segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

10 - JORNAL DE PAREDE * Conto de Natal



Conto de Natal
Maria e José na Palestina em 2010

por James Petras

Os tempos eram duros para José e Maria. A bolha imobiliária explodira. O desemprego aumentava entre trabalhadores da construção civil. Não havia trabalho, nem mesmo para um carpinteiro qualificado.
Os colonatos ainda estavam a ser construídos, financiados principalmente pelo dinheiro judeu da América, contribuições de especuladores de Wall Street e donos de antros de jogo.
"Bem", pensou José, "temos algumas ovelhas e oliveiras e Maria cria galinhas". Mas José preocupava-se, "queijo e azeitonas não chegam para alimentar um rapaz em crescimento. Maria vai dar à luz o nosso filho um dia destes". Os seus sonhos profetizavam um rapaz robusto a trabalhar ao seu lado… multiplicando pães e peixes.
Os colonos desprezavam José. Este raramente ia à sinagoga, e nas festividades chegava tarde para fugir à dízima. A sua modesta casa estava situada numa ravina próxima, com água duma ribeira que corria o ano inteiro. Era mesmo um local de eleição para a expansão dos colonatos. Por isso quando José se atrasou no pagamento do imposto predial, os colonos apropriaram-se da casa dele, despejaram José e Maria à força e ofereceram-lhes bilhetes só de ida para Jerusalém.
José, nascido e criado naquelas colinas áridas, resistiu e feriu uns tantos colonos com os seus punhos calejados pelo trabalho. Mas acabou abatido sobre a sua cama nupcial, debaixo da oliveira, num desespero total.
Maria, muito mais nova, sentia os movimentos do bebé. A sua hora estava a chegar.
"Temos que encontrar um abrigo, José, temos que sair daqui… não há tempo para vinganças", implorou.
José, que acreditava no "olho por olho" dos profetas do Antigo Testamento, concordou contrariado.
E foi assim que José vendeu as ovelhas, as galinhas e outros pertences a um vizinho árabe e comprou um burro e uma carroça. Carregou o colchão, algumas roupas, queijo, azeitonas e ovos e partiram para a Cidade Santa.
O trilho era pedregoso e cheio de buracos. Maria encolhia-se em cada sacudidela; receava que o bebé se ressentisse. Pior, estavam na estrada para os palestinos, com postos de controlo militares por toda a parte. Ninguém tinha avisado José que, enquanto judeu, podia ter-se metido por uma estrada lisa pavimentada – proibida aos árabes.
Na primeira barragem José viu uma longa fila de árabes à espera. Apontando para a mulher muito grávida, José perguntou aos palestinos, meio em árabe, meio em hebreu, se podiam continuar. Abriram uma clareira e o casal avançou.
Um jovem soldado apontou a espingarda e disse a Maria e a José para se apearem da carroça. José desceu e apontou para a barriga da mulher. O soldado deu meia volta e virou-se para os seus camaradas. "Este árabe velho engravida a rapariga que comprou por meia dúzia de ovelhas e agora quer passar".
José, vermelho de raiva, gritou num hebreu grosseiro, "Eu sou judeu. Mas ao contrário de vocês… respeito as mulheres grávidas".
O soldado empurrou José com a espingarda e mandou-o recuar: "És pior do que um árabe – és um velho judeu que violas raparigas árabes".
Maria, assustada com o caminho que as coisas estavam a tomar, virou-se para o marido e gritou, "Pára, José, ou ele dispara e o nosso bebé vai nascer órfão".
Com grande dificuldade, Maria desceu da carroça. Apareceu um oficial do posto da guarda, a chamar por uma colega, "Oh Judi, apalpa-a por baixo do vestido, ela pode ter bombas escondidas".
