sábado, 10 de março de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * De viagem…



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 


De viagem… 






Vai o tempo de longada. 

O velho Cronos assume 

a rota determinada, 

haja aplauso, haja queixume. 



Tão velho como a velhice, 

cumpre a rota decisiva, 

como se ninguém ouvisse 

dos milhões da comitiva. 



É o chefe que se aferra 

à condição que detém. 

Quem não quer, que fique em terra! 

Não se obriga aqui ninguém! 



Todo o tirano é assim: 

quem não lhe aceita as vontades 

ou tem a morte por fim 

ou definha atrás das grades… 



Fez escola esta conduta: 

disse um, o Estado sou eu; 

outros há de forma astuta 

o comum fazendo seu. 



Daqui terá derivado, 

já milenar, todo o mal, 

desde os circos do Passado 

ao presente carnaval. 



Haja pão, haja folia, 

tudo o mais logo se vê! 

Viva quem assim se adia, 

morra sem saber por quê!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 9 de Março de 2018. 


segunda-feira, 5 de março de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Das sentenças...



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o Cordel!) 


Das sentenças… 

(Magister dixit) 





É boa a diversidade. 

Poder escolher é bom, 

da cor à intensidade 

dos tons, da luz ou do som. 



Se de escolhas é a Vida, 

pese ou não a qualidade 

da que for a preferida, 

que viva a diversidade! 



Cada escolha tem um preço. 

Tudo se paga na Vida! 

Até a Vida do avesso 

pode ter sido escolhida. 



No início da caminhada, 

todo o caminho é incerto; 

saberemos à chegada 

o que deu errado ou certo. 



Antecipar as certezas 

é querer a supressão 

de incertezas e surpresas 

de insuspeita condição. 



Se ninguém foi ao futuro, 

que certezas pode haver 

dum tempo são e maduro 

que queremos conhecer? 



Pedra a pedra se erguem casas 

que serão o nosso lar, 

tal como só quem tem asas 

ousa seguro voar 




José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 5 de Março de 2018.

sábado, 3 de março de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Pão salgado



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o Cordel!) 


Pão salgado 





É assim o dia a dia: 

todos iguais, nada muda! 

É uma monotonia 

ou é um “Deus nos acuda”? 



Não sei bem por que razão 

se espera que os outros tragam 

a mezinha ou a unção 

para os males que nos chagam… 



Esperar um salvador 

é do domínio da crença, 

mas viver, seja onde for, 

a nossa acção não dispensa. 



Quem quer isto ou quer aquilo, 

lute para o conquistar; 

ficando alheio e tranquilo, 

não tem por que protestar? 



Se alguém não fizer por mim 

o que por mim nem eu faço, 

como posso achar ruim 

sofrer o mau por que passo? 



Só quem come o pão suado 

sabe o gosto que o pão tem! 

Pão pelo suor salgado 

nunca fez mal a ninguém. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 2 de Março de 2018. 


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

02 - VIVO E DESNUDO * Dlim-dlão!


TEMPO DE SORTILÉGIO 

Dlim-dlão! 








A Torre da Má Hora tem um sino. 

Esventram os silêncios os seus dobres… 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 

Se olhares bem, na solidão descobres 

a dor do fim nuns olhos de menino 

que nada já conseguem ver… Dlim-dlão! 



São olhos velhos de esperar cansados 

que se cumprisse o sonho de menino… 

O sonho vão chegando ao fim… Dlim-dlão! 

E tremem os silêncios despojados- 

Na Torre da Má-Hora toca o sino: 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 



Manhã após manhã, promete o dia 

a renovada chama da esperança, 

e, à ceia, serve a noite a frustração. 

E assim, é nesta intérmina porfia 

que dói, que desespera mas não cansa, 

que se resiste ao lúgubre dlim-dlão… 



Ah, mas em todos nós palpita e grita 

o testemunho ousado e solidário 

da força do querer em construção… 

Ousemos ir além desta desdita 

que nos mantém reféns deste fadário 

e há tanto nos imola no dlim-dlão. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Fevereiro de 2018.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

02 - POESIA VIVA * Ousadia



TEMPO DE SORTILÉGIO 

Ousadia 




A memória rompeu o negrume 

e chegou com as vestes do mito. 

