sexta-feira, 7 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Pesadelo


NA ESTRADA DE DAMASCO
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Pesadelo 



Avanços e recuos --- as propostas. 

O tom dum nepotismo autoritário. 

O trunfo é copas, ouros, paus, espadas… 

No pano verde sobem as apostas. 

O lucro fácil --- hausto perdulário 

exibe, em transe, as faces alteradas, 



Às portas da cidade, as sentinelas 

garantem a desordem ordenada. 

Além do fosso, jaz a terra imensa, 

exausta e quase estéril por querelas, 

rasgada e dividida em cada tença 

devida à hidra nunca saciada. 



E deus, que vive em glória nas alturas, 

nem olha por receio das tonturas 




José-Augusto de Carvalho 
In Vivo e desnudo, Editorial Escritor, 1996

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Confissão



NA ESTRADA DE DAMASCO
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Confissão 




Confesso que não sei,
assim, na praça pública e desnudo,
e sem recurso à lei
que impõe saber de mim o nada e o tudo.

Não sei por que reclamo o sol do estio,
as chuvas outonais,
as neves da invernia - céus, que frio
doendo-me de mais!

E o sol da primavera
beijando cada ninho em construção
enquanto o Tempo espera
o parto, em oração.

E quando cada espiga me mitiga
a fome só de vê-la,
escrevo uma cantiga
no lucilar ardente duma estrela.



José-Augusto de Carvalho
14 de Junho de 2011
Alentejo * Portugal 


sábado, 1 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Os tempos velhos


CLAVE DE SUL 
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Os Tempos Velhos 

O “Pulo do lobo”, 
no nosso muito amado Odiana. 
Foto Internet, com a devida vénia. 



Uma mancha de arvoredo…
Treme o caminho de medo!
.
Um grito de raiva corta
o silêncio do montado.
Quem supunha a noite morta
neste sossego assombrado? 



II 

Numa janela da aldeia
tremeluz uma candeia…
.
Que sombra furtiva passa,
tragada pela escuridão?
Há um silêncio de ameaça
que perturba a solidão. 



III 

Andam malteses a monte
nas terras sem horizonte!
.
Soam secos estalidos…
navalhas de ponta e mola!
Há abafados ruídos
de passos que a lama atola… 



IV 

Cicatrizes purpurinas
de balas de carabinas!
.
Homens de pele trigueira,
curtida pelo relento!
Aventuras de fronteira
e entregas sem juramento…
.
Nos beijos livres da noite,
sangram flores do laranjal!
Que amor na sombra se acoite,
na pureza natural… 




O medo, o medo guardando
no arrojo do contrabando!
.
Malteses de olhos sombrios
assumindo a perdição
de ousios e desvarios
que lhes levedam o pão! 


Uma sombra no arvoredo…
Treme o caminho de medo! 



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016

02 - POESIA VIVA * Tempo clandestino


TEMPO REBELADO
Tempo clandestino 


Para todos aqueles que se deram na luta 
contra o fascismo, no rigor da clandestinidade. 




As ruelas de terra batida 

ocultaram a minha partida. 


O negrume da noite tragou-me 

numa cúmplice fuga. 

Uma sombra furtiva e sem nome 

que do rosto uma lágrima enxuga. 


Em redor, o silêncio pesado 

dos malteses do medo e do espanto 

e os rafeiros rosnando ao cajado 

que à distância mantém o levanto. 


Chego, enfim, à estrada deserta. 

Doravante, o caminho é obscuro. 

E assim vou, de sentidos alerta… 

E assim vou esventrando o futuro… 



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Março de 1997.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

17 - POEMÁRIO + Agnus Dei

NA ESTRADA DE DAMASCO
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Agnus Dei


(Zurbaran, com a devida vénia)




Foi cumprindo calendário

que chegaste à hora certa.

Foi o verbo milenário

presente nesta hora incerta.



Foi mais um aniversário

da Verdade que, desperta,

fustiga, no tempo vário,

a tua igreja deserta.



Igreja que é assembleia

e não o Templo onde outrora

os doutores de outroragora

uiva(va)m em alcateia.



Da treva ainda na cruz,

Agnus Dei, instante luz!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Dezembro de 1998.

domingo, 26 de agosto de 2018

17 - POEMÁRIO * Pátria Transtagana

CLAVE DE SUL 

Pátria Transtagana 






Parti quase indefinido, 

a buscar-me algum sentido... 



Não tinha rosa dos ventos 

para o rumo precisar… 

Ousei vagas e tormentos, 

perigos de naufragar… 



Do Algarve passei as passas 

mais as fomes transtaganas. 

À arenga das trapaças 

gritei: vai-te, não me enganas! 



Hoje, não presto, estou velho. 

Voltei p’ra morrer aqui, 

que só dobra o meu joelho 

esta terra onde nasci… 







José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996. 
Alentejo, revisão em 25 de Agosto de 2018.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

17 - POEMÁRIO * Abandono


(CLAVE DE SUL) 
Abandono 




Só as árvores nuas 

a tremerem de frio 

no vazio 

destas ruas. 



Uma folha esvoaça, 

derradeira, o fatal movimento, 

sem um ai de doído lamento 

ante a morte que passa. 



Sob o céu enublado, 

só a aragem suspira, 

resistindo à mentira 

do sossego assombrado 



Na parede, cansado, 

o relógio parado. 





José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996.