sábado, 27 de dezembro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Feliz Natal!

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história



FELIZ NATAL aos infelizes cativos do desapreço ao próximo, da irremediável preguiça de amar, do zelo excessivo ao próprio ego. E aos semeadores de alvíssaras, aos glutões de premissas estéticas, aos fervorosos discípulos da ética.
Feliz Natal ao Brasil dos deserdados, às mulheres naufragadas em lágrimas, aos escravos do infortúnio condenados à morte precoce. E aos premiados pela loteria biológica, aos desmaquiadores de ilusões, aos inconsoláveis peregrinos da vicissitude.
Feliz Natal aos órfãos do mercado financeiro, pilotos de vôos sem asas e sem chão, fiéis devotos da onipotência do mercado, agora encerrados no impiedoso desabrigo de suas fortunas arruinadas. E também aos lavradores da insensatez espelhada na linguagem transmutada em arte.
Feliz Natal às lagartas temerosas de abandonar casulos, ao desborboletear de insignificâncias cultivadoras de ódios, aos exilados na irracionalidade do despautério consensual. E aos dessedentados na saciedade do infinito, no silêncio inefável, nas paixões condensadas em prestativa amorosidade.
Feliz Natal a quem escapa dos indomáveis pressupostos da lógica consumista, dessufoca-se em celebrações imantadas de deidade, livre do desconforto da troca compulsória de presentes prenhes de ausências. E aos hospedeiros de prenúncios do leque infinito de possibilidades da vida.
Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta, e coleciona no espírito aquarelas do arco-íris. E a quem trafega pelas vias interiores e não teme as curvas abissais da oração.
Feliz Natal aos devotos do silêncio recostados em leitos de hortênsias a bordar, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura. E a quem arranca das cordas da dor melódicas esperanças.
Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e carregam no peito a saudade do futuro. Também a quem mergulha todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identifica a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança.
Feliz Natal aos dançarinos embalados pelos próprios sonhos, ourives sapienciais das artimanhas do desejo. E a quem ignora o alfabeto da vingança e não pisa na armadilha do desamor.
Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas a quebrar convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.
Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas para atirá-los no lixo do olvido e se guarda no recanto da sobriedade. E a quem se resguarda em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.
Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar.
Feliz Natal aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores, aos escritores sem palavras. E a quem jamais encontrou a pessoa a quem declarar todo o amor que o fecunda em gravidez inefável.
Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove despudorada liturgia eucarística, transubstancia o corpo em copo, inunda-se do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.
Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão, bordam toalhas de cumplicidades, secam lágrimas no consolo da fé, criam hipocampos em aquários de mistério.
Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia se pronunciar onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a quem voa inebriado pelo eco de profundas nostalgias e decifra enigmas sem revelar inconfidências; nu, abraça epifanias sob cachoeiras de magnólias.
Feliz Natal a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e, nos salões da Via Láctea, bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas. Queira Deus que renasçam com o menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.

Frei Beto

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor, é autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
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Carta o berro
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Condor






Advogado Martín Almada
propõe a “globalização da prestação de contas das ditaduras”.

ANA MARIA MEJIA
anamaria@agenciaamazonia.com.br


BRASÍLIA – O sistema Condor de repressão que vigorou nas ditaduras nos anos 1960, 1970, ultrapassou os anos 1980 e suspeita-se que ainda se mantenha, deve prestar contas ao mundo. A manifestação feita pelo advogado paraguaio Martín Almada em Brasília foi o mais forte manifesto feito este ano em defesa da abertura de todos os documentos secretos das ditaduras militares sul-americanas. Segundo Almada, isso facilitaria às vítimas ou a seus parentes comprovar os crimes de tortura, a troca de prisioneiros e a sintonia entre as ditaduras para tirar de circulação quem ousava contestá-las. “São relatórios que comprovam o envolvimento da própria diplomacia numa rede de suborno, delações e muita violência”, afirmou. A Ordem dos Advogados do Brasil ingressou no Supremo Tribunal Federal com uma ação para que a Corte decida se a legislação brasileira de anistia beneficia ou não as pessoas – civis e militares – que praticaram crimes de tortura durante a ditadura militar. Só o Supremo irá dizer se crimes praticados há mais de 20 anos prescrevem ou não.
Irônico, o Prêmio Nobel Alternativo da Paz em 2002, defendeu a globalização da prestação de contas das asas do sistema Condor que uniu militares do Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Bolívia, Peru e Chile, sob a coordenação do então ditador paraguaio Alfredo Stroessner e com apoio decisivo dos Estados Unidos para perseguir, prender e torturar cidadãos desses países sobre os quais houvesse qualquer desconfiança de serem contrários aos regimes militares.

Seminário sobre Direitos Humanos pede justiça contra vítimas das ditaduras
JORGE CAMPOS
100 mil vítimas

Estima-se que 100 mil pessoas foram vítimas dessa operação. Ele diz ainda que o ex-ditador boliviano Hugo Banzer era a segunda cabeça e de quem partiu a idéia de introduzir esse modelo na Europa. Não há mais como negar a existência da violenta ação repressiva que se intensificou nos anos 1970, coordenada entre governos, com a participação da iniciativa privada.
Almada se ofereceu para depor num tribunal ou perante um juiz e apresentar documentos para oficializar a existência dessa operação no Brasil. Entre eles, a lista detalhada de religiosos estrangeiros que viviam no Paraguai, com respectivas ordens e tempo de residência, relatos de prisão e deportação de “subversivos” brasileiros, bolivianos, uruguaios e argentinos.
Os papéis mostram rotas dos deslocamentos de líderes, militantes ou simpatizantes de partidos de esquerda, e atas das conferências bilaterais de Inteligência entre os exércitos do Paraguai e do Brasil, em cujo ventre foi concebida e formalizada a operação. Descrevem treinamentos para torturar sem matar, prisões simultâneas, troca de prisioneiros e o envolvimento de autoridades diplomáticas numa rede de suborno, delações e crimes contra pessoas.
O atual clima democrático abre espaço ao diálogo entre sociedade civil e Forças Armadas. Ambos teriam sabedoria para entender que também houve militares vítimas de atrocidades.