"Que se passa? Já não gostas de ser tu a apalpá-las?" respondeu Judith num hebreu com sotaque de Brooklyn. Enquanto os soldados discutiam, Maria apoiou-se no ombro de José. Por fim, os soldados chegaram a um acordo.
"Levanta o vestido e o que tens por baixo", ordenou Judith. Maria ficou branca de vergonha. José olhava para a espingarda desmoralizado. Os soldados riam-se e apontavam para os peitos inchados de Maria, gracejando sobre um terrorista ainda não nascido com mãos árabes e cérebro judeu.
José e Maria continuaram a caminho da Cidade Santa. Foram frequentes vezes detidos nos postos de controlo durante a caminhada. Sofriam sempre mais um atraso, mais indignidades e mais insultos gratuitos proferidos por sefarditas e asquenazes, homens e mulheres, leigos e religiosos – todos soldados do povo Eleito.
Já era quase noite quando Maria e José chegaram finalmente ao Muro. Os portões já estavam fechados. Maria chorava em pânico, "José, sinto que o bebé está a chegar. Por favor, arranja qualquer coisa depressa".
José entrou em pânico. Viu as luzes duma pequena aldeia ali ao pé e, deixando Maria na carroça, correu para a casa mais próxima e bateu à porta com força. Uma mulher palestina entreabriu a porta e espreitou para a cara escura e agitada de José. "Quem és tu? O que é que queres?"
"Sou José, carpinteiro das colinas do Hebron. A minha mulher está quase a dar à luz e preciso de um abrigo para proteger Maria e o bebé". Apontando para Maria na carroça do burro, José implorava na sua estranha mistura de hebreu e árabe.
"Bem, falas como um judeu mas pareces mesmo um árabe", disse a mulher palestina a rir enquanto o acompanhava até à carroça.
A cara de Maria estava contorcida de dores e de medo; as contracções estavam a ser mais frequentes e intensas.
A mulher disse a José que levasse a carroça de volta para um estábulo onde se guardavam as ovelhas e as galinhas. Logo que entraram, Maria gritou de dor e a palestina, a que entretanto se juntara uma parteira vizinha, ajudou rapidamente a jovem mãe a deitar-se numa cama de palha.
E assim nasceu a criança, enquanto José assistia cheio de temor.
Aconteceu que passavam por ali alguns pastores, que regressavam do campo, e ouviram uma mistura de choro de bebé e de gritos de alegria e se apressaram a ir até ao estábulo levando as suas espingardas e leite fresco de cabra, sem saber se iam encontrar amigos ou inimigos, judeus ou árabes. Quando entraram no estábulo e depararam com a mãe e o menino, puseram de lado as armas e ofereceram o leite a Maria que lhes agradeceu tanto em hebreu como em árabe.
E os pastores ficaram estupefactos e pensaram: Quem seria aquela gente estranha, um pobre casal judeu, que chegara em paz com uma carroça com inscrições árabes?
As novas espalharam-se rapidamente sobre o estranho nascimento duma criança judia mesmo junto ao Muro, num estábulo palestino. Apareceram muitos vizinhos que contemplavam Maria, o menino e José.
Entretanto, soldados israelenses, equipados com óculos de visão nocturna, reportaram das suas torres de vigia que cobriam a vizinhança palestina: "Os árabes estão a reunir-se mesmo junto ao Muro, num estábulo, à luz das velas".
Abriram-se os portões por baixo das torres de vigia e de lá saíram camiões blindados com luzes brilhantes, seguidos por soldados armados até aos dentes que cercaram o estábulo, os aldeões reunidos e a casa da mulher palestina. Um altifalante disparou, "Saiam cá para fora com as mãos no ar ou disparamos". Saíram todos do estábulo, juntamente com José, que deu um passo em frente de braços virados para o céu e falou, "A minha mulher Maria não pode obedecer às vossas ordens. Está a amamentar o menino Jesus".