É História nas lendas que assume 

um Passado a querer-se interdito. 



São imagens dos tempos perdidos? 

São palavras ou ecos vadios 

que martelam os nossos ouvidos, 

alta noite, a carpir desvarios? 



Somos isto: um alforge pesado, 

carregado de angústias e medos 

ou a herança do Pégaso alado 

que cantaram os velhos aedos? 



Que com Pégaso ousemos os astros 

e os vindouros nos sigam os rastros!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Fevereiro de 2018. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Admoestação



O MEU RIMANCEIRO
.

Admoestação






Dói-me este tempo parado.

Caminhos sem caminheiros…

Que relógio abandonado

sem ter corda nem ponteiros!...



No movimento aparente,

desde a manhã ao sol pôr,

tece o sol incandescente

um manto de luz e cor.



As memórias soterradas

sangram nas papoilas rubras

que sonham desesperadas

o dia em que as redescubras.



A sono solto dormindo,

teimas em não dar por nada.

Nem sonhas o sonho lindo

que há em cada madrugada.



Nas noites de estio ardente,

cantam grilos ao luar

na sinfonia estridente

que em vão te quer despertar…



Mas como um justo tu dormes,

como se fossem tranquilos

estes escombros disformes

que desesperam os grilos.



O que é dos outros cobiças,

numa inveja envergonhada…

e, alheio ao que desperdiças,

acabas por não ter nada.



Tens as nozes do rifão,

p’ra parti-las não tens dentes…

Se és assim por condição,

assume-a e não te lamentes!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Janeiro de 2018.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

05 - REFLEXÕES * A pressa


O Flávio passou agora mesmo por mim. Iluminou a face com um sorriso e lá foi pedalando. Já nem se apercebeu do meu aceno que era um cumprimento e um adeus. Esta gente anda sempre com pressa. Não sei se é a Vida que apressa esta gente, se é esta gente que apressa a Vida. Num contraponto indiferente, o dia continua a ter 24 horas. E tanto quanto posso observar, a natureza mantém o mesmo ritmo. A natureza onde os manobrismos humanos (ainda?) não interferem para acelerar, retardar, alterar, modificar o seu ancestral modo de ser e estar.

Lá mais à frente, a estrada se cruza com um ribeiro. O Flávio já deve ter passado a ponte. E quero crer que, com a pressa, nem olhou o leito deste pequeno curso de água.

É, com certeza, um ribeiro igual a tantos outros que serpenteiam a planura. Eu gosto muito de arroios, de ribeiros e ribeiras, de rios e de mar. É o fascínio da água. Este meu fascínio me leva a ficar horas e horas olhando este ou aquele curso de água, a tentar imaginar percursos evadidos, a criar exaltadas ousadias, a recusar destinos parados de prostração e renúncias. Ora foi num dia que nem sei precisar que vi estupefacto, neste mesmo ribeiro, uma represa canhestramente erguida. Estupefacto porque a represa não tinha a finalidade transitória de aproveitar água para rega. Olhando mais atentamente, percebi: o ribeiro, naquela área, atravessa uma propriedade rústica e a represa nada mais é do que um passadiço para um tractor agrícola. Com certeza, o passadiço poderia ter usado manilhas na estrutura para deixar a água livremente correr. Mas o autor do passadiço não pensou nisso ou não quis pensar. E em nome do utilitarismo estreito e de um inaplicável direito de propriedade, cortou uma linha de água que é um bem público.

E estas coisas e tantas outras existem e persistem anónimas por vontade de quem não vê, de quem não quer ver…

Eu sei, é a pressa… Mas serão seguramente os apressados da Vida, serão os distraídos da Vida, serão os indiferentes da Vida os primeiros a apontar o indicador acusador aos outros, aos tais outros que tinham o dever de ter visto e não viram; que tinham o dever de ter previsto e não previram; que tinham o dever de ter agido e não agiram…

O Flávio passará por aqui, no regresso, pela tardinha. Hoje já não o verei, está arrefecendo e eu tenho de resguardar a minha anciania.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Janeiro de 2018.