Elba de Goiburú, mulher do médico Agustín Goiburú,
morto pela ditadura Stroessner / ABC COLOR
Anistia e punição

Logo após recuperarem a democracia, os países aprovaram diferentes leis que pretendiam principalmente esconder e proteger os envolvidos em desaparecimentos, tortura, seqüestro – inclusive de crianças – e mortes. Ainda hoje não se sabe quantas famílias não puderam chorar seus entes queridos. Mãe de três filhos agora adultos, Elba Elisa Benítez de Goiburú, mulher do médico Agustín Goiburú do Movimiento Popular Colorado (Mopoco), que está desaparecido desde1977, lamenta a impunidade e injustiça.Goiburú foi preso por não assinar atestado de óbito informando terem “causa natural” mortes provocadas por torturas. A ética lhe valeu o ingresso na lista dos subversivos, a prisão e o conseqüente desaparecimento depois de ter sido capturado na província de Entre Rios, Argentina.A legislação brasileira – anistia para a paz – beneficiou os torturadores, os que atuaram nos porões da ditadura e provocaram a dor, a amnésia e a degradação da nação brasileira. Atribui-se aos parlamentares parte da culpa pela atual resistência em se abrir os arquivos. Ao aprovar a Medida Provisória 228/2004, eles entregaram ao Poder Executivo o poder de definir o prazo no qual os arquivos poderiam, ou não ser divulgados.

Crime contra a Humanidade

Em 1991, o tempo estabelecido foi de 30 anos, podendo ser prorrogado por mais 30 anos “...informações que dizem respeito a integridade nacional”. O Comitê de Averiguação ligado ao gabinete civil da Presidência da República poderia estabelecer prazo “sine die” (indefinido) para abrir esses arquivos. Hoje, a saída é o próprio Congresso Nacional apresentar projeto de lei para rever essa mesma Lei.
Segundo o presidente da Câmara Nacional de Apelações no Tribunal Criminal de Buenos Aires, Eduardo Freiler, a Argentina prendeu todos os comandantes vivos que atuaram na sua ditadura (1976-1983). No entanto, isso não teria ocorrido se não houvesse um forte compromisso das organizações de direitos humanos na Argentina, entre as quais as célebres Mães da Praça de Maio.
Ouviu-se no auditório o mea-culpa. Para a procuradora da República em São Paulo, Eugênia Fávero, “a Argentina compreendeu e aceitou o conceito de crime contra a humanidade, o que ainda não ocorreu no Brasil”. Ela disse temer que juízes argentinos julguem criminosos brasileiros ou que o Brasil passe a receber criminosos argentinos. “É que aqui há refúgio para eles”.
Na Venezuela é diferente, explicou a promotora de Justiça do Ministério Público daquele país. Lá, a imprescritibilidade de crimes contra os direitos humanos está prevista na Constituição e as pessoas responsáveis por esses delitos não têm direito a anistia ou indulto.


Martín Almada viveu o terror da ditadura paraguaia em 1975 / ABC COLOR
Almada descobre papéis guardados na periferia de Asunción

BRASÍLIA – Sob acusação de terrorista intelectual em 1974, por aplicar o método de educação do brasileiro Paulo Freire, o paraguaio Martín Almada ficou três anos preso. Depois de castigado no "Sepulcro dos Vivos", como era chamado o Comissariado Terceiro, fez greve de fome de 30 dias e foi libertado em setembro de 1977. Exilou-se no Panamá, e nesse período assumiu o cargo de consultor para América Latina pela Unesco (1978/1992).
Em três de fevereiro de 1989 caiu no Paraguai a ditadura militar do general Alfredo Stroessner e a Constituição contemplou a figura jurídica do hábeas data, pela qual "toda pessoa tem direito a ter acesso a informação e aos dados sobre si mesma". Almada queria detalhes sobre a morte da esposa, a educadora Celestina Perez e também quais as acusações contra ele. Recorreu à Justiça pedindo que a Polícia fornecesse seus antecedentes e para sua surpresa, a Polícia então nega a existência deles.
Pediu a abertura do Arquivo da Polícia, fato noticiado pela mídia e pouco depois recebeu um telefonema de uma mulher que lhe informou candidamente: "Professor Almada, seus papéis não estão na Central de Polícia, mas sim nos arredores de Asunción". Desconfiado, o professor a convida para ir a seu escritório na sede da Fundação Celestina Perez. Uma hora depois ela apresenta um plano. Almada levou-o ao juiz José Agustín Fernandez, condutor do recurso de hábeas data que decidiu abrir o Comissariado de Lambaré, a 10 quilômetros do centro da capital paraguaia. Isso foi em 22 de dezembro de 1992. Havia toneladas de documentos.
Ele soubera do sistema Condor logo depois de ter sido seqüestrado pela Polícia Política de Stroessner e levado a um Tribunal Militar integrado pelos adidos militares de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Uruguai, além de militares e políticos paraguaios. Trinta dias depois de ter seu crime tipificado como terrorista intelectual foi transferido para o Comissariado Primeiro, sede da Interpol. “Soube então que estava no ventre do Condor, quando um comissário preso por não delatar o filho me recomendou – se eu saísse vivo – que lesse a Revista Policial do Paraguai; nela estava tudo sobre o Condor”. Era o período abril-maio de 1975. A Operação Condor foi criada em fins de novembro/dezembro daquele ano. (A.M.M.)

