Nas estradas e encruzilhadas da vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

02 - POESIA VIVA * Cantares... (21)





Eu canto o dia de hoje,

que me foge

no decantar efémero das horas...



Eu canto o tempo doce

que me trouxe

o paladar silvestre das amoras.



Eu canto porque existo

e resisto

ao desencanto estéril das demoras.



Eu canto a solidão

da canção

que ouvi dolente no gemer das noras.



Eu canto as esperanças

das crianças

que de vermelho vestem as auroras.



Eu canto a liberdade

sobre a grade

da servidão onde vergado moras.



Eu canto e no meu canto

há o espanto

que marca em todo o mundo as mesmas horas.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2006.
In «Harpejos», a publicar



sábado, 18 de junho de 2016

15 - DESTAQUE * Alem Tejo (1)

Jornal TORNADO
OPINIÃO / REGIÕES

Além Tejo (1)

TEXTO: MARIA DO CÉU PIRES ·
 6 MARÇO, 2016




As generalizações sobre o Alentejo e sobre os alentejanos padecem do mesmo mal que todos os estereótipos: são categorizações, “gavetas” onde colocamos uma realidade complexa de modo a agilizar a nossa orientação na vida social.

São crenças rígidas que dão uma imagem simplista de determinada realidade e, ao atribuírem a todos os membros de um grupo uma certa característica, ignoram outras importantes e esquecem, igualmente, o facto de que cada pessoa é um ser único.

Posto isto, direi que o Além Tejo é, para mim, uma pátria. A Pátria Transtagana de que fala o poeta José-Augusto de Carvalho.

Tem uma identidade própria (que integra a identidade social de todos os que aqui nascem) e que deve ser encarada não como algo estático pairando num etéreo céu intemporal mas como uma construção espácio-temporal e em relação com outros grupos culturais.

Não nos podemos afirmar como alentejanos sem conhecermos a nossa história e como se edificou, como continua a ser feita do cruzamento de muitas outras histórias.

Sim, porque se Além Tejo é açorda e migas, é também a razão de ser delas, da açorda e das migas… e de tudo o que à sua volta gira…

O meu Além Tejo é a pátria da resiliência, de uma longa caminhada de luta pela justiça, dos senhores e dos servos, das praças de jorna e das greves pelas 8 horas de trabalho.

É a dor e o sofrimento dos tempos negros, o desenho da esperança que, apesar dos seus erros, foi a Reforma Agrária.

Aqui nunca se aceitou a desigualdade como coisa natural, sempre se enfrentou a ignomínia, por vezes com sangue ou até com a vida.

Sempre se exigiu aquilo que, por direito, é devido a cada ser humano. Como já escrevi num outro lugar, aqui é o lugar do sonho por uma “terra irmãmente lavrada e cuidada”.

Para além da paisagem e da gastronomia, há um património de valores que se torna importante preservar pois em tempos de mediocridade e de individualismo como os que hoje se vivem, é importante não esquecer os seres humanos íntegros e honrados que habitaram esta planície.

A maior solidão e a maior solidariedade estão em nós, são a nossa riqueza. Por isso, somos “levantados do chão”.

Também por isso, ninguém poderá compreender nem escrever sobre o Além Tejo sem antes ler Manuel da Fonseca!

O resto é ignorância que não vale a pena comentar…

quinta-feira, 16 de junho de 2016

07 - B R A S I L * As lições e as lições do golpe




 OUTRASPALAVRAS


Teremos de reinventar a participação política e construir, com a rica multiplicidade das esquerdas, uma ideia futura de país – sob pena de ser engolidos por longa noite de fascismo neoliberal


Por Alexandre Pilati

Só os muito incautos ou os muito mal intencionados não admitem que o que se passa no Brasil, há pelo menos dois anos, é um processo golpista. Desde que o Senado brasileiro aprovou o afastamento da presidenta eleita Dilma Rousseff, vários episódios explicitaram ao país as verdadeiras razões do golpe impingido à democracia nacional. Não vale a pena recapitular aqui tais episódios. Eles são bizarros: de Frota no MEC a Jucá gravado, passando pela figura sinistra de um Gilmar Mendes visitando na calada da noite o interino golpista ou pelo juiz Sérgio Moro, desde o dia 17/4 acometido por uma estranha síndrome de avestruz.

Esses e outros fatos já são largamente conhecidos do público pela repercussão que tiveram nas redes sociais e mesmo na imprensa tradicional. Sabemos todos os ingredientes verdadeiros do movimento que apeou (ao menos temporariamente) Dilma e o PT do poder. De cabeça, é fácil levantar ao menos os principais, que dinamizam a narrativa golpista: a grande pressão do capitalismo transnacional, a decisiva interferência na geopolítica da América Latina protagonizada pelos EUA, a intensa fabricação de consentimento antiesquerda pelo oligopólio da mídia vendida, o legislativo corrupto e vendido aos interesses mais espúrios de um capitalismo periférico, uma regressão conservadora dos costumes, o desespero de uma máfia política que é composta por ratos que habitam os porões da Nova República desde as primeiras eleições diretas depois da ditatura militar, o conjunto significativo de erros e problemas dos governos dirigidos pela coalizão de centro-esquerda nesses últimos anos.