 O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1831&more=1&c=1 . Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 18 de dezembro de 2011

10 - JORNAL DE PAREDE * Um texto excepcional de Frei Beto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'



Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.


Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?


Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...


A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.


O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.


Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...


Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...


Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...


"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

06 - ROMANCEIRO * Dezembro de 2011


Nas folhas do calendário,
os homens contam os dias
das contas deste rosário
que eu desfio e tu desfias…

Há dias de aniversário
e efémeras alegrias,
outros doendo o fadário
de angústias e litanias…

Em Dezembro estou agora.
Mais um ano que passou!
O inverno já não demora…

E o milagre nunca ousou
parar o tempo nesta hora
que Pedro depois negou…



José-Augusto de Carvalho
14 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

08 - CIDADANIA * Do relativismo...


Quando planeias por um ano, semeias o grão;

Quando planeias por dez anos, plantas árvores;

Quando planeias por uma vida inteira, formas e educas as pessoas.


Provérbio chinês.

08 - CIDADANIA * Ventos...


«Quando os ventos de mudança sopram,

umas pessoas levantam barreiras,

outras constroem moinhos de vento.»


Érico Veríssimo
Escritor brasileiro do Estado do Rio Grande do Sul

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

08 - CIDADANIA * O Largo (dito) de São Luís




Todos sabemos que os espaços urbanos públicos exigem embelezamento e que muitos são, por definição, áreas de convívio das populações em suas horas de lazer.
Aqui, em Viana, um espaço que poderemos, sem favor, qualificar de nobre é o Largo de São Luís. Encostado à muralha Sul do Castelo, logo um espaço soalheiro, nada tem que o dignifique. E é uma pena.
Também a sua designação toponímica dará que pensar. São Luís? Certamente São Luís de França, rei gaulês que morreu no Norte de África, ao tempo das Cruzadas. O porquê desta homenagem estará por justificar. Melhor seria, opino eu, ser Largo D. João II, o Príncipe Perfeito por vontade do Povo e que comprovadamente muito apreciava esta vila.
Ora pois, rever a toponímia, alindar devidamente o Largo, inclusive com um busto deste monarca, seria obra a exigir parco dispêndio.
Aqui ficam o reparo e a sugestão.
Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Viana, 12 de Dezembro de 2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

08 - CIDADANIA * Testemunho

    
Miguel Torga (1907-1995)


«(...)Desde que Portugal é Portugal que os seus homens de cultura desceram a terreiro nas grandes ocasiões. 1383, os Descobrimentos, o Liberalismo e a República tiveram a dar-lhes consciência e o corpo o melhor da inteligência do país. A própria Restauração se orgulha da sua literatura de resistência.(...)»


Miguel Torga
In Palestra, 1951.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

06 - ROMANCEIRO * Metamorfose



É quando a noite cai e o frio na lareira
descobre que sem lenha o fogo não se ateia,
que um grito de aflição assombra a pasmaceira
que anestesia há muito o povo desta aldeia.

E tocam a rebate os sinos da capela!
O burburinho cresce e vai de rua em rua.
E quem não vai, está olhando da janela
a vida que palpita e livre se cultua.

E corre o rapazio, ousando a sedução
de ser e de crescer nas asas da cantiga,
como o pião que roda e roda em sua mão
até parar feliz e exausto de fadiga!

E o frio se transmuta em fogo e ganha alturas,
instante a crepitar antemanhãs maduras!


José-Augusto de Carvalho
9 de Dezembro de 2010
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

06 - ROMANCEIRO * Exortação




Quebradas as amarras, sobre as águas
balouça, livre, a barca da esperança!
Não fiques mais carpindo dor e mágoas.
que só quem persevera é quem alcança.



Se perdição houver, que fique o gesto!
Perdido já está quem se rendeu.
Se bem que neste outono, aqui me apresto
a ser mais um Abril que floresceu...



Recuso-me a deixar a triste herança
dum solo pátrio exausto do milagre
que se renova em cada primavera!

Quem quer deixar morrer a esperança?
Que a força a resistir nos salve e sagre
enquanto a vida em nós se regenera!...






