sábado, 18 de fevereiro de 2017

07 - B R A S I L * O Prémio Camões 2016

"Não há como ficar calado"

(a íntegra do discurso de Raduan Nassar no Prêmio Camões)



SEX, 17/02/2017 - 18:27

Da Carta Capital




Em seu pronunciamento na entrega do Prêmio Camões de literatura, o escritor critica o golpe, o governo Temer e o STF. Leia a íntegra

Às dez e meia da manhã desta sexta-feira 17, o escritor Raduan Nassar subiu ao palco montado no Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016, honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal e um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. Nassar ofereceu à plateia o seguinte discurso:

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.  

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

 O golpe estava consumado!

 Não há como ficar calado.


 Obrigado

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

16 - NA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS * Couço, Agosto de 1975,




A Reforma Agrária no imenso abraço POVO+MFA

O Capitão Amílcar Rodrigues do MFA

(Movimento das Forças Armadas)

conversa com a jovem e linda camponesa de pés descalços.

domingo, 22 de janeiro de 2017

02 - POESIA VIVA * Sonho de Primavera!


QUE VIVA O CORDEL!

Sonho de Primavera!






Quando tu acreditaste

que chegara a Primavera,

o medo gritou-te: espera!

e tu, confuso, esperaste.



Tiveste medo do medo,

do medo que te encarcera.

Foi porque tiveste medo

que perdeste a Primavera.



Depois, chegou o Verão,

muito quente, muito quente!

E tu, nessa lassidão,

dormias indiferente.



Quando acordaste, era Outono,

o tempo das azeitonas.

E tu, ainda com sono,

à modorra te abandonas!



Só quando em redor olhaste,

viste a paisagem mudada:

nua estava a débil haste,

no abandono desfolhada.



Ficaste sem entender

o que tinha acontecido,

como se pudesse haver

no não-ser algum sentido.



Hoje, nas águas paradas

do paúl tentas sonhar

caravelas encantadas

sedentas por navegar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Janeiro de 2017.



sábado, 21 de janeiro de 2017

02 - POESIA VIVA * Urgência





Nesta encruzilhada global,

é urgente questionar.



Nesta encruzilhada global,

é urgente interpretar o Passado,

é urgente situar o Presente,

é urgente prevenir o Futuro.



Nesta encruzilhada global,

é urgente regressar à rosa-dos-ventos,

é urgente definir a rota,

é urgente enfrentar as borrascas,

é urgente dobrar o cabo da negação.



Nesta encruzilhada global,

é urgente recusar os feitiços dos cantos das sereias,

é urgente recusar as tentações,

é urgente evitar o naufrágio da perdição

é urgente dobrar outra vez o Cabo das Tormentas





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2016.

02 - POESIA VIVA * A balança


QUE VIVA O CORDEL!

A balança




Põe os pratos na balança!

Pesa-me um quilo de pão

e dez gramas de esperança

para eu comer ao serão.



Põe os pratos na balança

e deixa a dança parar.

Se não parares a dança,

no peso vais me enganar.



Sei que de pobre não passo,

quer tu me enganes ou não,

enquanto tolhe o meu braço

a insana resignação.



Talvez este tempo mude,

porque a inércia não existe,

e eu podendo o que não pude

faça o que tu nunca viste.



E quanto hoje tão mal aprontas,

numa gula sem parança,

serão parcelas das contas

a pesar noutra balança.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo. 21 de Janeiro de 2017.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

02- POESIA VIVA * Que viva o cordel!



QUE VIVA O CORDEL!

O jumento




Tão manso, sobe a ladeira!
Manso, manso, mansidão!
Vai à feira, vem da feira,
leva ou traz a servidão.


Sobre o dorso, pesa a albarda.
Sobre a albarda vai o dono.
Só a noite alta lhe guarda
algumas horas de sono.


No estábulo solitário
espera a magra ração:
é o mísero salário
de quem vive em servidão.


Cale-se a palavra gasta
incensando a compaixão!
De tantas loas já basta!
É tempo de dizer não!


E que venha o que vier
na mudança anunciada!
Traga a vida o que trouxer, 
sempre será outra estrada.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Janeiro de 2017.