Nas estradas e encruzilhadas da vida, liberto das roupagens da vaidade e da jactância, tento merecer esta minha condição de ser vivo.

domingo, 20 de outubro de 2019

05 -REFLEXÕES * Falando de dores


NA PALAVRA É QUE VOU… 

* 

Falando de dores 







Hoje, tentemos conjugar o verbo doer…

Qual será o significado do lamento: estou com uma dor de dentes difícil de suportar?

Afinal, uma dor de dentes é um problema que o Serviço Nacional de Saúde (mal)trata e de que a odontologia privada se ocupa se ou quando a disponibilidade do meu salário mo permite. Assim, tal qual – quem quer saúde, paga-a!

Evidentemente que a dor de dentes é um exemplo entre todas as outras dores que nos afligem ou nos podem afligir enquanto caminhamos nesta viagem finita em que vamos…

… vamos. muitos cantando e rindo;

… vamos, muitos encarando a viagem como uma via profana (via crucis reduzida à dízima);

… vamos, muitos sem darem por nada, numa acomodação mísera e mesquinha (e aqui te evoco, meu amado Luís, mais uma vez);

… vamos, outros ainda, mas poucos, muito poucos, esbracejando ou esbravejando;

--- vamos, uns tantos proclamando serem do contra porque é bonito ser contestatário ou porque lhes convém inocuamente lavarem a consciência…

.

Vejamos:

-- eu sei que pago os meus Impostos;

-- eu sei que sou, desde o velho Adão, obra do Criador, logo eu e todos os demais pertencemos à única Irmandade --- a Irmandade Humana;

-- eu sei que a Mãe Eva e o Pai Adão mal se comportaram cometendo o pecado da desobediência e, por isso mesmo, foram expulsos do Paraíso, passando eles depois as passas do Algarve e outras mais… e que no-las deixaram de herança até hoje, numa penitência de longevidade que me assombra; mas tudo bem, a misericórdia do Criador é infinita;

-- eu sei que a nossa Leonor, filha do Duque de Beja, depois rainha, após o casamento com o Príncipe Perfeito, o nosso Dom João II, Rei de Portugal de perene memória apesar das aleivosias de muitos, criou as Misericórdias, obra modesta e, avento eu, paroquialmente inspirada na misericórdia infinita;

-- eu sei que os Direitos Humanos dizem defender-me;

-- eu conheço a Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU, 1948);

-- eu conheço os direitos constitucionais do cidadão português;

-- eu suponho saber ler, mas quanto mais leio, mais me parece que vivo um equívoco:

-- eu suponho saber escrever (cartas à família e pouco mais…), mas quanto mais escrevo menos leitores tenho; mas entendo isto: o silêncio mata, logo eu sei que me estão matando… E aqui eu sorrio divertido: não percam tempo querendo matar-me!… a Senhora Dona Morte (olá, Florbela, minha amada) não vai cometer a maldade de se esquecer de mim…

Até sempre!

*

José-Augusto de Carvalho

20 de Outubro de 2019.

Alentejo * Portugal

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

02 - POESIA VIVA * O lado obscuro da História

TEMPO DE SORTILÉGIO
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O lado obscuro da História 





De soluços me chega, entrecortada, 

a saudade chorada que me cantas. 

Do desterro cruel a voz levantas, 

no silêncio da noite abandonada. 



Na memória do tempo, a melopeia 

é um raio de luz a consolar 

esta angústia sem prece nem altar 

que num auto-de-fé nos incendeia. 



São saudades de nós -- de ti, de mim… 

…quando, louco, o tapete que voava 

pelos ares infindos nos levava, 

sonhando as fantasias de Aladim! 



Personagens intemporais e avulsos, 

hoje, somos, nos livros infantis… 

Por que nenhum autor dos livros diz 

que nós do pátrio chão fomos expulsos? 



Do al-Andalus, de Sefarad fomos, 

em aras e desterro, os excluídos… 

Do silêncio a que fomos reduzidos, 

gritamos porque ainda vivos somos! 





José-Augusto de Carvalho 
25 de Setembro de 2019 

Alentejo * Portugal

quinta-feira, 4 de julho de 2019

18 - CAMINHEIROS * José Carlos Dinardo


Estimados Leitores deste meu espaço:

Prevenindo  a dificuldade de obtenção de exemplar(es) do livro "Caos estrelado" no mercado livreiro, aqui deixo um endereço que ultrapassará essa presumível dificuldade --- CAOS ESTRELADO

Esclareço que este espaço não é porta voz de interesses comerciais. Aqui, apenas manifesto a minha solidariedade para com um autor que recentemente publicou o seu primeiro livro.

