terça-feira, 26 de setembro de 2017

03 - O MEU RIMANCEIRO * A profecia

O MEU RIMANCEIRO
.
(QUE VIVA O CORDEL!)




A profecia






Os profetas da desgraça

gritam a quem quer ouvi-los:

podemos ficar tranquilos,

porque teremos a graça

de alcançar o paraíso

depois do final juízo.



Profecia que é convite

à mansa resignação.

Pois que fique a mansidão

e a profecia credite

o sonhado paraíso

depois do final juízo.



Até lá, segue o desfile

da marcha do carnaval

onde o mal é natural

e é herege quem refile.

Tudo pelo paraíso

depois do final juízo.



A Justiça Punitiva

os poderosos espera.

Será sentença severa,

sem risco de recidiva,

para paz do paraíso

depois do final juízo.



Até lá, vamos na dança

de alta roda, baixa roda,

correndo e cantando a moda

“quem porfia sempre alcança”.

E que viva o paraíso

depois do final juízo!






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2017.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

02 - POESIA VIVA * Catarse


TEMPO DE SORTILÉGIO

Catarse




Para mim,

a jornada que tento cumprir

se aproxima do fim.

Não importa que eu veja ou não veja

primaveras de vida a florir.

O que importa é que eu seja

mais um grão

que germina tenaz neste chão.

O que importa é eu ser, resoluto,

entre tantas, mais uma raiz

que se cumpra na planta, na flor e no fruto

que a criança feliz

vai um dia comer descuidada…

…e eu sossegue na paz do meu nada.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Setembro de 2017.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

02 - poesia viva * A cidade

CLAVE DE SUL

A cidade






Não soubemos defender,
não pudemos defender
a cidade
E os sitiantes entraram
e a ferro e fogo tomaram
a cidade


A história dos vencedores
sem decoro pinta a cores
a cidade
Dos vencidos não diz nada
Mal resiste resignada
a cidade

E tu, que chegaste agora,
sabes o que foi outrora
a cidade?
Sim,  talvez nem te interesse
a negação que arrefece
a cidade



José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 2 de Setembro de 2017.

03 - O MEU RIMANCEIRO * Na roda da vida…



O MEU RIMANCEIRO

(QUE VIVA O CORDEL!)

*
Na roda da vida…







Os poetas cantaram o grito

que varou o silêncio sangrento.

Não morreu a raiz nem o vento

se calou num vazio contrito.



Continua a figueira a dar fruto,

quando o tempo aprazado chegar.

Há um tempo maduro de amar:

é por ele e com ele que luto.



Em Setembro haverá as vindimas.

Quase findos os dias de Agosto…

Bem casadas de gosto e de mosto,

aprontemos as últimas rimas.



Em Novembro, as primícias do vinho,

na promessa do novo cumprida.

Vamos todos na roda da vida!

São Martinho já vem a caminho…







José Augusto de Carvalho

Alentejo, 30 de Agosto de 2017.




03 - O MEU RIMANCEIRO * O cordel


O MEU RIMANCEIRO

QUE VIVA O CORDEL!

*

O cordel





Do cordel tu te sorris,

benévolo e tolerante?

Mas se não fora a raiz,

que perfume, que matiz

na flor que mais nos encante?



Por mais rústica que seja,

a teus olhos, a raiz,

qualquer planta que viceja

ou fruto que se deseja

é porque a raiz o quis.



A raiz é como um ovo:

o princípio rude e mudo

que, suando como o povo,

esforçado traz o novo

e, assim, perpetua tudo.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Agosto de 2017.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

07 - B R A S I L * O Prémio Camões 2016

"Não há como ficar calado"

(a íntegra do discurso de Raduan Nassar no Prêmio Camões)



SEX, 17/02/2017 - 18:27

Da Carta Capital




Em seu pronunciamento na entrega do Prêmio Camões de literatura, o escritor critica o golpe, o governo Temer e o STF. Leia a íntegra

Às dez e meia da manhã desta sexta-feira 17, o escritor Raduan Nassar subiu ao palco montado no Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016, honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal e um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. Nassar ofereceu à plateia o seguinte discurso:

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.  

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

 O golpe estava consumado!

 Não há como ficar calado.


 Obrigado