Da lista de 146 criminosos, 14 são brasileiros
Brasil abriga 14 dos 140 torturadores / GUSTAVO MORENO

BRASÍLIA – Voz pausada, suave, o procurador da República Italiana Giancarlo Capaldo defendeu o livre acesso aos documentos que relatam essa história. Inicialmente, ele recebeu a missão de investigar o assassinato e o desaparecimento de 25 cidadãos italianos na ditadura argentina e viu as ações da repressão se estenderem por todo o continente latino-americano, com ramificações na Europa.
“O mundo precisa ter acesso aos documentos que estão sob minha custódia”, afirmou. “São declarações, testemunhos, dramas que envolveram centenas de pessoas, estratégias de torturas para se obter resultados, uma forma clara de se ver o que o homem pode fazer ao próprio homem, como instrumento de maldade”, desabafou.
Ao final da investigação, Capaldo pediu a prisão e julgamento para 146 pessoas acusadas de cometer crimes em todos os países da América Latina, dos quais 14 autoridades brasileiras. Há ordens de prisão e extradição contra 61 argentinos, 32 uruguaios, 22 chilenos, sete bolivianos, sete paraguaios e quatro peruanos.
Capaldo caracterizou o sistema Condor como “complexo, bem concebido, que utilizava todo o aparato militar dos países envolvidos e nos anos 1980 pretendeu estender sua atuação para países europeus”.
Em conjunto com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Pompeo de Matos (PDT-RS) e do Comitê de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados da Itália, Fúrio Colombo, Capaldo concordou com os termos de um acordo de cooperação para a troca de informações sobre a Operação Condor, a exemplo da morte do ex-presidente João Goulart, ainda não esclarecida.Na lista dos acusados estão o ex-presidente da Argentina Jorge Rafael Videla, o ex-almirante argentino Emilio Eduardo Massera e o ex-presidente uruguaio Juan María Bordaberry. O uruguaio Nestor Jorge Fernandez Troccoli, de 60 anos, foi preso na cidade de Salermo, no sul da Itália. Troccoli morava na cidade há anos. (A.M.M.)

SAIBA MAIS

● Em 1976 funcionava no Brasil o "Plano de Busca Externa", criado dez anos da Operação Condor e conduzido pelo Centro de Informações Externas do Ministério das Relações Exteriores. Na Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR), funcionava um serviço secreto que vigiava e entregava aos seus países acusados de subversão.

● Rodolfo Mongelós Leguizamon, perseguido duplamente pelas ditaduras brasileira e paraguaia, foi preso na década de 1970 em Foz do Iguaçu e levado para a Ilha das Flores (RJ). Perdeu tudo. Ele é um dos estrangeiros na lista dos que pediram indenização à União, no Brasil. Foi vítima da Operação Condor, juntamente com o jornalista Aluízio Palmar, o ex-senador paraguaio Aníbal Abate, o paraguaio César Cabral e Alejandro Stumps. Todos se exilaram no Paraná.

● O coordenador da ONG Tortura Nunca Mais, o ex-preso político Narciso Pires, apresentou abaixo-assinado pedindo a punição dos torturadores. O documento foi enviado ao presidente Lula e aos presidentes do Supremo Tribunal Federal e da Câmara dos Deputados.


● O procurador José Adércio Leite Sampaio defende a tese da inconstitucionalidade da Lei 11.111/05, que trata do acesso público aos arquivos ditatoriais. Segundo ele, essa lei estabelece obstáculos que, na prática, impedem o acesso aos registros. “Ela representa um cheque em branco passado ao Executivo, uma delegação absurda de atribuições que, pela Constituição vigente, seriam próprias do Congresso Nacional”.

● João Vicente Goulart, filho do ex-presidente brasileiro João Belchior Marques Goulart, lembra que a confissão de um ex-agente da antiga ditadura uruguaia, hoje preso no Brasil, mostra que seu pai foi assassinado por meio de uma troca criminosa de medicamentos. Ele cobrou informações ao senador Romeu Tuma (PTB-SP), a quem pediu que “se desprenda do seu passado e explique o que de fato ocorreu naqueles anos”. ●
Ao lado dos delegados Sérgio Paranhos Fleury e Alcides Saldanha (ambos falecidos), Tuma comandou Operação Bandeirantes (Oban), no Estado de São Paulo, com ramificações no Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Mato Grosso. Suas ações repressivas resultaram em com seqüestros, torturas e mortes de presos políticos.
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

05 - REFLEXÕES * Direitos e deveres

Já aqui afirmei, e agora o reitero, que sou um cidadão versado em coisa nenhuma. O que sei, aprendi-o nas encruzilhadas da vida, comendo, aqui e ali, o pão que o diabo amassou. Não tenho, pois, quaisquer títulos académicos que me autorizem a falar de cátedra. Falarei, portanto, no rés-do-chão da vida, com os pés bem assentes na calçada da rua. E sem retórica.

O desemprego é um problema que afecta o país, logo, o Povo/País que somos todos nós. E continuará presumivelmente a aumentar se se agravar a crise de que todos falam. E ainda que não aumente, a percentagem existente de desempregados já chega e sobeja para nos preocupar.

Outra questão, será vivermos em democracia. E democracia é, como sabemos, termos um Estado assente na vontade popular, ao serviço de todos os cidadãos, todos eles iguais em direitos e deveres.

Estabelecidos os pressupostos, não fica claro o conflito que se manifesta, com frequência, opondo quem trabalha ao Ministério do Trabalho.

Alguns entendidos dizem do cimo das suas cátedras que sem empregadores (vulgo patrões) não haverá trabalho. Claro que sabemos que não é assim. E esses entendidos também o sabem. Os tais empregadores constituem a iniciativa privada, nada mais.

Mas há mais vida e trabalho para além da iniciativa privada. Há o Estado, há a propriedade social, há o cooperativismo, etc.

Ocupando-nos agora dos trabalhadores que têm o Estado por entidade patronal, qualquer situação de conflito que surja --- e como surgem! --- colocará em causa a democracia. Porque é incompreensível tal conflito, a não ser que qualquer das partes esteja colocando em causa os direitos e deveres democráticos. E se assim for, a Constituição da Republica estará a ser ferida, o que não deve nem pode suceder.

