quinta-feira, 4 de julho de 2019

18 - CAMINHEIROS * José Carlos Dinardo





ATENTADO AMORISTA

 Poema de José Carlos Dinardo


Vamos fazer um atentado amorista,

Antes que a vida parta para outro lugar.

Vamos esquecer nossas diferenças e ser um,

Mesmo que seja por momento singular.

Esqueça que você existe,

Deixe o Mundo existir em você.

Abraçar as pessoas,como se nossos filhos.

Beijar os rostos,como se nossos irmãos.

Não escolhamos tempo nem lugar,

Para a bomba do amor detonar.

Quantas mais pessoas presentes,

Quanto mais desprevenidas,

Melhor,melhor ...

Vamos fazer um atentado amorista,

Antes que a vida deixe de pulsar.

Vamos ouvir, antes de falar.

Aceitar, antes de entender.

Distribuir, antes de juntar.

Sorrir e fazer sorrir

E, sorrateiro, partir,

Deixando uma flor

Viva! dentro de um vaso,

Florindo como nosso amor.

domingo, 30 de junho de 2019

17 - POEMÁRIO * Vento suão


CLAVE DE SUL 


Vento suão 





Vem o vento suão da fornalha de Hefesto, 

na Mãe África. Traz um rubor de artifícios 

e uma mescla de anéis de ancestrais malefícios 

que a bigorna forjou num desígnio funesto. 



Traz os gritos que a dor arrancou da raiz 

e morreram no mar do perpétuo desterro… 

Traz a cruz que de novo agoniza no cerro 

e calada, no horror sem perdão, tudo diz… 



Traz o medo do incréu num juízo final, 

onde o ser e o não-ser se debatem convulsos… 

Traz o verbo na luz sem grilhetas nos pulsos 

e a partilha do pão num sagrado ritual… 



E eu aqui neste chão que foi berço e regaço 

esperando por mim para o último abraço. 





José-Augusto de Carvalho 
29 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

sábado, 22 de junho de 2019

17 - POEMÁRIO * Traço de união


TEMPO DE SORTILÉGIO 
.
Traço de união 





Escavo os subterrâneos da ausência 

em busca de vestígios e de escombros 

que jazem nos covais da decadência, 

ornados de mistérios e de assombros… 



Ossadas que me dizem ser o nada 

que resta do que foi vivido outrora… 

Memória sem memória, abandonada, 

e que nenhuma lágrima hoje chora… 



Escavo e não encontro nem um grito, 

um eco de algum ai aqui que diga 

eu sou de ti, ainda que proscrito, 

a génese perdida, a mais antiga… 



E não me deves nada, nem a prece 

que no recolhimento se murmura… 

Em ti, apenas, sou quem permanece, 

quem vai contigo, quem contigo dura… 



Agora que de mim não há mais nada, 

pára de procurar --- já tudo viste. 

E cumpre-te semente germinada, 

que tudo o que já foi em ti existe… 



Atónito, descubro que Sibila 

me trouxe a mítica revelação: 

que nem a morte que nos aniquila, 

destrói o nosso traço de união. 




José-Augusto de Carvalho 
19 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

sábado, 15 de junho de 2019

17 -POEMÁRIO * Companheiro...


(CLAVE DE SUL)

*
Companheiro… 



(À memória de Joaquim Soeiro Pereira Gomes)



Tu sabias, 

sabias desde o berço, 

que o pátrio chão está por resgatar… 



Tu sabias, 

sabias da pertença 

da futura seara por ceifar… 



Tu sabias, 

sabias por que a fome 

maior é sempre a fome da esperança… 



Tua sabias, 

sabias que tão pouco iam durar 

teus tempos de criança… 



Tu sabias, 

sabias que eras mais um entre os tantos 

privados do seu tempo de meninos… 



Tu sabias, 

sabias como eu sei que vamos juntos 

contra as vivas marés dos desatinos… 



Tu sabias, 

sabias, como eu sei, 

que a gente cai e a gente se levanta… 



Tu sabias 

e sabes, como eu sei, 

que o canto da sereia não nos perde, 

não nos seduz, 

não nos encanta…. 





José-Augusto de Carvalho 
15 de Junho de 2019 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 13 de junho de 2019

18 - CAMINHEIROS * “Caos estrelado”, um livro de poemas



“Caos estrelado”, um livro de poemas 



José Carlos Dinardo. poeta brasileiro, ofereceu-me um exemplar do seu livro “Caos estrelado”. Sinto nesta oferta o imenso abraço unindo, mais uma vez, dois países e um idioma comum.

José Carlos Dinardo e eu devemos este relacionamento recente a José Arrabal, escritor brasileiro de créditos firmados, amigo de há muitos anos de fraternas andanças e cumplicidades éticas, estéticas e humanas.

