quarta-feira, 18 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA * O sonho de um Povo


(DO MAR E DE NÓS – 2) 
O sonho de um Povo 



Para o Comandante Serafim Pinheiro, 
Capitão de Abril, meu Amigo 



Depois dos Cabos, veio o mar aberto: 

os ventos e o mar-chão e as calmarias... 

O Sol ardia e tu também ardias 

no mar e céu do teu futuro incerto... 



Dos longes vinham a fragrância rara 

e os paladares raros do Levante… 

Ai, se eu não posso, que Camões te cante: 

"e se mais Mundo houvera, lá chegara"! 



Amaste o Mundo além a que te davas… 

Um Mundo sem fronteiras reclamaste… 

E em cada caravela regressaste 

saudoso desse mundo que deixavas. 



De ti herdámos ser filhos do Mar 

e o sonho que porfia em nos sonhar… 







José-Augusto de Carvalho 
17 de Julgo de 2018. 
Alentejo `Portugal

domingo, 15 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA * Os nossos Cabos


DO MAR E DE NÓS-2
.

OS NOSSOS CABOS




À memória de Gil Eanes




Há sempre mais um cabo por dobrar...

Dobrado o Cabo Não, o Bojador

ergueu-se hostil e um trágico rumor

desceu, num pesadelo, sobre o mar.




O Gil tomou o leme e sem tremer

levou a caravela e um Povo todo

além do medo, além do sal e iodo,

até ao longe por amanhecer!...




E o dia por haver amanheceu,

lavado p'la procela que bramia,

cantado p'lo velame que gemia,

ousado porque ao medo não cedeu!...



De cabo em cabo, foi a ousadia

de ir mais além do sonho e da utopia...





José-Augusto de Carvalho
15 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal,
*
(O navegador Gil Eanes, natural de Lagos (?), cidade da Província do Algarve, comandou a caravela que dobrou o então temido Cabo Bojador em 1434.)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA » Exortação


O MEU RIMANCEIRO 

Exortação 




Há um tempo cumprido. 

Há um tempo a cumprir. 

Um minuto perdido 

é andar e não ir. 



A boca que consente 

o grito sufocado 

decide no presente 

um futuro adiado. 



A inércia não existe. 

Perpétuo, o movimento 

definido persiste 

ser acção, ser alento. 



Quem perder a coragem, 

sujeito à rendição, 

não irá de viagem 

dobrar o Cabo Não... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo - Portugal

quarta-feira, 11 de julho de 2018

02 - POESIA VIVA * Quase uma oração



NA ESTRADA DE DAMASCO
.
Quase uma oração 


Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

terça-feira, 10 de julho de 2018

06 - ROMANCEIRO * Fadário


CLAVE DE SUL

.

Fadário


(Foto Internet, com a devida vénia) 




Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 




José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

02 - POESIA VIVA * Meus versos


TEMPO DE SORTILÉGIO
.
Meus versos

(Ícaro, Chagall)


Pediste-me um poema original

como se eu fosse um mago jardineiro

cuidando com desvelo, num canteiro,

de raro e fascinante roseiral.



Quem dera eu fosse o mágico poeta

que em rosas as palavras transfigura!

Vermelhas rosas ébrias da ternura

que dissimula uma paixão secreta.



Dos deuses enjeitado, como ousar

as siderais alturas onde os astros

são círios a velar ainda Orfeu?



Perdidos neste chão de malmedrar,

meus versos são efémeros os rastros

de quem não teve a graça de voar...




José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2018.
Alentejo * Portugal

02 - POESIA VIVA * O verbo

TEMPOS DO VERBO (1990)
O VERBO



Desceu o verbo em luz e as sombras, noite e treva,
cederam seu lugar a raios deslumbrados.
Do fundo da caverna, o espírito se eleva
e os longes ganha, aquém e além, iluminados.

Horizontes de espanto, enleios de aventura,
rasgaram os grilhões e os passos hesitantes
ensaiam infantis anseios de procura
nos campos de trigais maduros e ondulantes.

Princípio é este tempo, o verbo conjugado,
a fome e a sede, a graça viva da alvorada,
numa conjugação de massa levedada
e vinho novo, claro, livre, embriagado.

E o tempo é todo o tempo o verbo que anuncia
o fim da sombra, a luz que raia e aquece --- o dia!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 27 de Janeiro de 1988.