Se esse movimento precisava de prepostos, de vis rábulas do direito pactário, encontrou-os especialmente em dois velhacos do poder brasileiro, representantes do dinheiro grosso que decide os destinos do país, na falta de um plano nacional e popular construído junto com a população. São eles: Michel Temer, um ficha-suja que nem sequer pode se candidatar a uma eleição de vereador, e Eduardo Cunha, nossa melhor expressão tupiniquim de mafioso entranhado no Estado. Eis, pois, os protagonistas do golpe: os endinheirados do país e seus títeres políticos, junto com uma massa irreflexiva de tendência fascista que compõe o exército sonâmbulo da pequena burguesia brasileira, que mirando-se no exemplo dos ricaços que admira faz da sua vida uma valsa entre os verbos consumir e odiar.

Em pinceladas rápidas, temos aí o retrato cômico-trágico de um golpe travestido de “solução” de crise econômica política e institucional, capitaneada pelos de cima, num clima de república de bananas.

O resultado almejado pelo golpe, pelas ações do governo ilegítimo e temporário que age como definitivo, é tomar o poder e reconduzir o país de modo cabal rumo ao retrocesso em várias frentes da vida brasileira. Retrocesso econômico: implantação radical da pauta neoliberal, que além de espúria porque vendida aos interesses dos poderosos, é retrógrada pois não aponta para um esquema de reindustrialização que sustente a médio prazo algum crescimento para o país. Retrocesso político: salvação geral e irrestrita dos corruptos que sustentam, na base da negociata semicolonial, uma democracia burguesa arreganhada aos donos do capitalismo brasileiro, que é viciado em dinheiro público, além, é claro, da aposta na insidiosa trama política da nova república. Retrocesso social: também chamado de desagregação social, pautada na máxima do “liberalismo” periférico de que o Estado tem de ser mínimo, mas deve ajudar primeiro os que já têm ajuda, ou seja, nada de cotas, de bolsas, nada de saúde e de educação públicas e de qualidade. Retrocesso humano: basta lembrar o que desejam fazer os adeptos do Escola sem Partido, os que atacam a lei do aborto, os que criminalizam movimentos sociais, as religiões de matriz africana, os que acham que o índio deve ser convertido, apostam no criacionismo e julgam os gays uma aberração da natureza.

Ora, esse é o jeito ilegítimo, violento e conservador de a elite brasileira tentar se recolocar social e politicamente nos quadros de uma transformação que o capitalismo mundial vem sofrendo há alguns anos e à qual podemos chamar de “a mais grave crise sistêmica desde 1929”. As crises reconfiguram posições econômicas, rearticulam forças políticas, transformam e preparam o mundo material para uma nova quadra histórica. Não podemos deixar de considerar isso. Estamos em um novo limiar histórico, em termos locais e em termos globais. O sistema-mundo espreguiça-se para um novo dia de exploração e mais valia. O golpe de Estado perpetrado pela elite econômica brasileira é um arranjo de reposicionamento nessa iminente nova etapa da história. Não podemos perder isso de vista, senão veremos, nós que não lucramos com a crise, ainda mais constrito o nosso lugar nesse alvorecer de nova fase da decadência do capitalismo. Se perdemos essa noção, não conseguimos pensar no pós-capitalismo.

Há para nós tarefas urgentes, imediatas, mas há também tarefas de longo prazo. Resistir ao golpe é nossa tarefa urgente. Denunciar a cada oportunidade esse movimento conservador e ilegítimo é nossa tarefa imediata. Articular o retorno da presidenta eleita ao poder é fundamental agora. Nossas forças precisam estar concentradas nesse compromisso, até porque ele pode nos ajudar a viabilizar uma outra tarefa maior, que é a reunião e a concentração das forças do campo progressista da sociedade. A luta política é uma dimensão da formação humana, ela é um espaço de aprendizado sobre nós e sobre nossos destinos.

A luta contra o retrocesso é dos movimentos sociais, dos trabalhadores e das trabalhadoras, dos partidos políticos da esquerda, dos intelectuais, do movimento LGBT, dos indígenas, dos sindicatos, da juventude que ocupa as escolas, dos artistas que ocupam os teatros. A esquerda sempre teve dificuldade de articular setores em divergência dentro do seu espectro vário de propostas teóricas, intenções e práticas. Essa é a primeira dificuldade que precisaremos aprender a superar se quisermos fazer frente ao aguerrido ataque das forças conservadoras ao país que nos diz respeito. Precisamos, com nossas diferenças, saber formular uma alternativa concreta, saber construir um projeto de país popular para responder à crise em que a especulação financeira nos meteu há oito anos. Quem os inimigos? A resposta a essa pergunta, desde a redemocratização brasileira, jamais esteve tão clara.