José-Augusto de Carvalho
7 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 3 de dezembro de 2011

09- IN MEMORIAM * Contra o esquecimento

02 - POESIA VIVA * España / Espanha

Miliciano - Guerra Civil de Espanha (1936-39)


España!

No hagas caso de lamentos
ni de falsas emociones;
las mejores devociones
son los grandes pensamientos.
Y, puesto que, por momentos,
el mal que te hirió se agrava,
resurge, indómita y brava,
y antes de hundirte cobarde
estalla en pedazos y arde,
primero muerta que esclava.

***
Espanha!

Não te importem os lamentos
nem as falsas emoções!
As melhores devoções
são os grandes pensamentos.
E se, mesmo por momentos,
o mal que te dói se agrava,
ressurge indómita e brava!
Em vez de um render cobarde,
estala em pedaços e arde,
que antes morta do que escrava.

*


Nota:
Poema atribuído a Federico García Lorca. Foi por mim traduzido em 1969 e publicado, na mesma altura, na República das Letras e das Artes, suplemento semanal do jornal diário República. Este suplemento era dirigido pelo Poeta Alfredo Guisado, que fora amigo de Fernando Pessoa e seu companheiro na aventura do Orpheu, em 1915.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * Os feriados

A questão dos feriados não poderá ser analisada com a leviandade que se anuncia e que prefigura uma ameaça grosseira à memória colectiva de um povo.

--- O 5 de Outubro não assinala, apenas, a implantação da República(1910); assinala, também, tanto quanto sei, a independência, no recuado século XII (1143);
--- O 1º. de Dezembro (de 1640) assinala a recuperação da independência perdida e não constitui qualquer afronta a Espanha;
--- O 14 de Agosto (de 1385), que deveria ser feriado e não é, vá lá a gente entender o porquê de tamanha desconsideração, assinala a manutenção da nossa condição de país independente;
--- O 10 de Junho assinala Camões e a pátria imortalizada n'Os Lusíadas;
--- O 25 de Abril (1974) assinala a recuperação da dignidade perdida.
Que querem matar, afinal?
Os nossos maiores coram de vergonha! É esta afronta que devemos ao seu denodo e à nossa identidade?
Indignado, aqui fica meu protesto.


José-Augusto de Carvalho
Viana (Évora)

Importante: Não se incluem no texto acima os feriados internacionalmente consagrados: o 1º. de Janeiro, o 1º. de Maio e o 25 de Dezembro, na certeza, se é que vivemos em tempo de certezas, de que não serão objecto de represália.
 
Nota: Desenho de José Dias Coelho, assassinado pela PIDE, n década de sessenta do século XX.

sábado, 26 de novembro de 2011

06 - ROMANCEIRO * O muro







Pedra a pedra, levantas o muro.
Tanto assim a discórdia apetece?
Deste lado do muro, depuro
cada dia que a vida amanhece.



Pinceladas de cor e feitiço
das manhãs a florir madrigais
na menina que atreve um derriço
e se esconde a mentir os seus ais…



E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…





Meio-dia! No sino da Igreja,
badaladas precisam as horas.
Uma açorda fumega na mesa.
Faltas tu! Por que tanto demoras?



E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…



Pela tarde, sufoca o braseiro
deste sol que encandeia e nos cresta.
Arrojado, quem é o primeiro
a gritar que este rumo não presta?



E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…



Num altar de esperança exaltante,
é a vida que grita e palpita
contra as iras do vento ululante
e bandeiras de fúria e vindicta…



E negando arrebois ao futuro,
pedra a pedra, levantas o muro…




 
José-Augusto de Carvalho
25 de Novembro de 2011.
Viana*Évora*Portuga

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

06 - ROMANCEIRO * Estes caminhos





Conheço ainda todos os caminhos

que cruzam estes campos malamados.

Aqui, eram mais densos os montados

e neles o temor fazia os ninhos…



Além, as limpas abrem horizontes

que foram já de pão e dura faina.