Os meus cumprimentos.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo * Portugal


18 - CAMINHEIROS * José Carlos Dinardo





ATENTADO AMORISTA

 Poema de José Carlos Dinardo


Vamos fazer um atentado amorista,

Antes que a vida parta para outro lugar.

Vamos esquecer nossas diferenças e ser um,

Mesmo que seja por momento singular.

Esqueça que você existe,

Deixe o Mundo existir em você.

Abraçar as pessoas,como se nossos filhos.

Beijar os rostos,como se nossos irmãos.

Não escolhamos tempo nem lugar,

Para a bomba do amor detonar.

Quantas mais pessoas presentes,

Quanto mais desprevenidas,

Melhor,melhor ...

Vamos fazer um atentado amorista,

Antes que a vida deixe de pulsar.

Vamos ouvir, antes de falar.

Aceitar, antes de entender.

Distribuir, antes de juntar.

Sorrir e fazer sorrir

E, sorrateiro, partir,

Deixando uma flor

Viva! dentro de um vaso,

Florindo como nosso amor.

domingo, 30 de junho de 2019

17 - POEMÁRIO * Vento suão


CLAVE DE SUL 

* 

Vento suão 





Vem o vento suão da fornalha de Hefesto, 

na Mãe África. Traz um rubor de artifícios 

e uma mescla de anéis de ancestrais malefícios 

que a bigorna forjou num desígnio funesto. 



Traz os gritos que a dor arrancou da raiz 

e morreram no mar do perpétuo desterro… 

Traz a cruz que de novo agoniza no cerro 

e calada, no horror sem perdão, tudo diz… 



Traz o medo do incréu num juízo final, 

onde o ser e o não-ser se debatem convulsos… 

Traz o verbo na luz sem grilhetas nos pulsos 

e a partilha do pão num sagrado ritual… 



E eu aqui neste chão que foi berço e regaço 

esperando por mim para o último abraço. 





José-Augusto de Carvalho 
29 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

sábado, 22 de junho de 2019

17 - POEMÁRIO * Traço de união


TEMPO DE SORTILÉGIO 
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Traço de união 





Escavo os subterrâneos da ausência 

em busca de vestígios e de escombros 

que jazem nos covais da decadência, 

ornados de mistérios e de assombros… 



Ossadas que me dizem ser o nada 

que resta do que foi vivido outrora… 

Memória sem memória, abandonada, 

e que nenhuma lágrima hoje chora… 



Escavo e não encontro nem um grito, 

um eco de algum ai aqui que diga 

eu sou de ti, ainda que proscrito, 

a génese perdida, a mais antiga… 



E não me deves nada, nem a prece 

que no recolhimento se murmura… 

Em ti, apenas, sou quem permanece, 

quem vai contigo, quem contigo dura… 



Agora que de mim não há mais nada, 

pára de procurar --- já tudo viste. 

E cumpre-te semente germinada, 

que tudo o que já foi em ti existe… 



Atónito, descubro que Sibila 

me trouxe a mítica revelação: 

que nem a morte que nos aniquila, 

destrói o nosso traço de união. 




José-Augusto de Carvalho 
19 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

sábado, 15 de junho de 2019

17 -POEMÁRIO * Companheiro...


(CLAVE DE SUL)

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Companheiro… 



(À memória de Joaquim Soeiro Pereira Gomes)



Tu sabias, 

sabias desde o berço, 

que o pátrio chão está por resgatar… 



Tu sabias, 

sabias da pertença 

da futura seara por ceifar… 



Tu sabias, 

sabias por que a fome 

maior é sempre a fome da esperança… 



Tua sabias, 

sabias que tão pouco iam durar 

teus tempos de criança… 



Tu sabias, 

sabias que eras mais um entre os tantos 

privados do seu tempo de meninos… 



Tu sabias, 

sabias como eu sei que vamos juntos 

contra as vivas marés dos desatinos… 



Tu sabias, 

sabias, como eu sei, 

que a gente cai e a gente se levanta… 



Tu sabias 

e sabes, como eu sei, 

que o canto da sereia não nos perde, 

não nos seduz, 

não nos encanta…. 





José-Augusto de Carvalho 
15 de Junho de 2019 
Alentejo * Portugal