Não vejo horizonte possível para uma ação emancipatória de longo prazo, que faça frente ao retrocesso que aceleradamente o governo Temer propõe, sem que consigamos mobilizar (as ruas, as casas, as salas de aula, os locais de trabalho, as redes sociais) em torno de duas causas imediatas: o retorno de Dilma e a proposição de um plebiscito sobre novas eleições, que confira nova legitimidade aos poderes da nossa frágil democracia. Esse processo pode acelerar um pouco nossa resistência ao retrocesso. Para conseguir isso, todavia, precisaremos aprender a reinventar as formas de participação política. E teremos de aprender isso na prática, para já e para depois, sob pena de sermos engolidos por uma longa noite de fascismo neoliberal.

A Nova República se esgotou. Ou formularemos com os espoliados pelo neoliberalismo o passo seguinte da ordenação político-social do país, ou veremos, mais uma vez, o poder dos endinheirados comandar movimento do Brasil no rumo da nova quadra do capitalismo.

Fico sempre muito animado com nossa capacidade de organização, de mobilização, nossa criatividade ao protestar, com o humor e a alegria sempre presentes, pois sabemos que quem odeia e faz cara feia não constrói um mundo melhor. O trabalho político cooperativo, horizontal e agregador que gere, entretanto, uma transformação prática e não apenas resistência (o que já é muito, mas não basta) é o desafio que está posto à nossa geração. Se não formos capazes de fazer essa maturidade social que atingimos gerar frutos de intervenção no concreto das relações políticas, dificilmente a próxima geração poderá usar tão bem quanto nós os verbos “resistir” e “transformar”. A multiplicidade de tendências que compõe o campo das esquerdas precisa ser entendida como a riqueza que dá mais força à resistência política. Inventar uma verdadeira “nova política” que as reúna num movimento amplo de construção de uma ideia futura de país será, talvez, a grande lição do Brasil aos golpistas de hoje e de amanhã.

*
Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa – 50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de poemas e outros nem tanto assim (7letras, 2015).

quarta-feira, 15 de junho de 2016

08 - CIDADANIA * Por que perdemos sempre?




Nós somos tantos!

Eles são tão poucos!

Por que perdemos sempre?




Talvez nós não sejamos tantos como supomos.

Um antigo companheiro de jornada sempre qualificava de mal esclarecido quem lhe manifestava uma divergência de fundo. E sentenciava: «esclarecer, esclarecer sempre!» Certamente parafraseando o tão celebrado «aprender, aprender sempre!» que nós tínhamos por divisa nos tempos obscuros.

Desses mal esclarecidos tivemos notícia mais tarde, empoleirados nos palanques acomodados duma efemeridade sem amanhã.

É verdade que quando a barca adorna e os fados pressagiam procela e risco de naufrágio, sempre os timoratos procuram a garantia da terra firme. E assim porque não sabem nem querem saber que depois da tempestade vem a bonança.

São estes timoratos que se apropriam dos fastos e desgraças dos intrépidos que foram além da dor, no dizer de Fernando Pessoa; dos intrépidos que por mares nunca dantes navegados, no dizer de Luís de Camões, dobraram cabos, dominaram medos, rasgaram nevoeiros e descobriram amanheceres.

Por tudo isto, nós não somos tantos assim!

Por tudo isto, eles não são tão poucos assim!

Por tudo isto, talvez fique claro por que nós perdemos sempre…




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Junho de 2016.

domingo, 12 de junho de 2016

02 - POESIA VIVA * Louvor da Dialéctica



Bertolt Brecht (1898-1956)



A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores.
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim como está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!



Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela

11 - ÁLBUM DE IMAGENS * Resistência



Pintor David Alfaro Siqueiros

David Alfaro Siqueira foi um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do muralismo mexicano, juntamente com Rivera e Orozco.

Nascimento: 29 de Dezembro de 1896, Chihuahua, México
Falecimento: 6 de janeiro de 1974, Cuernavaca, México

sábado, 11 de junho de 2016

02 - POESIA VIVA * As Canções Heróicas

Na noite da opressão, 
também a Música e a Poesia gritaram não nas Canções Heróicas.

Compositor Fernando Lopes Graça
nasceu na cidade de Tomar a 17 de Dezembro de 1906 
e faleceu em Parede, Cascais, a 27 de Novembro de 1994.

*

Poeta José Gomes Ferreira
Nasceu na cidade do Porto em 9 de Junho de 1900
faleceu em 8 de Fevereiro de 1985


Os versos de duas canções heróicas:

Acordai!


Acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
.
Fernando Lopes Graça (música)
José Gomes Ferreira (letra)

         
-/-

JORNADA

Não fiques pra trás ó companheiro

É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro
Segue os nossos corações na treva.
Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao sol desta canção.
Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.



Vozes ao alto
Vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao sol desta canção.

.         
Fernando Lopes Graça (música)
José Gomes Ferreira (letra)