Também sabemos que os empregadores (vulgo patrões) nivelam os salários que pagam pelos salários que o Estado paga.

Mais sabemos ainda que o salário mínimo nacional é fixado pelo Estado, exactamente para evitar alguma distracção dos empregadores.

Aqui chegados, é-nos possível concluir que o Estado tem poder quer para se sobrepor à iniciativa privada, quer para a ela se substituir na criação da riqueza e na garantia dos direitos e deveres dos cidadãos. E não estamos pretendendo senão responsabilizar o Estado pela violação desses direitos e deveres.

E, para finalizar, haverá que ponderar devidamente a postura dos empregadores, que será obviamente antidemocrática se atentar contra os supracitados direitos e deveres de todos os cidadãos.

Disse.


Gabriel de Fochem

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

05 - REFLEXÕES * Os arrependidos

É frequente termos notícia de arrependidos. Tão frequente, que nos faz sorrir. Agora, é este que fez o que não devia e se confessa arrependido do seu malfazer. Há pouco, era aquele que reconheceu ter malapoiado isto ou aquilo.
Esta vaga faz-me lembrar o perdoa-me, o tal malamanhado programa televiso que andou por aí...
Não contesto o arrependimento, mas fico perplexo com tão elevado número de pessoas fazendo o que não deve.
Na res publica, então, é demais!
E pergunto-me da possibilidade tão frequente de se agir indevidamente, sabendo nós que a tal arte de governar a res publica implica decisões e que essas decisões têm custos. E pergunto-me, porque sustento que a responsabilidade não é uma palavra vã. E que quem assume uma responsabilidade tem o dever de responsavelmente agir, devendo sofrer as consequências no Direito aplicáveis se frustrar as expectativas sem uma justificação plausível.
Os destinos da vida colectiva não são um balão de ensaio onde uns quantos aprendizes de feiticeiro se comprazem em experiências e aprendem com os erros que cometem e os outros sofrem, às vezes irremediavelmente.
Sustento que, tal como na Medicina, os candidatos à governação --- seja qual seja o patamar da dita --- deverão ser obrigados a um juramento com a extensão e a responsabilidade-dever do Juramento de Hipócrates. E que do Direito terão de constar, sem ambiguidades, as penas aplicáveis aos infractores.
Se vivemos em Democracia, é indispensável que esta mesma Democracia se defenda de quem a maltrata. E isto porque significando Democracia o Poder do Povo, logo o Povo no Poder, através dos seus representantes eleitos, será impensável que o Povo se autoflagele.
Disse.
Gabriel de Fochem

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04 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A visita


Sagres: Navegar é preciso


Naquele dia, fui saudar o promontório.
Um dia que tardou na minha sede antiga.
Levei-lhe, no ondular dolente duma espiga,
anseios deste pão salgado e merencório.

No longe que entrevi, sem barcos e vazio,
numa apagada e vil tristeza que Camões
fixou num estertor de angústia, morte e frio,
apenas um sem fim rendido de aflições.

Do mar chegavam sons vestidos de gemidos.
Trazia a maresia um cheiro a náusea e morte.
Distante e todo azul, um céu de indiferença.

Ali, pregado ao chão, vergados os sentidos,
olhando já sem ver, o nítido recorte
da pátria por haver, das nossas mãos suspensa...



José-Augusto de Carvalho
3 de Dezembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal
Memória da ida a Sagres, em 1964.
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In «Do Mar e de nós», 2009

domingo, 30 de novembro de 2008

06 - ROMANCEIRO * Nunca mais!





Agora vou e nunca mais hesito.
Agora vou rasgar o meu caminho.
Agora vou abrir ao infinito
as grades da gaiola deste ninho.

Irei além de mim e do interdito,
gritando que este mundo em desalinho,
ainda que sufoque este meu grito,
terá de abrir à Vida outro caminho!

Não mais os campos nus e abandonados!
Não mais aneis em volta da cidade
onde vegeta a fome e os deserdados!

Não mais um mar vazio de ansiedade
e barcos à deriva naufragados,
apodrecendo aos pés da indignidade!




José-Augusto de Carvalho

29 de Novembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal



quarta-feira, 26 de novembro de 2008

06 - ROMANCEIRO * Fadário




Sal e azar foi a comida

que existia para mim
e que depois foi mantida
na espelunca do delfim.


Depois, comi como gente,

mas foi sol de pouca dura...
E hoje não sei se sou gente
ou uma cavalgadura!


Aves, ovinos... -- que praga! --

foram mais outros azares.
De sabor a povo, a vaga
era gasosa... só ares!


E no fim da minha estrada,

quem quer por verdade, agora,
a sentença requentada
de que só mama quem chora?



José-Augusto de Carvalho

Viana * Évora * Portugal
(In baú do esquecimento)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

06 - ROMANCEIRO * No cais da solidão




A chaga aberta dói e sangra tanto,

ainda que no tempo passem anos!...
Do chão do nada, a custo já levanto
a safra de aflições e desenganos.

No peito, o coração, teimando, bate!...
Teimando, bate, bate, e não se cansa!
Nem dor nem desalento o sonho abate
dos cravos desta pátria em esperança!...

Dos fastos e desastres, a memória
de um povo erguendo a pátria à dimensão
da gesta humana em páginas de História!...

E neste cais de outono e solidão,
que fado nos impede agora a glória
de ousar no pátrio chão mais um padrão?



José-Augusto de Carvalho

24 de Novembro de 2008.
Viana * Évora * Portugal

domingo, 23 de novembro de 2008

05 - REFLEXÕES * O homem do leme


Quem viveu os dias sombrios do salazarismo e neles, sob ameaças e medos e angústias e sobressaltos, se ganhou em acções perspectivadoras de primaveras prenhes de anseios e dias de claridade, saberá do que falo.

