segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Brasil


Texto de Frei Beto

A história do Brasil, vista pela ótica do governo, pode ser caracterizada pela alternância entre momentos de euforia e desalento. Assim ocorreu durante a ditadura militar, quando o “Pra frente, Brasil” enchia de ufanismo os arautos dos maquiados índices econômicos delfinianos e vangloriavam-se de obras como a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica, enquanto nos porões do regime borrifavam-se as paredes com sangue dos torturados e assassinados.Todos os governos pós-ditadura – Sarney, Collor, Itamar e FHC – exaltaram seus “milagres” econômicos, impondo à nação planos mirabolantes que jamais reduziram a miséria, promoveram a distribuiçãode renda e preservaram a soberania nacional.Lula evita tratamento de choque na economia, mas multiplica a riqueza do andar de cima, asfixia a classe média com o peso de impostos exorbitantes e faz de conta que ameniza a miséria dos beneficiários do Bolsa Família, incapazes de se emancipar da mesada oficial e produzir a própria renda.Nossos governos não têm estratégias, têm programas de euforia cíclica para mero efeito eleitoral. Não miram a história, olham o próximo pleito. No atual, a euforia cíclica começou com o Fome Zero, passou para a Campanha Nacional de Alfabetização, alardeou o lançamento do PAC, proclamou o fim da crise de energia, comemorou a auto-suficiência em petróleo (e nem por isso reduziu o preço da gasolina) e, agora, aclama Deus como brasileiro pela descoberta de inesgotável manancial de petróleo na bacia de Santos.Será mesmo que Deus é brasileiro? Quanto às nossas condições ambientais, estou convencido de que Ele, ainda que não seja brasileiro, sem dúvida privilegiou o nosso país: temos dimensões continentais e nenhuma catástrofe natural, como terremoto, furacão, ciclone, tornado, tufão, vulcão, deserto, geleira. A Amazônia ocupa 2/3 de nosso país e conserva 12% da água potável disponível no planeta, sem contar o vasto potencial do Aqüífero Guarani, ainda inexplorado no centro-sul do país. Produzimos todo tipo de alimentos e temos uma área cultivável de 600 milhões de hectares.Se o Brasil não é o Jardim do Éden a culpa não é de Deus, é dos políticos que elegemos e de nossa inércia diante do estrago que produzem, atuando em favor, não do povo, mas de seus interesses corporativos. Nossa abundante riqueza é injustamente distribuída. Saúde aqui é privilégio de quem dispõe de plano privado; a educação pública está sucateada; jamais conhecemos a reforma agrária; nossas cidades estufam-se de favelas; a desigualdade social é gritante; a violência urbana provoca mais vítimas por ano que a guerra dos EUA ao Iraque.Deus não pode ser culpado por nada disso. A culpa é de governos que prometem mudanças e, uma vez empossados, deixam tudo como dantes no quartel de Abrantes, restritos a políticas públicas eleitoreiras, incapazes de atacar as causas que promovem tamanhos desníveis sociais. Mudam-se governos, perenizam-se as estruturas injustas.Deus não tem nacionalidade nem religião, mas tem rosto. Está no capitulo 25 do evangelho de Mateus, versículos 31 a 46: “tive fome e vocês me deram de comer etc.” Quem vê o faminto, o desamparado, o enfermo, o migrante, enfim, o excluído, vê Deus. É neles que Deus quer ser visto, servido e cultuado.Nesse sentido, Deus pode ser visto e servido em qualquer lugar do Brasil, pois toda parte está repleta de gente com fome, desamparada, enferma etc. Deus não é brasileiro, mas esse contingente enorme de excluídos – cerca de 12 milhões de pessoas – é a mais singular imagem e semelhança de Deus, e neles Ele quer ser amado.Resta saber se estamos dispostos a reconhecer a presença de Deus, não apenas nos benefícios naturais, como poços de petróleo, mas sobretudo na face daqueles que, neste país, não escolheram nascer e viver como miseráveis e pobres, desprovidos de condições mínimas de acesso aos bens que asseguram ao ser humano dignidade e felicidade. Na loteria biológica, eles tiveram o azar de engrossar os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza ou, em termos financeiros, com renda mensal inferior a US$ 60.Se nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que nasceu, a loteria biológica é injusta e pesa sobre os premiados uma dívida social. Resta-nos assumi-la para que Deus seja de fato brasileiro: quando todos, enfim, tiverem direito ao “pão nosso” e, assim, proclamarem sem mentira que ele é “Pai/Mãe nosso”.


Notas:
1 --- Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros.
2 --- Carlos Alberto Libânio Christo O.P., conhecido como Frei Betto, (Belo Horizonte, 25 de agosto de 1944) é um escritor e religioso dominicano brasileiro, filho do jornalista Antônio Carlos Vieira Christo e da escritora e culinarista Stella Libânio. Professou na Ordem Dominicana, em 10 de fevereiro de 1966, em São Paulo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Hoy





Hoy,
no hay nubes en el cielo
y los aullidos del viento
se han perdido a lo lejos...

Hoy,
en los caminos vacíos,
ya se borraron las huellas
de caminares antiguos...