Ainda, abandonados, ermos montes

resistem ao torpor que não amaina.



No inverno, venta rijo e dói o frio.

No estio, o sol requeima sem piedade.

Deambula o tempo como um cão vadio

que, dócil, nem da fome já se evade…

 

E eu fico perguntando-me, obstinado,

que espero, aqui, inútil e parado?



 
José-Augusto de Carvalho
25 de Novembro de 2011.
Viana*Évora.Portugal

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * Humor

Aqui fica esta sugestão aos três da vida airada e à troika...


In Almanaque Bertrand, 1908

terça-feira, 22 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * A Crise


A lucidez é tanto mais necessária quanto mais difíceis são os tempos que vivemos. E difíceis são estes tempos! Os meios de comunicação social --- jornais, revistas, radiodifusão e radiotelevisão --- não nos dão tréguas. O diagnóstico está definido: crise!


E os responsáveis pela governação decidem enfrentá-la com medidas de grave austeridade: salários congelados; agravamento de impostos; perda de direitos; extinção de garantias, etc. Uma barbaridade!


Dizem alguns destes responsáveis ou seus afins que vivemos acima das nossas possibilidades e que é urgente corrigir tais excessos. Será assim?


Vejamos:


1- é reconhecido que mais de dois milhões de cidadãos vivem abaixo do limiar da pobreza;


2- é reconhecido que o desemprego vai nos 12% e com tendência para subir;


3- é sabido que o salário mínimo nacional é de 485 euros mensais;


4- diz o Instituto Nacional de Estatística, se a memória me não atraiçoa, que o salário médio é de 700 euros mensais.


Ponderando quanto antecede, quem vive, em Portugal, acima das suas possibilidades? Os dados objectivos demonstram estarmos perante uma falácia. Falácia mais grave por provir da área de quem tem a responsabilidade de determinar o nosso caminho colectivo.


É da sabedoria de todos nós a necessidade de analisar um problema. E essa análise começa por se tentar saber como surgiu e por que surgiu o problema. Causado por algum cataclismo natural ou por alguém? É fundamental conhecer-lhe a(s) causa(s) e, depois, combater-lhe os efeitos.


Um dado adquirido é o de que não foi o Povo Português quem provocou a crise e nem qualquer cataclismo natural. Assim sendo, por que motivo o Povo Português é convocado a pagar por um erro que não cometeu?


Os senhores da governação sabem disto e muito bem, mas a única solução que sabiamente encontram e impõem é a do castigo do inocente, logo a da impunidade do prevaricador.


Na área do Poder e fora dela há quem aponte outros caminhos. Debalde. Uma maioria acrescida, só porque legitimada pelo voto popular, considera legítimo sacrificar o Povo Português. Um desaforo!




José-Augusto de Carvalho
17 de Novembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 12 de novembro de 2011

02 - POESIA VIVA * António Machado * EL CRIMEN FUE EN GRANADA

António Machado
Sevilla, 26.7.1875 - Collioure, Francia, 22.2.1939

*****

EL CRIMEN FUE EN GRANADA

   * ** A FEDERICO GARCÍA LORCA ***

5.6.1898-18.8.1936

1. El crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
—sangre en la frente y plomo en las entrañas—
... Que fue en Granada el crimen
sabed —¡pobre Granada!—, en su Granada.


 2. El poeta y la muerte

Se le vio caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
—Ya el sol en torre y torre, los martillos
en yunque— yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
«Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!»


3.
 
Se le vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!


Antonio Machado

terça-feira, 8 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * O Conselho de Estado


Aceitando como exactos os dados obtidos em consulta efectuada na Internet, aqui os transcrevo:


REGIMENTO DO CONSELHO DE ESTADO

CAPÍTULO I

Natureza e composição

Artigo 1.º

(Definição)

O Conselho de Estado é o órgão político de consulta do Presidente da República.