Alerta, a delacção, aquartelada a cada esquina. Doía vivermos um tempo em que até desconfiávamos da própria sombra. Acabrunhávamo-nos a cada notícia que passava as malhas da censura, quase sempre através das rádios de além-fronteiras.

Vivíamos num país onde se queria que nada acontecesse. E tanto assim era para tantos, que é vulgar ouvirmos os incautos dizerem, hoje, ainda, que antes não havia tantos problemas como os que a Informação falada e escrita agora noticia.

Com a Revolução dos Cravos, chegou a liberdade de expressão e de associação. Finalmente, vivíamos em Liberdade. Da noite da opressão, saltaram os livros proibidos, as cancões proibidas. As portas das prisões abriram-se de par em par e o delito de opinião foi abolido.

O clandestino Avante!, o único jornal português que nunca foi vítima do famigerado lápis azul da Censura, saltou para as bancas.

O Partido Comunista e o recém-formado Partido Socialista apareceram à luz do dia. Outros Partidos Políticos se formaram. A Democracia Pluralista estava aí!

Agora, o Povo poderia conhecer os programas propostos e optar por eleger como seus representantes aqueles que considerasse mais aptos para defenderem os seus interesses e materializarem os seus legítimos anseios.

Os mais empenhados na res publica aderiram à militância partidária, no esforço colectivo que a Democracia exige.

Ainda hoje estão na nossa memória os nomes de muitos, uns que já não estão entre nós, outros que as circunstâncias afastaram.

Trinta e quatro anos é tempo!

Falar dos dias de hoje é desnecessário. Todos vivemos o dia a dia e sabemos das esperanças adiadas, das frustações diversas, do dia de amanhã comprometido por dificuldades.

Nestes tempos difíceis, onde todos não somos de mais, importará saber o porquê do afastamento de tantos. Por acomodação? Por cansaço? Por desencanto?

Ouvimos amiúde falar de rejuvenescimento, o que poderá equivaler ao afastamento de gente experimentada, de gente que conheceu o antes e o depois. E vemos, com alguma frequência, situações de debilidade em quantos que, assumindo cargos de responsabilidade, acusam a inexperiência decorrente dos seus verdes anos.

A Juventude é generosa. Sempre o foi. Mas será avisado atribuir-lhe funções que exigem aprofundado amadurecimento?

Será avisado entregar o leme da barca ao aprendiz de marinheiro? Saberá ele ler nas estrelas o rumo certo? Conhecerá ele os escolhos e baixios encobertos pelas águas? Já terá ele ouvido falar de ventos e correntes e procelas onde se acobertam naufrágios? Saberá ele defender-se dos enganadores e quase sempre mortalmente perigosos cantos das sereias?

Todos sabemos que navegar é preciso!

Mas não foi um aprendiz de marinheiro que dobrou o Cabo das Tormentas.

O homem do leme é sempre mais do que ele-mesmo, é sempre um Povo que navega rumando a Porto Seguro.


Gabriel de Fochem

sábado, 22 de novembro de 2008

05 - REFLEXÕES * Estes tempos...


Vai distante o tempo do jornalismo dito de referência. Formava e informava os seus leitores. Infelizmente, o sensacionalismo, a especulação desenfreada, o dize tu... direi eu... e os critérios mais do que discutíveis de publicação contaminaram a Informação.

Outrossim os jornais regionais perderam o seu espaço próprio de abordagem dos problemas mais ou menos locais.

Hoje, é a blogosfera que está na moda.

«Blogosfera é o termo colectivo que compreende todos os weblogs (ou blogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente interconectados...», informação obtida no Google.

Qualquer pesquisa nos possibilita encontrar espaços (blogs) responsavelmente assumidos, onde se opina, se discute, se divulga, etc.

Infelizmente, outros encontramos, onde, a coberto do anonimato, andam à solta a injúria, a calúnia, a desinformação, etc. É a lei da impunidade, propiciadora do advento daqueles que se permitem chafurdar no pântano, seguros de que não serão responsabilizados.

É uma lástima!

Pese embora tudo isto, é sabido que a ausência de Informação credível conduz à conjectura, à especulação, à invencionice, à maledicência...

Vivemos tempos difíceis, tempos de carência moral, social, material e política. Vivemos o tempo dos espertalhões, que trepam e se alcandoram a plataformas de evidência, donde se comprazem
a debitar sofismas e mediocridades.

Vivemos os tempos da música pimba, quiçá a mais elaborada continuadora do nacional-cançonetismo de triste memória. E é vê-la, triunfante...

--- nos palcos das tv, incluindo a pública;

--- nas estações de rádio, também incluindo a pública;

--- nos palcos dos municípios, incluindo o nosso.

Vivemos os tempos de plástico e dos descartáveis, incluindo quem trabalha.

Vivemos os tempos onde o Poder dá garantias de perenidade ao que não presta e ignora as potencialidades do país sofrido e resignado.

Vivemos os tempos que se demoram de mais na nossa existência ansiosa de Vida, de Cultura, de Dignidade, de Justeza.


Gabril de Fochem

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

05 - REFLEXÕES * Estas calçadas...

1
Pisamos estas calçadas há muitos anos. Estas calçadas, hoje encobertas por uma camada de alcatrão, que as enluta. Não vem ao caso condenar, agora, o autor desta barbaridade, mas, sim, perguntar se este atentado se eterniza.Todos sabemos que um pavimento em pedra dura séculos e permite a infiltração de parte da pluviosidade.
Todos sabemos que o pavimento de pedra, quando há necessidade de ser removido, facilmente se repavimenta e nunca apresentará remendos.
Todos sabemos que o alcatrão, devido ao atrito, provoca a contaminação do ar que respiramos.
Todos sabemos do pó negro (alcatrão) que limpamos nas nossas casas.
Porque em qualquer gestão é fundamental atender à questão custo/benefício, em quanto importa, anualmente, a manutenção de uma calçada e em quanto importa, também anualmente, a manutenção do tapete de alcatrão?

