumiu responsabilidade destacada.

Não tendo nenhuma dessas circunstâncias constituído surpresa em vida do Dr. Mário Soares, ninguém se surpreenderá hoje que não partilhemos o elogio daquilo que marcou as nossas divergências.

O que em muitos casos é destacado por uns como elogio das posições ou da acção do Dr. Mário Soares é, por muitos outros, sentido negativamente como prejuízo causado ou expectativa frustrada.

Da parte do PCP, essas divergências, em muitos casos profundas, não impedem a expressão das nossas condolências porque sabemos que assumi-las quanto aos adversários políticos não é separável do combate de ideias nem da determinação do PCP em prosseguir a luta por uma democracia política, económica, social e cultural, pela soberania nacional, pelos valores de Abril, por uma sociedade socialista.


Disse.

domingo, 25 de dezembro de 2016

02 - POESIA VIVA * O rimance (necessário) do natal





Naquele tempo, Roma impunha o seu Império!

A força do Poder calcava a Palestina!

Só uma paz havia --- a paz do cemitério!

É vil a tirania! E, bárbara, assassina!



Sofria o Povo a dor ferida dos vexames!

Na Pátria que era sua, impunham-se os estranhos!

Se a resistência ousava uns tímidos tentames,

a lei impunha ao Povo agruras e arreganhos.



Desordem ordenada. Absurda impunidade.

Mordiam os mastins. A raiva à luz do dia.

Ninguém pode gritar um viva a liberdade!

O Povo assusta Roma! O Povo que sofria!



Senhora do maior Império deste Mundo!

Tropel de legiões! O medo é violento.

A surda profecia é um andrajo imundo,

lavado de suor, calando a voz do vento.



Cumprindo a lei, lá vai a grávida Maria…

Jerusalém é longe… incerta é a chegada.

Exausto de opressão, o Povo obedecia.

Outras Marias vão, doendo a mesma estrada…



A Natureza-Mãe sorri da tirania.

Tiranos tantos viu que lhes perdeu a conta!

E quantos mais verá se o sangue, cada dia,

insiste em derramar-se em pântanos de afronta?



Herodes é o rei. O títere amestrado.

Roma pagou o preço, em saldo, dos traidores…

Que importa que Maria, exausta, ceda às dores?

Que importa mais um parto assim desesperado?



Cumprida a gravidez, o tempo é de nascer!

Com todo o seu império, a Roma possidente

atónita ficou, sem conseguir deter

o ventre humilde e em dor duma parturiente…



Maria deu à luz em data e hora incertas.

O mês, o dia… pois… isso que importa agora?

Nos basta que pariu… e que, de asas abertas,

um anjo anunciou, na noite, uma ígnea aurora.



Cresceu o seu menino até ao infinito…

Foi mestre e desprezou riquezas e vãs glórias…

Traído e morto foi… num torpe veredicto…

Depois, diversas são, no mito, as trajectórias…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo * Portuigal
In “O meu cancioneiro”, Setembro de 2009.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

02 - POESIA VIVA * O analfabeto político


Bertolt Brecht 
*
Analfabeto Político





O pior analfabeto é o analfabeto político.


Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da renda, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.


O analfabeto político é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia

a política. 

Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, mentiroso, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

05 - REFLEXÕES * Discorrendo... Da humana condição




Visita-me amiúde a nostalgia do final da minha infância/início da adolescência. Findara o pesadelo da II Grande Guerra (1939-1945); às manifestações de horror perante o holocausto somavam-se as manifestações de horror também pela deflagração das duas bombas atómicas lançadas pela aviação norte-americana sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaky, a 6 e 9 de Agosto de 1945.

Ao tempo, diziam os adultos que tamanha barbaridade era incompreensível pelo desprezo que revelava para com os mais elementares direitos à vida.

Sabemos ou no mínimo intuímos que a guerra é um confronto violento e mortal para muitos que nela intervêm. Quando já não há mais palavras (Rafael Alberti), a violência impõe o seu fatal “diálogo”.

Desde os mais recuados tempos da Humanidade que a guerra semeia sangue e luto e morte.

O mito de Abel e Caim (Genesis) é como uma maldição persistindo em nos demonstrar que o Homem é o assassino do Homem.

Ninguém contesta a universalidade bíblica. Todos nós, dos mais bem informados aos mais mal informados, conhecemos o mito de Abel e Caim como conhecemos os diversos apelos à humana fraternidade: amai-vos uns aos outros / não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Nem por fé nem por amor pela Humanidade foi possível fazer medrar no planeta o respeito pela Vida.

Eu sei que só me represento a mim, triste e insignificante condição para ter a veleidade de ser ouvido; mas tenho o direito que ninguém me recusará, assim o espero, de me indignar.

Se a morte não é boa companheira, muito menos é a morte provocada pela violência.

Desde há milénios que a Humanidade anda vestida de luto.

Desde há milénios que medra o rancor e o azedume nos corações dos povos que mais viveram e sofreram morte e luto, violência e humilhação, opressão e desprezo, esbulho e miséria.

Hoje, a Imprensa é um rosário deprimente e, ao mesmo tempo, um diário da nossa vida onde os valores do Amor, da Concórdia, do respeito aparecem violentados.

Será que nos basta fazermos nossas as palavras bíblicas do Nazareno: Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem!

Se sim, perdoamos há milénios e não vemos resultados. Tudo continua como se nada perdoássemos.

Do mundo ressaltam os factos. Os factos são uma acusação que ninguém pode ocultar e a memória dos Homens não permite que o esquecimento os anule.