Artigo 2.º

(Composição)

O Conselho de Estado é presidido pelo Presidente da República e composto pelos seguintes membros:

a)- O Presidente da Assembleia da República;

b)- O Primeiro-Ministro;

c)- O Presidente do Tribunal Constitucional;

d)- O Provedor de Justiça;

e)- Os presidentes dos governos regionais;

f)- Os antigos presidentes da República eleitos na vigência da Constituição que não hajam sido destituídos do cargo;

g)- Cinco cidadãos designados pelo Presidente da República pelo período correspondente à duração do seu mandato;

h)- Cinco cidadãos eleitos pela Assembleia da República, de harmonia com o princípio da representação proporcional, pelo período correspondente à duração da legislatura.


Não considero passíveis de contestação os textos das alíneas a a f.


Quanto à alínea g, permito-me discordar das opções presidenciais, as quais, na minha modesta opinião de cidadão, deveriam contemplar representações das Centrais Sindicais e Associações Patronais, pela relevância nacional que se lhes reconhece.

Quanto à alínea h, não consigo entender como não estão representados no Conselho de Estado todos os Partidos com assento parlamentar. E porque as ausências que se verificam decorrem da votação dos Partidos maioritários, fica claro que estes se permitem excluir os demais do Conselho de Estado como se este fosse propriedade sua.

Os meus cumprimentos.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

08 - CIDADANIA * Posição

A minha identificação incondicional com o Homem de todas as latitudes, independentemente do credo, da cor, da raça, não me cerceia o dever de dignificar a minha condição de cidadão português e a língua portuguesa.
Serei modesto em conhecimentos, eu sei. Nem estou aqui pretendendo competir nesse campo ou noutros e muito menos pretendendo ensinar seja o seja. Estou aqui, sim, para verberar todos aqueles que supõem ter o poder de impor, em Portugal, qualquer língua estrangeira como meio de comunicação nacional.
Dizia o Poeta Fernando Pessoa: «A minha pátria é a língua portuguesa.» E eu subscrevo, sem reservas, esta sua afirmação, não por ser dele, mas por a considerar certa.
E esta minha postura em nada colide com a aprendizagem de outras línguas, aliás bem necessária nestes tempos de hoje. Atribuir-me tamanho desaforo é confundir as coisas. Evidentemente que há responsáveis por esta tentativa de menorização da língua portuguesa, a começar por alguns políticos, alguns comentadores e por aí adiante…Muitos homens grados do passado, de Luís de Camões ao padre António Vieira, por exemplo, se revolverão no túmulo, indignados. E também, no presente, muitos homens de mérito corarão de vergonha. Sei não estar sozinho ao subescrever estas linhas.
José-Augusto de Carvalho
4 de Agosto de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 29 de outubro de 2011

08 - CIDADANIA * Manifesto pela Vida


É um imperativo de consciência juntar a minha voz à de todos os que proclamam os direitos inalienáveis da Vida.

Atentar contra os direitos inalienáveis da Vida é atentar contra a Vida.

Quem permite que atentem contra os direitos inalienáveis da Vida, é cúmplice nesses atentados.

Quem se alheia dos atentados contra os direitos inalienáveis da Vida, é cúmplice nesses atentados.

Quando estão em causa os direitos inalienáveis da Vida, não há neutralidade possível: ou estamos pela Vida ou contra a Vida.

Todos, sem excepção, somos responsáveis sempre que são violados os direitos inalienáveis da Vida.