2
Nesta época de democracia formal, ainda temos a possibilidade de questionar os eleitos. Sobre o pavimento das ruas e sobre tudo o mais.
Tal como há o debate do estado da nação, para quando o debate do estado da autarquia? É uma discussão que está por fazer e que seriamente deverá ser permanente.
Não auscultar os anseios da comunidade é um modo perverso de agir.
Não propiciar a participação da população é castrar o direito de cidadania.

3
Assistimos ao Poder, a todos os níveis, agindo de modo autista. Não houve ninguém; nada pergunta; tudo sabe.
O povo-eleitor é chamado a votar de quatro em quatro anos e aí se esgota a sua participação na res publica.
Não queremos acreditar que a política dita partidária esteja perigosamente a esgotar-se, ainda que o seu funcionamento em circuito fechado claramente demonstre que algo está mal no Reino da Dinamarca. E porque assim é, não será despiciendo ponderar, a curto ou médio prazo, a criação de um movimento de cidadania que livremente aja a contento. E nada seria de extraordinário neste município onde está bem presente ainda a acção criadora do movimento liderado por António Isidoro de Sousa.

4
Pisamos estas calçadas, todos nós, cidadãos preocupados com o nosso presente e com o nosso futuro.
Se o Poder que nos representa não souber merecer a nossa confiança, o caminho será tomarmos nas nossas mãos o nosso destino colectivo.


Gabriel de Fochem

terça-feira, 11 de novembro de 2008

05 - REFLEXÕES * Gooooolooooo!...


O jornal Correio da Manhã, de Lisboa, na sua edição do passado dia 6 deste decorrente mês de Novembro, publicou uma notícia subordinada ao título Craques pagos a peso de ouro.
Ora, eu sou pouco ou nada informado nestas coisas do mundo do pontapé na bola. Ouço dizer, vagamente, no estafado diz-se... que por lá se auferem salários e se obtêm prémios e prebendas que ascendem a quantias muito para além da decência, atendendo, naturalmente, à situação económico-social que se vive. Evidentemente que sei que neste paraíso de democracia capitalista a máxima que impera é cada um safa-se como pode ou qualquer outra do mesmo género. Mas mesmo sabendo ou supondo saber das leis deste paraíso, confesso ter ficado chocado com os salários divulgados.
Em Portugal, os salários irão de 150.000 a 75.000 euros. Apenas os salários.
E esta situação ocorre num país onde o salário mínimo nacional não atinge 450 euros.
E, ao que parece, tudo bem como dantes, quartel-general em Abrantes.
Ninguém diz nada de nada; as estações televisivas são um regabofe de notícias do pontapé na bola.
A estação televisiva estatal permite-se abrir telejornais com o futebol, democraticamente... Certamente por isso, durante o bafiento salarazismo nunca a tal se permitiu. Uma vergonha nacional.
Mas há mais.
Façamos, com maldade, umas continhas:
Um salário de 450 euros x 14 meses = 6.300 euros
6.300 euros (total de 1 ano) x 40 anos = 252.000 euros.

Chegados aqui, verificamos que há, em Portugal, quem aufira, por mês, o que a esmagadora maioria dos trabalhadores ganharia quase em toda uma vida activa de labuta.

Esta é uma das vergonhas que todos fingem ignorar.

Esta é, entre outras, uma vergonha deste povo-país!

9 de Novembro de 2008.
Gabriel de Fochem

domingo, 14 de setembro de 2008

06 - ROMANCEIRO * Catarse


Já nasci na prisão.
Fiz do medo
um brinquedo
que trazia na palma da mão.
Fui menino enjeitado.
Fui soldado.
Fui adulto explorado.
Fui vexado.
Vi o medo tolher
quantos homens sem medo!
Vi crianças comer
um bocado já duro de pão.

E vi mães em segredo
a beijarem o pão que caíra no chão!
Eu vi tudo o que havia de feio!
E passados que são tantos anos,
um amargo receio
de não ver
esta safra de enganos
finalmente ceder
à verdade de ser.
Um receio doído,
como a fome sem pão,
como um homem traído p'la vil delação,
como a flor da esperança
que a vergonha dos homens insulta
na inocência das mãos da criança
condenada a nascer já adulta...




José-Augusto Carvalho

20 de abril de 2002
Viana  * Évora *Portugal

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

06 - ROMANCEIRO * O grande logro






Defines o teu perfil

com as pétalas da flor
duma alvorada de Abril,
vestida de amor e cor.



E falas da primavera
como do sagrado trilho
onde a liberdade gera
a verdade em cada filho.



E, faminto, o povo crê
na palavra armadilhada,
crendo ver o que antevê
na espera desesperada.



E, de logro em logro, vais
arengando que te cabe
o fazer melhor e mais
o que só o povo sabe...








José-Augusto de Carvalho
11 de Março de 2007.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal

sexta-feira, 27 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * Sexta-feira Santa



Dia 14 do mês de Abril do ano de 2006.

Sexta-feira Santa. Hoje, assinala-se a crucificação de Jesus, o cristo. Foi há mais de dois mil anos.

O Império Romano era o senhor do mundo. Só ele determinava o que era certo, o que era errado. Como todos os impérios, Roma arregimentou colaboracionistas.
Há sempre quem esteja disponível para fazer o trabalho sujo. São desta laia os que dizem que todo o homem se vende, sendo tudo uma questão de preço. A História regista desmentidos. Melhor será assentar-se haver quem esteja à venda e quem não esteja.
Jesus não pactuou com o Império. Não estava à venda, logo não se vendeu. Sofreu as consequências.
A quem aproveitou o exemplo de Jesus, apesar de ser todos os anos recordado?