Daqueles meus velhos tempos de inocência até aos dias de hoje sempre a inquietação esteve na ordem do dia. A Paz e a Concórdia sempre foram como o horizonte --- sempre à vista, nunca ao nosso alcance!

Que nos reste a esperança de que um dia saibamos ser dignos de nós. E aí, certamente, a Paz e a Concórdia se deixarão alcançar.
.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Dezembro de 2015.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

02 - POESIA VIVA * Abril!





Não mais, Abril, serás um simples mês

de um qualquer ano, em maquinal vaivém

de fatal movimento planetário!

Padrão moderno, assim te quis e fez,

repulsa do sarcasmo e do desdém,

o braço instante, estreme e voluntário.



O Tempo em tantos tempos derivado

cumpriu-se no caminho percorrido1

O lenho que deu mar ao mar que havia

voltou ao pátrio solo definido

e o rústico pinheiro, transformado,

ganhou raízes novas em Leiria!



De ciclo em ciclo, o tempo imaginário,

caminheiro, desvenda e traça rumos

e sempre um novo azul fecunda e gera.

Abril é deste tempo asserto e prumos!

Abril será o tempo necessário,

diverso ciclo, a mesma primavera!





José-Augusto de Carvalho
In “Sortilégio”, Lisboa, 198
6

sábado, 10 de dezembro de 2016

04 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A detenção do maltês

Este é o relato.

O maltês, que sempre vinha à feira, ano após ano, deambulava por entre as pessoas, gritando:

Quem muito dorme pouco aprende! Acordem!

Indiferentes, as pessoas fingiam não o ouvir. Uma ou outra murmurava:

É doido, para que lhe havia de dar!

O maltês não se dirigia directamente a ninguém. Se alguém o olhava com curiosidade ou como que mudamente o interpelava, não desviava o olhar nem parava e gritava:

Acordem!

Um dos membros da patrulha da Guarda Nacional Republicana aproximou-se dele e quis saber o motivo da exortação do maltês:

--- Então que se passa?

--- Esta gente parece não sentir como elas lhe mordem, senhor guarda.

--- Ah, sim?!,  ironizou o agente da Autoridade.

--- É como lhe digo, confirmou o maltês.

O guarda olhou interrogativamente o camarada da patrulha:

Que fazer? Aquilo seria perturbação da ordem pública?

O outro guarda opinou:

--- É melhor levarmos o gajo ao comandante, assim ficamos a salvo de qualquer encrenca.

E lá foram, o maltês ladeado pelos guardas, rumo à vila. As pessoas olharam silenciosamente enquanto se afastavam, abrindo alas. As mais novas manifestavam uma curiosidade contida; as mais velhas, uma preocupação apenas perceptível num baixar de olhos ou num reprovador menear de cabeça.

Chegados ao Posto local da GNR, apresentaram-se ao comandante, um 1º. Cabo. Os soldados relataram a conduta do maltês e o motivo da sua detenção.

O comandante concordou com um movimento afirmativo de cabeça e fixou o olhar no detido. Depois, perguntou:

--- O detido ofereceu resistência?

--- Não, senhor! , responderam os guardas, ao mesmo tempo.

--- Na feira, as pessoas sentiram-se incomodadas com a conduta do detido?

--- Não, senhor! , de novo responderam em uníssono os guardas.

O comandante parecia meditar enquanto olhava o maltês. Seguidamente, disse:

--- Bem, vamos ao interrogatório…

Um dos guardas sentou-se à secretária para elaborar o auto e o outro saiu da sala.

--- Como te chamas?,  perguntou o comandante ao maltês.

--- António Almas.

--- Qual é a tua profissão?

--- Trabalhador.

--- Isso somos todos, resmungou comandante. --- Trabalhador de quê? O que fazes na vida?

--- Trabalhador do campo, precisou o maltês.

--- És natural de onde? Isto é, onde nasceste?

--- Não sei ao certo, sei que foi num monte, perto do Odiana, era o que dizia a minha mãe.

--- Sabes ler?

--- Não sei, nunca fui à escola.

--- És casado? Tens filhos?

--- Tive mulher. Morreu ela e a criança ao nascer.

--- Que vieste fazer à feira?

--- Acordar quem dorme?

--- Ah, sim?, estranhou o cabo da guarda.

--- Sim, senhor, quem muito dorme pouco aprende! , sentenciou o maltês.

--- Que queres tu dizer com isso?,  perguntou o cabo da guarda enquanto lançava um olhar cúmplice ao guarda que registava a interrogatório.

--- Quero dizer o que disse, mais nada: quem muito dorme pouco aprende.

--- E onde aprendeste tu isso?, quis saber o cabo da guarda.

O maltês encolheu os ombros.

O cabo da guarda não gostou do encolher de ombros e gritou:

--- Responde ao que perguntei!

Muito sereno, o maltês respondeu:

--- Toda gente sabe isto. Já minha mãe me dizia isso: filho, não fiques dormindo a sesta! Não sejas malandro! Vai procurar trabalho para ganhares para as sopas! Olha que quem muito dorme pouco aprende!

--- Isso é política!, voltou o cabo da guarda a gritar.

--- Isso eu já não sei, disse suavemente o maltês.

Desconcertado, o cabo da guarda olhou o maltês. Seria aquele homem um pobre diabo ou um finório? E recordava a recomendação superior: na dúvida, arrecada-se.

--- Acabou o interrogatório, decidiu. --- Ficas detido e amanhã de manhã segues para a cidade. Lá, o Comando Distrital tratará de ti.



José-Augusto de Carvalho

Alentejo, Novembro de 2016.