terça-feira, 3 de outubro de 2017

03 - O MEU RIMANCEIRO * A inércia não existe!


O MEU RIMANCEIRO
.
(Que viva o cordel!)

*

A inércia não existe!





Adoptaste o modelo acabado

que anunciam, na praça, os arautos.

Neles crêem talvez os incautos

e deveras os bem instalados.



Mas o tempo recusa parar,

num vaivém de alcatruzes de nora

que descendo é a angústia que chora,

que subindo é o alvor a cantar.



Movimento perpétuo da vida,

de mudança em mudança prossegue.

E não há quem recuse ou quem negue

esta Lei que é de todos sabida.



O passado previu o presente,

o presente prevê o futuro.

Sob a terra, no húmus obscuro,

vigorosa, germina a semente…



Sempre assim, de mudança em mudança,

cada fim anuncia um nascer.

A verdade perene de ser,

desbravando caminhos, avança.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2017.

sábado, 30 de setembro de 2017

03 - O MEU RIMANCEIRO * O outro mundo


O MEU RIMANCEIRO
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(QUE VIVA O CORDEL!)


*

O outro mundo







Há um mundo do outro mundo:

o do pontapé na bola.

Um mundo que vai ao fundo

no pântano em que se atola.



Tamanha jactância ostenta

em tempo de magra ceia,

que já ninguém lhe aguenta

indecoro e verborreia.



Prémios/salários chorudos…

Mudo, o povo aperta o cinto!

Venha o primeiro dos mudos

dizer-me agora que eu minto!



Neste mundo do outro mundo,

há quem ganhe mais num dia

que no mundo deste mundo

quem num mês tanto porfia.



Pão e circo --- viva Roma!

Sob o sol nada de novo!

Parcelas da mesma soma

que somando vai o povo.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 30 de Setembro de 2017.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

02 - ESTA LIRA DE MIM!... * Catarse


ESTA LIRA DE MIM!...

Catarse




Naquele dia, do meu pátrio chão,

quase menino ainda, me arrancou

um desígnio malsão.

E ninguém protestou.



Quase ainda menino,

um soluço na voz,

suspeitei do destino.

Ao tempo, eu nem sabia

que o destino podia

ser erguido por nós.



Também eu, Bernardim,

da casa de meus pais fui arrancado,

arrancado e levado

para tão longe deles e de mim.



E ninguém protestou

quando a renúncia ergueu o meu destino

e me sacrificou…

e eu era ainda quase um menino!



Porque um homem não chora,

tolices ensinadas às crianças,

quase matei o coração naquela hora,

que estavam mortas já as esperanças..



E fui a desfolhar a débil planta

como se Outono fora a minha Primavera.

Numa gaiola, um rouxinol não canta,

por mais que seja longa a espera

do cruel carcereiro

que impõe à liberdade o cativeiro.



Ficaram cicatrizes,

roxas de iniquidades sem perdão.

A tudo resistiram as raízes,

sempre gritando --- Não!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Setembro de 20017.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

02 - POESIA VIVA * O malmequer silvestre


CLAVE DE SUL

O malmequer silvestre







Despetalo o silvestre malmequer:

bem me quer… mal me quer…



Neste apelo ancestral de tosco rito,

tento aqui perceber

as auroras ainda por nascer

de um devir que ao presente é interdito.



Bem me quer… mal me quer…

Sem render-me, eu serei o que puder…



A que angústias me dou e me macero?

Meu será este encontro de futuro!

Mais além do que dure eu sei que duro

no plural horizonte onde me quero!



Bem me quer… mal me quer…

Só depende de mim o bem me quer!...





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Setembro de 2017.



03 - O MEU RIMANCEIRO * A profecia

O MEU RIMANCEIRO
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(QUE VIVA O CORDEL!)




A profecia






Os profetas da desgraça

gritam a quem quer ouvi-los:

podemos ficar tranquilos,

porque teremos a graça

de alcançar o paraíso

depois do final juízo.



Profecia que é convite

à mansa resignação.

Pois que fique a mansidão

e a profecia credite

o sonhado paraíso

depois do final juízo.



Até lá, segue o desfile

da marcha do carnaval

onde o mal é natural

e é herege quem refile.

Tudo pelo paraíso

depois do final juízo.



A Justiça Punitiva

os poderosos espera.

Será sentença severa,

sem risco de recidiva,

para paz do paraíso

depois do final juízo.



Até lá, vamos na dança

de alta roda, baixa roda,

correndo e cantando a moda

“quem porfia sempre alcança”.

E que viva o paraíso

depois do final juízo!






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2017.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

02 - POESIA VIVA * Catarse


TEMPO DE SORTILÉGIO

Catarse




Para mim,

a jornada que tento cumprir

se aproxima do fim.

Não importa que eu veja ou não veja

primaveras de vida a florir.

O que importa é que eu seja

mais um grão

que germina tenaz neste chão.

O que importa é eu ser, resoluto,

entre tantas, mais uma raiz

que se cumpra na planta, na flor e no fruto

que a criança feliz

vai um dia comer descuidada…

…e eu sossegue na paz do meu nada.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Setembro de 2017.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

02 - poesia viva * A cidade

CLAVE DE SUL

A cidade






Não soubemos defender,
não pudemos defender
a cidade
E os sitiantes entraram
e a ferro e fogo tomaram
a cidade


A história dos vencedores
sem decoro pinta a cores
a cidade
Dos vencidos não diz nada
Mal resiste resignada
a cidade

E tu, que chegaste agora,
sabes o que foi outrora
a cidade?
Sim,  talvez nem te interesse
a negação que arrefece
a cidade



José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 2 de Setembro de 2017.