sábado, 22 de dezembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Uma partícula de céu


(Tempo de Sortilégio) 


Uma partícula de céu 






Azul é cor de céu, variam os matizes, 

num jogo que é de luz – que singular talento! 

A tarde está no fim -- é quando tu me dizes: 

será que Deus existe e nele aqui me invento? 



E neste arroubo, és tu, tão solta das raízes 

deste materno chão, no cósmico momento 

ganhando a dimensão que inventes e que irises 

do indivisível todo – enigma e envolvimento… 



Nem quando o vento arrasta as nuvens mais cinzentas 

e o todo sobre nós é um espesso véu 

de raios e trovões, tumultos e tormentas, 



tu deixarás de ser, além do espesso véu, 

um pedacinho azul do eterno que acalentas, 

partícula do todo -- enigma deste céu! 





José-Augusto de Carvalho 
21 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

17 - POEMÁRIO, * Tela naturalista


(NA ESTRADA DE DAMASCO) 


TELA NATURALISTA 





Dezembro já chegou, de frio a tiritar. 

No desconforto, evoca o assombro de nascer. 

Que véu sobre o devir me impede de enxergar 

a graça de entrever o tempo por haver? 



A dúvida de ser exausta permanece, 

desesperando já a minha longa espera. 

Ai, que esperança de alma enternecida tece 

a remissão no Amor que tudo regenera? 



Já chia e já fumega o caldo na panela. 

A mesa sonha o pão suado da partilha. 

Insone, a noite dói, por látegos ferida. 



Desliza a neve na vidraça da janela. 

O vento, sem cessar, monótono dedilha 

a melodia triste, há tanto repetida… 





José-Augusto de Carvalho 
19 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sábado, 15 de dezembro de 2018

02 - POESIA VIVA * Agora nós!



CANTO REVELADO

Agora nós! 


Esquerda: Desenho de Michelangelo nos estudos feitos na Cappella Brancacci 
para a Capela Sistina. Os desenhos se encontram em Paris, no Louvre.
Direita: Expulsão de Adão e Eva - Masaccio - Cappella Brancacci 





Sem Cosmos e sem Deus, ficámos sós. 

Olhámo-nos após a queda abrupta: 

restava o galho ou disputar a gruta 

e a decisão final --- agora nós! 



E vamos, nesta história mal contada, 

Narcisos sem espelho de água clara, 

na busca de nós mesmos, que não pára, 

na busca milenar de ser buscada. 



Buscar que é um processo definido 

na condição de verbo transitivo: 

Buscar o quê? O que ficou cativo? 

O Paraíso onírico e perdido? 



Ousamos mais aqui, ali nem tanto, 

sempre ao sabor dos ânimos e anseios, 

como se tudo fossem os gorjeios 

angelicais de algum sonhado canto… 



Nas horas de incerteza ou pasmaceira, 

arengam charlatães as ladainhas 

de pobres, de milagres, de rainhas, 

de pão sem ter havido sementeira… 



E numa procissão de migrações, 

andamos, transumantes sem rebanhos, 

no mundo que é o nosso, como estranhos, 

erguendo totens e outras perdições. 



O resultado somos, liquefeito, 

nos tempos desta pós-modernidade: 

modelo modelado --- identidade 

em tudo igual do avesso e do direito. 





José-Augusto de Carvalho 
15 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

02 - POESIA VIVA * À bolina...



CANTO REVELADO 
À BOLINA… 





No meu alforge trago a referência: 

a sede no cantil mitigada, 

a fome no taleigo saciada, 

a paz duma frugal sobrevivência.. 



No peito trago o coração pulsante 

de velas navegando contra o vento 

clamando em qualquer tempo é o momento 

de ser e de rumar para diante. 



Que fique para trás o tempo morto 

que apenas é presente na lembrança 

e nas saudades raras de criança 

consegue dar-me instantes de conforto. 



O tempo é este tempo que me imponho: 

o tempo meu --- doutro nenhum disponho… 





José-Augusto de Carvalho 
11 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sábado, 8 de dezembro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Da pluralidade



O MEU RIMANCEIRO 
(QUE VVA O CORDEL!) 


Da pluralidade 



No reino do faz de conta, 

a identidade é plural: 

contradição ou afronta 

é condição natural. 



Há um reizinho qualquer, 

se é reino tem de ter rei, 

ora homem, ora mulher, 

a pluralidade é Lei. 



Ser isto ou o seu contrário, 

ser avesso ou ser direito, 

tudo consta do inventário 

onde se almeja o perfeito. 



Ser diverso ou ser afim, 

géneros em profusão! 

Que louvar a Deus sem fim 

desta plural criação. 



Do diverso ao semelhante, 

do que viste ao que não viste, 

tudo o que existe garante 

que é criação, logo existe. 



Tudo o mais é preconceito, 

porquês da Filosofia 

porque ignora o Direito 

de existir da pandemia. 



Não há por que haver porquê. 

Seja o que à Vida aprouver! 

E no fim, logo se vê! 

Que seja o que Deus quiser! 




José-Augusto de Carvalho 
8 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * A falsa questão




O MEU RIMANCEIRO
.
(QUE VIVA O CORDEL!)

*
A FALSA QUESTÃO




Temer ou não temer --- eis a questão!
Sabia o velho Esopo, porque lia
a Natureza-Mãe com atenção,
aquela antiga história da guria
que fez da imprevidência condição
na hora em que aceitou por companhia
o astuto escorpião
naquela derradeira travessia.
.
E não houve depois para contar…
Temer ou não temer --- falsa questão!
O certo é não errar.
Quem erra por tolice ou distracção,
tem sempre uma factura pra pagar.
Quer se queira, quer não,
jamais a sua condição irá mudar
o astuto escorpião.

*
José-Augusto de Carvalho
5 de Dezembro de 2018.
Alentejo*Portugal

terça-feira, 27 de novembro de 2018

02 - POESIA VIVA * Manifesto

NA PALAVRA É QUE VOU...
.

Manifesto 


Ícaro, tela de Chagall 




Questiono ou não os meus antepassados? 

São eu neste outro tempo modelados… 

Todo o tempo é composto de mudanças… 

ganhando ou não ganhando qualidades, 

perdendo ou não perdendo qualidades… 

Não vou dobrar o Cabo Bojador… 

Como ir além do medo? Além da dor? 

Não vou dobrar o Cabo das Tormentas… 

Perene é a tormenta, 

distante a esperança que persigo… 

Persiste à minha frente o Cabo Não, 

num desafio instante e perigoso… 

Herdeiro sou de fastos e misérias, 

aos ombros trago o Tudo, trago o Nada, 

o vinho e o pão da minha mesa efémera… 

Os passos que já dei 

não voltarei a dar… 

Ninguém banhar-se pode duas vezes 

nas mesmas águas deste nosso rio… 

Tinha toda a razão o velho Heráclito! 

Aqui e sem negar-me tento ser 

o impulso a projectar-me para diante. 

Memória do que fui, a minha história, 

outra não tenho para me contar… 

São fastos, são misérias, são heranças 

que herdei dos outros eus que fui inteiro… 

Mantenho ou não a glória desses fastos? 

Corrijo ou não a dor dessas misérias? 

Venha o primeiro justo condenar-me! 

Venha a primeira pedra castigar-me! 

Depois de mim que venham outros eus 

justificar-me ou não 

ou redimir-me ou não… 





José-Augusto de Carvalho 
27 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal