domingo, 6 de maio de 2018

02 -POESIA VIVA * O mesmo canto



(…e contigo eu morri nesse dia!) 


O mesmo canto 






Quis dar-te o sol de Julho, o sol do meio-dia! 

O mesmo sol que ardia 

naquele dia já antigo em que eu nasci. 

Eu sei que é utopia 

querer que seja teu o mesmo sol que ardia 

e que eu também perdi. 





Irrepetível foi --- fugaz deslumbramento, 

aquele meu momento, 

que quis que fosse teu, de natalício espanto. 

Que valha a comunhão 

de só um coração 

palpitar no teu peito e no meu o mesmo canto! 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 6 de Maio de 2018.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

02 - POESIA VIVA * Auroras boreais



(TEMPO REBELADO)
.
Auroras boreais 





Para o Luiz Inácio 



Tu sabes, eles nunca toleraram 

que fosses tu o verde da esperança 

e o maduro amarelo da mudança… 

…o sonho que as hienas sufocaram. 





Mas tu herdaste o sangue da memória 

dos ofendidos todos que caíram, 

daqueles que sabiam mas não viram 

que a luta acende sóis e escreve a História. 



Com sangue e com suor se amassa o pão, 

se amassam os tijolos, se erguem casas, 

se erguem escolas, se erguem hospitais! 



Nas mãos de quem trabalha há céu e chão, 

há sonhos onde a vida ganha as asas 

de espanto das auroras boreais. 



José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 4 de Maio de 2018.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

02 - POESIA VIVA * Manifesto da evasão


(CANTO REBELADO) 


Manifesto da evasão 






Nos campos ermos, onde o tempo mais parece 

alento já não ter, não sei se vou sozinho 

ou se partilho com alguém este caminho 

que desafia ousar --- que nunca desfalece… 



Não leio nos jornais notícias do futuro! 

Não vejo nas tevês imagens de albas novas 

nem na telefonia escuto as vivas trovas 

cantando a luz e a cor do dia que procuro… 



Aqui, apenas me pergunto e nada mais? 

Que inércia ou prostração no tempo que não pára? 

Que demissão de ser ou que renúncia ignara 

ferrou as velas que palpitam neste cais? 



Não quero acreditar na angústia dos meus olhos… 

Quero outra vez o mar de vento e rebeldia! 

Quero outra vez o mar de longe e de ousadia! 

Quero outra vez o mar ainda que de escolhos! 





José-Augusto de Carvalho 

Lisboa, 3 de Maio de 2018.

domingo, 29 de abril de 2018

02 - POESIA VIVA * O trágico delírio



(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


O trágico delírio 



Pintura que descreve o momento em que 
a cavalaria portuguesa é cercada e envolvida 
pelas forças muçulmanas. 





Antiga, jaz a terra despojada. 

O Sol em chamas --- arde o céu azul! 

Dói em minh’alma ainda angustiada 

o fascínio do Sul. 



Que ceptros, que linhagens, que deidades 

caminhos de desterro determinam? 

Que feiras de opulências e vaidades 

amanhãs exterminam? 



Calaste a voz do Velho do Restelo 

que no poema grita ainda viva. 

Tragou-te o caos --- ergueste o pesadelo 

duma pátria cativa. 



No desamparo, a noite triste vela. 

Na imensidão do céu, lucilam círios. 

De Leste, o vento as nuvens acastela 

predições e martírios. 



Oh ânsia tresloucada de poder! 

Oh trágico delírio a sucumbir 

no palco inconquistado do não-ser, 

em Alcácer-Quibir? 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 28 de Abril de 1018.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

02 - POESIA VIVA * Para sempre



(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


Para sempre 






Longe ou perto, a pegada que houver 

é a prova da minha passagem. 

Sim, fui eu, na obsessiva viagem 

p’los caminhos de mim que eu puder… 



P’los caminhos que são ou que invento 

é que eu vou a cumprir-me no afã 

de acender para sempre a manhã 

do meu deslumbramento. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 18 de Abril de 2018.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Olhai



O MEU RIMANCEIRO 


Olhai 






Olhai as minhas mãos vazias e enrugadas 

que já perderam tudo. 

Não mais as infantis manhãs alvoroçadas 

do mais estreme ludo… 



Não mais as trovas de alma e coração rendido 

no ardor primaveril em asas de andorinha 

ousando amor além do régio permitido 

na bela que depois de morta foi rainha… 



Não mais a sedução de longes e sereias 

nas minhas mãos abertas, 

gretadas pela flor de sal das marés cheias 

de arrojo e descobertas… 



Olhai agora e vede as minhas mãos tão frias, 

num desespero de ais, 

enquanto enfrentam já sem força as agonias 

do nosso amado cais. 



Olhai que não vos peço esmola ou pia prece. 

Sem nada, tudo tive! 

De nada mais careço aqui onde se tece 

a vida de quem vive. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 16 de Abril de 2018. 


quarta-feira, 11 de abril de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Badaladas


O MEU RIMANCEIRO 


Badaladas 






O relógio bateu as doze badaladas. 

É meio-dia. 

No caldo, o pão, em sopas mergulhadas, 

a minha fome antiga desafia. 



O vinho sabe ao sol do mês de Agosto 

e canta ainda as modas das vindimas. 

São pérolas de imagens e de rimas 

que exaustas esmorecem ao sol-posto. 



A fome e a sede --- angústias e cansaços 

que não saciam sono nem salário… 

Ah, que alba assombra o meu imaginário 

querendo-me a medida dos meus passos? 



Que trágica ironia me condena 

tolhido a suportar 

o obsceno gargalhar 

de uma qualquer hiena. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 10 de Abril de 2018.