Gabriel de Fochem
Sexta-feira, 14 de Abril de 2006.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * Na Praça do Desplante



Conta-se que dois mentirosos, dos mais afamados do meio, decidiram defrontar-se, para definirem qual deles seria o mais criativo.

Dos vários temas propostos, concordaram em escolher a política.

A Praça do Desplante estava lotada.

No palanque, exuberantes, os dois amigos, agora antagonistas.

A assistência, expectante, olhava.

O primeiro mentiroso, depois de simular uma atitude reflexiva, disse:

--- Meus amigos, todos nós estamos felizes com a situação que vivemos. Finalmente, temos um governo socialista!

Um ah! em surdina malagitou a Praça do Desplante.

O segundo mentiroso, assumindo um ar pesaroso, reconheceu:

---Quem não sabe que sempre fui um grande mentiroso! Mas, aqui, perante todos, sou obrigado a confessar que nunca conseguiria dizer uma mentira tão grande.

Outro ah! em surdina malagitou a Praça do Desplante.

Depois, em boa ordem, a assistência recolheu a suas casas.

Ficaram agitando o silêncio da praça vazia os versos maiores da cantiga...

E nós, pimba! E nós, pimba!


Gabriel de Fochem

Segunda-feira, 17 de Abril de 2006.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * A Política



Sabemos que a palavra política nos chegou dos gregos e que significa o governo da cidade.

Partindo daqui, poderemos entender por micro-política o governo do nosso lar e por macro-política o governo dos países. Creio bem ser pacífico este raciocínio.

Qualquer cidadão responsável sabe governar o seu lar. É uma situação comum. Fundamentalmente, sabe que nunca poderá «dar o passo maior do que a perna». Ah, estes ditados, sempre tão carregados de sabedoria!

Qualquer um destes cidadãos responsáveis --- e tantos, tantos são! --- sabe que o seu orçamento terá de atender às necessidades, partindo das mais urgentes para as menos urgentes, e por aí... até esgotar a hierarquização que estabeleceu. Sabendo muito bem que é para toda a família a comida que põe na mesa. E para além da mesa, tudo o mais, evidentemente.

Isto é tão claro, que até parece uma aberração estar a dizê-lo.

Ora, a realidade é subvertida quando se passa da micro-política, a tal que me permiti definir como o governo do lar.

No governo da cidade sucede o que todos sabemos. No governo do país, dos países, do mundo inteiro, afinal, igualmente sabemos. E seria fastidioso estar a enumerar as tantas e tantas situações que quotidianamente nos assaltam, nos ferem, nos magoam, nos indignam, nos envergonham...

É tempo de desmistificar o papão da política!

É tempo de desmistificar os autoproclamados políticos, que se consideram iluminados e que, afinal ---está à vista de todos! --- são os causadores de todos os males sociais que quase nos fazem descrer da humana condição.


Gabriel de Fochem

quarta-feira, 18 de junho de 2008

05 - REFLEXÕES * Perplexidade



Nesta vida, vou tentando observar quanto se passa em meu derredor e opinar, tanto quanto mo consente a minha condição de cidadão versado em coisa nenhuma.
Hoje, manifesto a minha perplexidade acerca do teor de um cartaz que está afixado no corredor da urgência do Hospital Espírito Santo, em Évora.
Na impossibilidade de apresentar uma imagem do cartaz, aqui deixo o seu texto:


É importante saber que…

A urgência hospitalar existe para o atendimento rápido das pessoas com situações de risco para a saúde.
O grau de gravidade da pessoa impõe a rapidez no atendimento.
O atendimento faz-se tendo por base a Triagem das Prioridades

A TRIAGEM DAS PRIORIDADES
(Manchester)


fundamenta-se em:

Classificação da gravidade da situação de cada pessoa que recorre ao serviço de urgência segundo protocolo do Grupo Português de Triagem.
A Enfª. (º) recebe a pessoa, observa-a, faz perguntas e estabelece a prioridade de atendimento, que é identificada com uma cor correspondente ao grau de gravidade (emergente, 0 minutos, cor vermelha; muito urgente, 10 minutos, cor laranja; urgente --- 60 minutos --- cor amarela; pouco urgente --- 120 minutos --- cor verde; não urgente --- 240 --- cor azul)

Elaborado por Albertina Dias, Ana Guerreiro e Rosalina Marques, no âmbito do projecto do 8º. Curso de Complemento da Formação em Enfermagem.
Ora, é importante saber que…

mas eu não sei, e gostaria de saber, se este cartaz, só pelo facto evidente de estar afixado, responsabiliza o Hospital e, por extensão, o Ministério da Saúde;
mas eu não sei, e gostaria de saber, se um(a) enfermeiro(a) está habilitado(a) a proceder a uma avaliação clínica.

Na esperança de um esclarecimento, aqui deixo o meu
até sempre!


Gabriel de Fochem
Junho de 2008.

(Ilustra este texto a foto de uma obra do pintor alentejano Dórdio Gomes)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

06 - ROMANCEIRO * Aforismos





É quando a morte chega à Feira das Vaidades

que ganha nitidez a nossa condição.


É quando o sal amarga e queima as veleidades

que a morte nos reduz à nossa dimensão.


É quando a luz do sol, cegando o vaga-lume,

esmaga a pequenez da néscia presunção.


É quando por grasnar chilreio se presume

que uma qualquer lamúria intenta ser canção.


É quando a Lua-cheia incita à tentação

que a noite se revela enleio enamorado.


É quando não há mais varinhas de condão

que o charlatão se quer o príncipe encantado.


É quando já ninguém consegue acreditar

que o verso em armas faz da vida o seu altar.




José-Augusto de Carvalho
In «Da humana condição»
EdiumEditores, Março de 2008

06 - ROMANCEIRO * A saudade do alvorecer



Para Jerónimo Sardinha



Da memória do tempo levanto

a magia daquela alvorada.
Foram armas e cravos de espanto
perfumando uma terra de nada.

