sexta-feira, 13 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA » Exortação


O MEU RIMANCEIRO 

Exortação 




Há um tempo cumprido. 

Há um tempo a cumprir. 

Um minuto perdido 

é andar e não ir. 



A boca que consente 

o grito sufocado 

decide no presente 

um futuro adiado. 



A inércia não existe. 

Perpétuo, o movimento 

definido persiste 

ser acção, ser alento. 



Quem perder a coragem, 

sujeito à rendição, 

não irá de viagem 

dobrar o Cabo Não... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo - Portugal

quarta-feira, 11 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA * Quase uma oração



NA ESTRADA DE DAMASCO
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Quase uma oração 


Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

terça-feira, 10 de julho de 2018

06 - ROMANCEIRO * Fadário


CLAVE DE SUL

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Fadário


(Foto Internet, com a devida vénia) 




Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 




José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

02 - POESIA VIVA * Meus versos


TEMPO DE SORTILÉGIO
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Meus versos

(Ícaro, Chagall)


Pediste-me um poema original

como se eu fosse um mago jardineiro

cuidando com desvelo, num canteiro,

de raro e fascinante roseiral.



Quem dera eu fosse o mágico poeta

que em rosas as palavras transfigura!

Vermelhas rosas ébrias da ternura

que dissimula uma paixão secreta.



Dos deuses enjeitado, como ousar

as siderais alturas onde os astros

são círios a velar ainda Orfeu?



Perdidos neste chão de malmedrar,

meus versos são efémeros os rastros

de quem não teve a graça de voar...




José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2018.
Alentejo * Portugal

02 - POESIA VIVA * O verbo

TEMPOS DO VERBO (1990)
O VERBO



Desceu o verbo em luz e as sombras, noite e treva,
cederam seu lugar a raios deslumbrados.
Do fundo da caverna, o espírito se eleva
e os longes ganha, aquém e além, iluminados.

Horizontes de espanto, enleios de aventura,
rasgaram os grilhões e os passos hesitantes
ensaiam infantis anseios de procura
nos campos de trigais maduros e ondulantes.

Princípio é este tempo, o verbo conjugado,
a fome e a sede, a graça viva da alvorada,
numa conjugação de massa levedada
e vinho novo, claro, livre, embriagado.

E o tempo é todo o tempo o verbo que anuncia
o fim da sombra, a luz que raia e aquece --- o dia!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 27 de Janeiro de 1988.

domingo, 13 de maio de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * A estrada



(O MEU RIMANCEIRO) 


A estrada… 





Quando se nasce, inventa-se uma estrada. 

É uma estrada aberta, passo a passo, 

mesclada de ansiedade e de cansaço, 

que dura enquanto dura a caminhada. 



Das flores e gorjeios infantis 

à moça idade idílica de enleios 

que frustrações, que angústias, que receios 

o sol maculam dum devir feliz? 



Mais tarde, o céu se nubla e o vento agreste 

ensaia a sua dança de procelas. 

As portas rangem, rangem as janelas, 

de fumo negro a chaminé se veste. 



Dezembro traz no manto saturnal 

as prendas e as oníricas miragens. 

O mito novo traz, noutras roupagens, 

a derradeira prenda… a de natal… 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 12 de Maio de 2018.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

02 - POESIA VIVA * A LUIS DE CAMOENS



(A MINHA ANTOLOGIA)


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A LUIS DE CAMOENS

(A Luís de Camões)





Sin lástima y sin ira el tiempo mella

Sem compaixão nem ira, o tempo oxida

Las heroicas espadas. Pobre y triste

as heróicas espadas. Pobre e triste

A tu patria nostálgica volviste,

à nostálgica pátria regressaste,

Oh capitán, para morir en ella

oh capitão, para morreres nela


.
Y con ella. En el mágico desierto

e com ela. No mágico deserto

La flor de Portugal se había perdido

a flor de Portugal perdida estava.

Y el áspero español, antes vencido,

E o áspero espanhol, antes vencido,

Amenazaba su costado abierto.

ameaçava o teu dorso sem defesa.


.
Quiero saber si aquende la ribera

Quero saber se aquém da ribeira

Última comprendiste humildemente

última compreendeste humildemente

Que todo lo perdido, el Occidente

que o todo que perdeste, o Ocidente


.
Y el Oriente, el acero y la bandera,

e o Oriente, o aço e a bandeira,

Perduraría (ajeno a toda humana

perduraria (alheio a toda a humana

Mutación) en tu Eneida lusitana.

mutação) na tua Eneida lusitana.


*
Jorge Luís Borges

(Tradução de José-Augusto de Carvalho)