José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal













domingo, 23 de outubro de 2011

10 - JORNAL DE PAREDE * Halloween - de "Cartas de uma Judia a um Pastor"

Caro Pastor,

Em seu sermão, você falou nos males de se comemorar Halloween. Isto me fez lembrar de algumas coisas.
Natal é o Solstício de Inverno, uma festa nórdica pagã. Para apaziguar e satisfazer o povo, a Igreja comprometeu as profecias escritas na Bíblia, erradicou diversos de seus livros (agora considerados "Apócrifos"), e promoveu a maior fraude de todos os tempos: o Natal, inclusive com Iggdrasil, a árvore eternamente verde da mitologia nórdica.
Amigo, se formos erradicar cada festividade pagã de nosso calendário, vamos lá – comecemos por aqui mesmo, erradicando o Natal.
Para começo de conversa, de acordo com as Escrituras, tanto judias quanto cristãs, Jesus teria que ter nascido em outubro, durante as festividades de Succot (a Festa dos Tabernáculos), quando os pastores ainda podiam estar “nos campos com as ovelhas”. Em dezembro, amigo, nem mesmo o pastor mais lunático estaria fora à noite, em campos cobertos de neve. Muito menos ovelha!
Como você pode ver, se vamos ser exatos, cortemos o Festival de Inverno do Natal, com seus bonecos loiros representando um Jesus nórdico, em um Festival nórdico de orgia invernal.
Cortemos também a Páscoa, já que estamos cortando tudo, porque ela não tem nada a ver com o histórico bíblico da ressurreição do Cristo, que aconteceu três dias depois do Shabbat, portanto numa quinta-feira, logo após a Passover que, naquele ano, caiu bem no Shabbat. É só estudar os festivais através dos séculos, e tem-se a data.
Vamos também dar um fim ao Dia de Ação de Graças - Thanksgiving -, que comemora o fim, sem nunca ter havido um começo, da boa vontade dos Peregrinos recém-chegados ao Novo Continente, para com os nativos americanos. Logo depois disto, eles começaram a roubar a terra deles, matando-os e destruindo suas tradições – tudo em nome de fazer para si mesmos um lugar onde pudessem ser livres para “adorar a Deus”...
Vamos nos livrar também do Dia da Bandeira, Dia do Soldado, Dia da Descoberta da América... ora, todos os feriados, já que eles, todos eles, sem nenhuma exceção, comemoram a vitória de um grupo, com a destruição de outro.
Agora voltemos ao Halloween, Dia das Bruxas, que deu início a tudo isto. Ele existe? Sim. É o Dia dos Mortos, no qual, aqui no Brasil e em muitos países, as pessoas vão aos cemitérios honrar seus parentes falecidos. E por que não? Abraão honrou o local onde Sara fora enterrada. José honrou seus próprios ossos, e ordenou que fossem levados à Terra Prometida. Segundo o Novo Testamento, Jesus foi colocado na tumba de um homem rico. Honrar os mortos com um dia especial não tem nada a ver com o mal. O que há de errado nisto?
Deixe que as crianças brinquem, meu amigo. Exorcizemos Halloween, fazendo com que flores cresçam onde descansam cinzas. Por que lutar com medo contra o que se vê como sendo o mal? Encaremos nossos medos! Deus fez cada um dos dias. “Este dia foi feito pelo Senhor. Vamos nos regozijar e ser felizes nele.” Salmos 118:24.
Deixe que as crianças se fantasiem, brinquem, comam doces: cada dia pertence ao Senhor, deixe-os se regozijarem e serem felizes nele. Até mesmo o Novo Testamento diz, em Tito 1:15: “Para o puro todas as coisas são puras, mas para os impuros e descrentes, nada é puro; mas até a mente e a consciência deles está corrompida.”
Bom. Agora que você está completamente horrorizado, e perguntando-se de onde fui tirar todas estas idéias, deixe-me contar-lhe: é sempre bom basear sua fé em fatos reais. Até mesmo o Cristo – ele baseou suas obras e suas palavras no que Deus já havia feito aos judeus, e não nos temores do povo. Ele rompeu todas as regras, mantendo apenas o essencial: pureza e amor – que são os atributos de Deus.
Tudo o mais é somente isto, meu amigo: tudo o mais...


Dalva, inutilmente abrindo a boca

₢ Dalva Agne Lynch


30 de Outubro de 1998.

Site oficial da autora: http://www.dalvalynch.net
Endereço da autora na Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA):
http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1158