terça-feira, 11 de dezembro de 2018

02 - POESIA VIVA * À bolina...



CANTO REVELADO 
À BOLINA… 





No meu alforge trago a referência: 

a sede no cantil mitigada, 

a fome no taleigo saciada, 

a paz duma frugal sobrevivência.. 



No peito trago o coração pulsante 

de velas navegando contra o vento 

clamando em qualquer tempo é momento 

de ser e de rumar para diante. 



Que fique para trás o tempo morto 

que apenas é presente na lembrança 

e nas saudades raras de criança 

consegue dar-me instantes de conforto. 



O tempo é este tempo que me imponho: 

o tempo meu --- doutro nenhum disponho… 





José-Augusto de Carvalho 
11 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sábado, 8 de dezembro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Da pluralidade



O MEU RIMANCEIRO 
(QUE VVA O CORDEL!) 


Da pluralidade 



No reino do faz de conta, 

a identidade é plural: 

contradição ou afronta 

é condição natural. 



Há um reizinho qualquer, 

se é reino tem de ter rei, 

ora homem, ora mulher, 

a pluralidade é Lei. 



Ser isto ou o seu contrário, 

ser avesso ou ser direito, 

tudo consta do inventário 

onde se almeja o perfeito. 



Ser diverso ou ser afim, 

géneros em profusão! 

Que louvar a Deus sem fim 

desta plural criação. 



Do diverso ao semelhante, 

do que viste ao que não viste, 

tudo o que existe garante 

que é criação, logo existe. 



Tudo o mais é preconceito, 

porquês da Filosofia 

porque ignora o Direito 

de existir da pandemia. 



Não há por que haver porquê. 

Seja o que à Vida aprouver! 

E no fim, logo se vê! 

Que seja o que Deus quiser! 




José-Augusto de Carvalho 
8 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * A falsa questão




O MEU RIMANCEIRO
.
(QUE VIVA O CORDEL!)

*
A FALSA QUESTÃO




Temer ou não temer --- eis a questão!
Sabia o velho Esopo, porque lia
a Natureza-Mãe com atenção,
aquela antiga história da guria
que fez da imprevidência condição
na hora em que aceitou por companhia
o astuto escorpião
naquela derradeira travessia.
.
E não houve depois para contar…
Temer ou não temer --- falsa questão!
O certo é não errar.
Quem erra por tolice ou distracção,
tem sempre uma factura pra pagar.
Quer se queira, quer não,
jamais a sua condição irá mudar
o astuto escorpião.

*
José-Augusto de Carvalho
5 de Dezembro de 2018.
Alentejo*Portugal

terça-feira, 27 de novembro de 2018

02 - POESIA VIVA * Manifesto

NA PALAVRA É QUE VOU...
.

Manifesto 


Ícaro, tela de Chagall 




Questiono ou não os meus antepassados? 

São eu neste outro tempo modelados… 

Todo o tempo é composto de mudanças… 

ganhando ou não ganhando qualidades, 

perdendo ou não perdendo qualidades… 

Não vou dobrar o Cabo Bojador… 

Como ir além do medo? Além da dor? 

Não vou dobrar o Cabo das Tormentas… 

Perene é a tormenta, 

distante a esperança que persigo… 

Persiste à minha frente o Cabo Não, 

num desafio instante e perigoso… 

Herdeiro sou de fastos e misérias, 

aos ombros trago o Tudo, trago o Nada, 

o vinho e o pão da minha mesa efémera… 

Os passos que já dei 

não voltarei a dar… 

Ninguém banhar-se pode duas vezes 

nas mesmas águas deste nosso rio… 

Tinha toda a razão o velho Heráclito! 

Aqui e sem negar-me tento ser 

o impulso a projectar-me para diante. 

Memória do que fui, a minha história, 

outra não tenho para me contar… 

São fastos, são misérias, são heranças 

que herdei dos outros eus que fui inteiro… 

Mantenho ou não a glória desses fastos? 

Corrijo ou não a dor dessas misérias? 

Venha o primeiro justo condenar-me! 

Venha a primeira pedra castigar-me! 

Depois de mim que venham outros eus 

justificar-me ou não 

ou redimir-me ou não… 





José-Augusto de Carvalho 
27 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

17 - POEMÁRIO * A súplica


TUPHY VIVE! 

*

A súplica 





Vem a palavra súplice e molhada 

dizer-me entre soluços por que chora. 

E eu ouço, no silêncio, a madrugada: 

Quem vem falar contigo a esta hora? 



Sossego a madrugada desta insónia: 

alguém que se perdeu e busca auxílio 

num sonho de encantar de Babilónia 

que sofre no meu peito a dor do exílio. 



Alguém que vai morrer quando eu morrer, 

que quer comigo ser a mesma entrega… 

E, em paz, agora, tenta adormecer, 

já sinto prestes a manhã --- sossega! 



José-Augusto de Carvalho 
21 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal 



17 - POEMÁRIO * A sol-pôr



(Tuphy vive!) 


Ao sol-pôr 







Eu dei-me numa tarde de Novembro. 

Comigo só ficou o teu sorriso, 

agora que de ti apenas lembro 

o nada-tudo de que só preciso. 



Não mais o tempo em flor de Primavera! 

Não mais o verde-mar do teu olhar! 

Agora, sou, sozinho, a minha espera, 

outra espera de nós neste ficar. 



Germinou a semente e foi raiz. 

Surgiu-cresceu o caule e deu-se flor. 

Milagre de existir que assim nos quis 

do sol nascente até ao meu sol-pôr. 



O mais que houver será uma outra espera 

de um outro tempo, de outra primavera… 





José-Augusto de Carvalho 
21 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sábado, 17 de novembro de 2018

17 - POEMÁRIO `Ali Baba



O MEU RIMANCEIRO
.
(QUE VIVA O CORDEL!)

*
ALI BABA



Ali Baba, a lenda que ficou
do chefe dos ladrões – eram quarenta.
D’As mil e uma noites transitou
a lenda para a vida e tanto bem medrou
que por feitiço dia a dia aumenta.

O roubo ganhou formas e matizes
e tanto medra a solo e medra em coro!…
As vítimas se queixam: que juízes,
perante as nossas roxas cicatrizes,
acabam com tamanho desaforo?

Ecoam pelas ruas, pelas praças,
protestos e lamúrias, mas em vão.
São de raiz os males e as trapaças.
Com panos quentes, faças o que faças,
não mudas nunca a sua condição.

Arranca o que é daninho, o que não presta,
permite que germine outra semente,
e colherás suado mas em festa
o pão e o vinho, as flores da giesta,
cumprido como vida e como gente…


José-Augusto de Carvalho
17 de Novembro de 2018.
Alentejo * Portugal