Um livro de poemas não se lê… vai-se lendo e degustando, porque em cada leitura quase sempre se alarga e se aprofunda o mundo próprio do poeta. E esta nótula é importante para antecipadamente confirmar releituras.


2

Da primeira leitura de “Caos estrelado” permito-me salientar: o poeta se me apresenta como um observador do que vê, do que intui, do que sente, daqui partindo para desvendar e nos revelar emoções, interrogações, expectativas e perplexidades, mas também anseios e (in)certezas futuras.

No poema inaugural --- demolição, é casada a saudade do que se perdeu com a esperança do que se pode obter. Será, porventura, a recuperação de Lavoisier na celebrada máxima “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

No poema amanhecer, é intuída a antemanhã radiosa do milagre de nascer.

No poema “Rosa da segunda-feira”, o fim-de-semana anterior é lamentado como uma perda, como uma ilusão, como um falhanço. Se parece evidente a alusão ao mundo do trabalho, onde é comum se descansar ao fim de semana, fica difícil apreender o pensamento do poeta se este cantar, como eu entendi, aquele fim-de-semana como se fosse o último.

No poema “Aprendizado”, é cantado o elogio da metamorfose – “deixando casulos ocos, voarei borboleta.” Dito em linguagem chã, o esforço é premiado.

No poema “Matricial”, são ensaiadas combinações dos vocábulos mulher/poema/vivo; os vocábulos escolhidos e as diversas combinações encontradas demonstram como se encontra a sublimação na singeleza.

No poema “Eco da infância”, encontramos o petiz descobrindo a natureza e a sua frustração perante o avô que, voluntariamente alheado, deixa o neto descobrir e descobrir-se sozinho.


3

Estou convicto de que a breve referência que fiz aos primeiros poemas do livro “Caos estrelado” será suficiente para despertar o interesse dos leitores. Se é verdade, e eu assumo que é, que nos outros nos descobrimos e logo os outros em nós se descobrem, ler “Caos estrelado” é uma possibilidade a ponderar. Aliás, ler é uma possibilidade a ponderar… sempre! Viver sem livros é que será uma impossibilidade e uma fatalidade.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo * Portugal
8 de Junho de 2019.

domingo, 19 de maio de 2019

18 - CAMINHEIROS * José Carlos Dinardo


CAOS ESTRELADO é composto por 70 poemas, criados em épocas distintas e sem uma focalização temática, onde fica claro o fascínio em abordar os aspectos existenciais. A sequência em que os poemas são apresentados na obra é aleatória, tendo sido a definição da posição de cada poema na obra definida por sorteio, feito pelo autor. Esta opção decorreu da preocupação em não contar nenhuma estória com o sequenciamento dos poemas. Assemelha-se assim esta obra a um céu estrelado, com poemas-estrelas com vários brilhos e texturas, onde a montagem das constelações fica por conta do leitor.

Ficha Técnica
ISBN
9788530002695
Páginas
90
Edição número
1
Edição ano
2019

sexta-feira, 17 de maio de 2019

18 - CAMINHEIROS * José Carlos Dinardo


Estimados Leitores de vivo e desnudo:

A etiqueta agora criada -- caminheiros -- corresponde à decisão de divulgar autores que muito prezo.
Inicio esta divulgação com o poeta brasileiro José Carlos Dinardo.
Os meus cumprimentos.
José-Augusto de Carvalho




José Carlos Dinardo por ele mesmo:

Nasci no início da década de 50, em Rio Claro, no interior do Estado de São Paulo. Passei minha infância à beira de uma floresta de eucaliptos, onde brincava e sonhava; meu fascínio pela natureza e meu amor pelos animais decorrem deste cenário. 
O desejo de estudar foi natural e impetuoso. O de leitura foi herdado do meu Pai, voraz leitor de revistas. Neste clima de sonhos, busquei meu caminho, me especializando em Engenharia na área de telecomunicações. 
Descobri um esporte que pratico com regularidade: corridas de longa distância. 
Fã incondicional dos Beatles e de músicas eruditas, faço da poesia meu meio natural de expressão artística. 
Creio sempre ter sido poeta, mas comecei a escrever poemas no início da década de 80 e não pretendo parar jamais. 
Publiquei 13 poemas na 49ª. edição da Antologia Poética da Editora “Palavra é Arte”, em 2018. Em Abril de 2019, publiquei meu primeiro livro, com 70 poemas, “Caos Estrelado”, pela Editora Viseu. 
Gosto de declamar meus poemas em público e sentir suas reações.






BAILARINO


A luz violentou o palco.
Seu pranto gerou a música.
Surge o bailarino, num sobressalto.

Rodopios, gestos, firmezas.
Saltos no vazio perplexo.
Aplausos em busca de um coração.

Que Deus pagão te deu o espaço?

Quando a música cansou de te acompanhar,
Não foi possível saber, sequer imaginar.
Se eras a música, o espaço ou o tempo,
Ou se, divino, recriavas tudo no movimento.