quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

02 - POESIA VIVA * Ousadia



TEMPO DE SORTILÉGIO 

Ousadia 




A memória rompeu o negrume 

e chegou com as vestes do mito. 

É História nas lendas que assume 

um Passado a querer-se interdito. 



São imagens dos tempos perdidos? 

São palavras ou ecos vadios 

que martelam os nossos ouvidos, 

alta noite, a carpir desvarios? 



Somos isto: um alforge pesado, 

carregado de angústias e medos 

ou a herança do Pégaso alado 

que cantaram os velhos aedos? 



Que com Pégaso ousemos os astros 

e os vindouros nos sigam os rastros!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Fevereiro de 2018. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

03 - O MEU RIMANCEIRO * Admoestação



O MEU RIMANCEIRO
.

Admoestação






Dói-me este tempo parado.

Caminhos sem caminheiros…

Que relógio abandonado

sem ter corda nem ponteiros!...



No movimento aparente,

desde a manhã ao sol pôr,

tece o sol incandescente

um manto de luz e cor.



As memórias soterradas

sangram nas papoilas rubras

que sonham desesperadas

o dia em que as redescubras.



A sono solto dormindo,

teimas em não dar por nada.

Nem sonhas o sonho lindo

que há em cada madrugada.



Nas noites de estio ardente,

cantam grilos ao luar

na sinfonia estridente

que em vão te quer despertar…



Mas como um justo tu dormes,

como se fossem tranquilos

estes escombros disformes

que desesperam os grilos.



O que é dos outros cobiças,

numa inveja envergonhada…

e, alheio ao que desperdiças,

acabas por não ter nada.



Tens as nozes do rifão,

p’ra parti-las não tens dentes…

Se és assim por condição,

assume-a e não te lamentes!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Janeiro de 2018.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

05 - REFLEXÕES * A pressa


O Flávio passou agora mesmo por mim. Iluminou a face com um sorriso e lá foi pedalando. Já nem se apercebeu do meu aceno que era um cumprimento e um adeus. Esta gente anda sempre com pressa. Não sei se é a Vida que apressa esta gente, se é esta gente que apressa a Vida. Num contraponto indiferente, o dia continua a ter 24 horas. E tanto quanto posso observar, a natureza mantém o mesmo ritmo. A natureza onde os manobrismos humanos (ainda?) não interferem para acelerar, retardar, alterar, modificar o seu ancestral modo de ser e estar.

Lá mais à frente, a estrada se cruza com um ribeiro. O Flávio já deve ter passado a ponte. E quero crer que, com a pressa, nem olhou o leito deste pequeno curso de água.

É, com certeza, um ribeiro igual a tantos outros que serpenteiam a planura. Eu gosto muito de arroios, de ribeiros e ribeiras, de rios e de mar. É o fascínio da água. Este meu fascínio me leva a ficar horas e horas olhando este ou aquele curso de água, a tentar imaginar percursos evadidos, a criar exaltadas ousadias, a recusar destinos parados de prostração e renúncias. Ora foi num dia que nem sei precisar que vi estupefacto, neste mesmo ribeiro, uma represa canhestramente erguida. Estupefacto porque a represa não tinha a finalidade transitória de aproveitar água para rega. Olhando mais atentamente, percebi: o ribeiro, naquela área, atravessa uma propriedade rústica e a represa nada mais é do que um passadiço para um tractor agrícola. Com certeza, o passadiço poderia ter usado manilhas na estrutura para deixar a água livremente correr. Mas o autor do passadiço não pensou nisso ou não quis pensar. E em nome do utilitarismo estreito e de um inaplicável direito de propriedade, cortou uma linha de água que é um bem público.

E estas coisas e tantas outras existem e persistem anónimas por vontade de quem não vê, de quem não quer ver…

Eu sei, é a pressa… Mas serão seguramente os apressados da Vida, serão os distraídos da Vida, serão os indiferentes da Vida os primeiros a apontar o indicador acusador aos outros, aos tais outros que tinham o dever de ter visto e não viram; que tinham o dever de ter previsto e não previram; que tinham o dever de ter agido e não agiram…

O Flávio passará por aqui, no regresso, pela tardinha. Hoje já não o verei, está arrefecendo e eu tenho de resguardar a minha anciania.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Janeiro de 2018.

domingo, 17 de dezembro de 2017

03 - O MEU RIMANCEIRO * A banda que passa…


O MEU RIMANCEIRO
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(Que viva o cordel!)

*

A banda que passa… 






Meu amigo, tens razão:

deixemos passar a banda!

Marcha atrás a multidão

e mais quem p’las ruas anda

e é alheia à diversão.



Nas ruas, como nas feiras,

há sempre galos sem crista,

que, atrevidos nas maneiras,

exibem a longa lista

de maravilhas matreiras.



No fim, segue um cão vadio,

alheio a tanto alvoroço.

De passadio sombrio,

espera que sobre um osso

do animado desvario….





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Dezembro de 2017.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

02 - POESIA VIVA * Em louvor da Vida



(TEMPO DE SORTILÉGIO)

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Em louvor da Vida







Na dimensão do todo, encontro-me plural.

Deveras quero ser uma acha da fogueira.

Anónima, uma acha, entre outras, da lareira

ardendo no teu lar em noite de natal.



Que importa se o natal apenas é um mito?

Importa é que no frio o fogo te acalente

e que no teu sonhar não sintas interdito

o mágico devir que alente o teu presente.



No ventre da mulher germina a utopia

da vida que floresce em cada primavera,

num ciclo que se cumpre em transe natural.



Na tua/minha voz suave a melodia

que a condição de ser e de mistério gera,

louvando em cada parto o mito do natal.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 7 de Dezembro de 2017.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

02 - POESIA VIVA * A perpétua construção


(CANTO REVELADO)

A perpétua construção 



Dórdio Gomes, Pintor alentejano, com a devida vénia




Nem pratos de ilusões ou de lentilhas…

Nem taças do elixir dos desvarios…

Só quero do pão asmo das partilhas,

em sopas, no gaspacho, p’los estios.



O vinho e o pão devidos ao sustento,

para que o meu labor de cada dia

não sofra reduções de rendimento

nem mal augure os tempos de invernia.



O vinho e o pão do ajuste equitativo

que me garante a força do meu braço

e a minha condição que assumo e vivo

no que recuso e no que inteiro faço.



Que eu saiba ser plural na dimensão

multímoda e em perpétua construção.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Novembro de 2017.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

02 POESIA VIVA * Em louvor do movimento



(TEMPO DE SORTILÉGIO)
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Em louvor do movimento



Tela de Siqueiros, com a devida vénia





Não trago no bornal renúncias e atropelos.

Não trago no cantil as sedes saciadas.

Caminho com a lama até aos tornozelos.

Nos campos ermos, domo angústias, rasgo estradas.



Saúda a cotovia os arrebois do dia.

O seu cantar feliz desperta os meus sentidos.

Levanto-me da cama ao som da cantoria.

Meus passos não serão incertos nem perdidos.



Difícil é andar ao frio que enregela

por mais que seja belo o manto de brancura,

mas mais difícil é tomar pincéis e tela

e ser a dimensão de nós ganhando altura



Difícil é andar ao vento que flagela,

(o látego zurzindo injúrias e inclemências), 

mas mais difícil é domar o leme e a vela

da nau que aporte ao fim de todas as urgências.



Importa caminhar, a vida é movimento.

É mero pormenor, chegar ou não ao fim.

Os passos que eu não der, jamais por desalento,

mais tarde, outros darão, por eles e por mim.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 16 de Novembro de 2017.