Hoy,
tan sólo los juglares
nos traen las profecías
de otros mundos más allá...



José-Augusto de Carvalho
4.2.2008
Viana*Évora*Portugal
Do livro em construção «AL ANOCHECER»
*

10 - JORNAL DE PAREDE * Assim vamos...

I
O escritor irlandês James Joyce nunca recebeu um prémio literário, foi ignorado pela crítica enquanto viveu e alguns dos seus livros foram proibidos em Inglaterra.
Morreu na Suiça, em 1941, quase na miséria.






II
Aqui, a justeza do rifão:
«Se queres ser bom, morre ou vai-te!...»

sábado, 23 de fevereiro de 2008

10 - JOR NAL DE PAREDE * Afirmação



Em Janeiro de 1998, Fidel Castro recebeu o Papa João Paulo II e lembrou-lhe:


"ESTA NOITE,
MILHÕES DE CRIANÇAS DORMIRÃO NA RUA,
MAS NENHUMA DELAS É CUBANA".

domingo, 17 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Ousada Incursão

Causa Nossa

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008


Intersindical

A recusa de adesão à Confederação Sindical Internacional e a hostilidade em relação à UE mostram que o PCP continua a manter um controlo absoluto sobre a CGTP.


[Publicado por Vital Moreira] [17.2.08] [Permanent Link]



Nota:

Sempre acompanhei com interesse o pensamento do Professor Doutor Vital Moreira. No texto que reproduzo, com a devida vénia, intuo uma crítica à posição da Intersindical.

Pois, inversamente, eu não vejo como o mundo laboral poderá algum dia confraternizar com o mundo do capital.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * O nosso fado


A glória maior da Literatura Portuguesa, Luís de Camões, no século XVI, fala, em «Os Lusíadas», d'esta apagada e vil tristeza.

O grande historiador Alexandre Herculano, no século XIX, exactamente em 1877, ano da sua morte, recebeu em sua casa, em Vale de Lobos, D. Pedro II, Imperador do Brasil. À pergunta deste sobre a realidade portuguesa, respondeu: Majestade, isto (Portugal) dá vontade de morrer.

No século XX, o grande poeta Miguel Torga escreveu em um dos seus diários: Nascer em Portugal é uma condenação.

Agora, no nosso tempo, somos nós, utentes do Serviço Nacional de Saúde, quem recebe do Ministério da Saúde, não uma carta amável recordando haver a saldar um pequeno débito de 2 euros e 10 cêntimos, mas uma velada intimação, com prazo e ameaça de recurso a Juízo.

É absolutamente lamentável que o governo deste país assim actue perante os cidadãos.

Ao cimo, a carta recebida, uma entre outras mais que são expedidas pelo zeloso Centro de Saúde de Viana do Alentejo.

10 - JORNAL DE PAREDE * A natural transitoriedade



Enquanto o desespero, resignado, jazia nas masmorras,
incapaz de descortinar as auroras boreais,

o poeta castrado chorava:
O meu cantar é tão doído, é um soluço
que embarga a minha voz...

O aprendiz de sábio afirmava,
do cimo da sua ignorância laureada:
--- Sempre houve ricos e pobres...

Os senhores do tempo e do espaço,
por detrás dos mastins
que noite e dia vigiavam, implacáveis,
embruteciam-se em báquicas orgias,
desafiavam fantasias pantagruélicas
e insultavam a decência e a inteligência
em obscenas irracionalidades...

O verbo do feitiço
imolava as presas em aras de sangue,
purificava o rebanho em piras incendiadas,
proclamava a diferença incensada
do poder e da servidão,
garantia a chave miraculosa de um mundo onírico
aos humilhados e ofendidos,
mas só depois da morte...

Sem poetas castrados,
sem aprendizes de sábios,
sem senhores nem mastins,
sem feitiço nem feiticeiros
do insondável mistério do ser e do não-ser,
bastante, a natural transitoriedade
conjugava o verbo existir
sem masmorras,
sem poetas castrados,
sem senhores nem mastins,
sem feitiços nem feiticeiros,
descortinando o devir incendiado
das auroras boreais...


José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Parábola intemporal

Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo. Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia. Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra :

--- Posso fazer três perguntas?

--- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.

--- Pertenço à tua cadeia alimentar?

--- Não.

--- Fiz-te alguma coisa?

--- Não.

--- Então porque é que me queres comer?

--- Porque não suporto ver-te brilhar!


E é assim .... que diariamente tropeçamos com cobras!
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Nota: Não conheço o autor do texto acima, mas ele não se importará, quero crer, que registe aqui a sua criatividade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

06 - ROMANCEIRO * El límite




La conquista del cielo es el límite

Hay un pájaro en su nido

al frío de la renuncia


Pajarito, pajarito

por qué no ganas alas

y no hieres el aire

hasta el lejano cielo


Hay una larga sonrisa

en las olas del sueño


Por qué tardas pajarito

si el cielo es el límite



José-Augusto de Carvalho
30.1.2008Viana * Évora * Portugal
Do livro em construção: «AL ANOCHECER»