A palavra, a doer, clandestina,
finalmente a mordaça arrancava!
Era o verbo, que tudo ilumina,
que, qual raio, na terra se crava.

E na terra de nada, a sangrar,
florescendo, as papoilas estendem
o seu manto a pulsar o querer

da manhã que, sorrindo, a chegar,
traz os astros que nunca se rendem
aos tentáculos do anoitecer.



José-Augusto de Carvalho
20 de Maio de 2008.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 13 de abril de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * O discurso


«vivo e desnudo» assume-se como um espaço de intervenção. Com o objectivo, sempre, de encontrar «a verdade a que temos direito» de que nos falou o saudoso poeta Ary dos Santos. Exactamente por isso, aqui se acolhe o pedido de divulgação do discurso do ministro brasileiro da Educação, proferido nos Estados Unidos da América do Norte.

Informa a querida Amiga Rosa de que não é todos os dias que um brasileiro dá um «baile» educadíssimo aos norte-americanos.


Durante um debate numa universidade dos Estados Unidos, o actual Ministro da Educação, CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência em alguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta de Cristovam Buarque:

'De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país.
Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos, Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história domundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!'

Nota:

ESTE DISCURSO NÃO FOI PUBLICADO.
AJUDE-NOS A DIVULGÁ-LO porque é muito importante ... e porque foi CENSURADO!

*

10 - JORNAL DE PAREDE - Respondendo ao comentário do senhor Henrique Fialho



Senhor Henrique Fialho, a fim de se evitarem interpretações incorrectas, irei responder ao seu comentário, ponto por ponto.
1
Absolutamente de acordo quanto a qualquer cidadão ser (ou dever ser) responsabilizado por aquilo que diz ou faz.
2
Com ou sem ironia, o senhor refere orfeus de terracota, situação que remete para o texto que consta da primeira página do livro: Na capa / Orfeu / Jorge Vieira / Terracota / Col. Arq. José Maria Segurado.
3
Sabendo-se que terracota significa barro cozido, que paralelismo pretende o senhor estabelecer entre uma colectânea de versos e barro cozido? Entendo que menospreze os versos, não entendo o menosprezo pelo barro, seja cozido ou cru.
4
O senhor reincide no ataque ao editor Leonardo de Freitas pela sua decisão de editar o meu livro. Se ele raciocinasse pela cabeça do senhor, certamente não teria havido edição. Mas ainda que por remota e absurda hipótese tal lhe ocorresse, seria avisado fazê-lo, quando o senhor admite que o livro nada lhe diz por (e cito) «ignorância minha, certamente»?
5
Diz ser Brecht leitura aí de casa. E ainda não o admoestou pelo punho em riste?
6
E mais diz admirar Lenine, o homem de guerras, como decide apodá-lo. Muito bem! O senhor é realmente um achado! Um grande achado!
7
Afirma ter-se habituado a conviver bem com a diversidade de opiniões, de perspectivas e a, quanto a mim muito saudável, divergência política, estética, cultural, religiosa, etc.
Pois, bastará ler o vómito que o senhor derramou sobre «a instante nudez», para se ficar com a certeza da veracidade da sua afirmação.
8
O senhor está no seu pleno direito de criticar o livro, o que não fez. Optou pelo vómito. Quanto à liberdade que se permite invocar, esta palavra não dá cobertura à linguagem que usou.
9
Tudo no livro o leva a afirmar que neles (os poemas) tudo me «cheira a mofo, já visto, arroto panfletário, servilismo bacoco, ainda que o labor da cantoria ande às voltas com a insubmissão, a resistência, a recusa, a militância, o humanismo de punho em riste. Que eles digam muito a outros leitores, é o que, sem qualquer ironia ou cinismo, espero e desejo.
O senhor tem razão: a indignidade já cheira a mofo, mas persiste aí; o já visto, também;o arroto reaccionário, idem; e por aí… Basta olhar em derredor e, já agora, bastará lê-lo.
Quanto ao que os outros dirão, deixe-os serem eles a falar.
Depois do que o senhor disse do livro e de mim, é com repulsa que leio a hipocrisia desta frase: Que eles (os poemas) digam muito a outros leitores, é o que, sem qualquer ironia ou cinismo, espero e desejo.

Nesta apagada e vil tristeza, de que falou Luís de Camões, e que persiste, assim vamos… cruzando-nos, no caminho árduo, com iluminados como este senhor Henrique Fialho, de Rio Maior… e sem moca!

José-Augusto de Carvalho
Viana do Alentejo, 13 de Abril de 2008.
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sexta-feira, 11 de abril de 2008

10 - JORNAL DE PAREDE * Mais uma vez, «Da humana condição»


Não tenho a grandeza de oferecer a outra face. Reconheço, aliás, e sem esforço, que não tenho grandezas. Sou um homem comum, para o bem e para o mal, precisando, para quanto entendo por bem e por mal.

Ora, vem isto a propósito da resposta que dei --- "não sei" --- quando alguém me perguntou se eu tencionava oferecer um exemplar do livro à Biblioteca Municipal de Viana.

Ainda que nunca tenha reclamado por não me lerem, exactamente pelo respeito que me deve merecer a vontade dos demais, pergunto-me se não haveria a responsabilidade institucional de a Câmara Municipal de Viana se ter feito representar no lançamento de «Da humana condição», exactamente porque foi em Viana e no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Viana. E, acessoriamente, porque sou natural desta mesma Freguesia.

Considerando também que nenhum eleito para a Assembleia Municipal compareceu, permito-me concluir que a Literatura passará ao lado das suas preocupações.

Evidentemente que este modo de ser e estar é tanto mais grave quanto persiste em ignorar nomes relevantes como são os de Joana da Gama e Fernão Cardim, entre outros.

Colocada a questão, aguardarei que alguém opine.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
*