sábado, 29 de setembro de 2018

01 - POSIÇÃO * Eu, aqui!


NA PALAVRA É QUE VOU...
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Eu, aqui!



Eu, português, aqui me situo:

Nesta Península europeia, banhada a Norte e Ocidente pelo Oceano Atlântico e a Sul e Oriente pelo mesmo Oceano e pelo Mar Mediterrâneo, eu sou, hoje, resultante de todos os que existiram antes de mim.

Fui ibero, quando a Península assumiu a designação de Ibéria; fui hispano quando o Império Romano decidiu designar a Ibéria como Hispânia; fui andalusi quando a dominação muçulmana chamou Al-Ândalus à velha Ibéria e à romana Hispânia; subsidiariamente, até poderei ter sido sefardita, já que a migração hebraica chamou Sefarad a esta minha muito amada e mátria península.

Não sei o que os rigorosos Historiadores pensarão do que eu digo; mas eu sei que a nostalgia dos tempos passados me leva a reclamar toda esta ascendência, para o Bem e para o Mal.

E não estou sozinho nesta nostalgia. Dos nossos tão antigos avoengos sobressai, entre outros, o lusitano Viriato, ibero e integrante da Lusitânia, chefe assassinado da resistência ao invasor Império Romano mais de um século antes da nossa era. Ora pois! Se a independência de Portugal remonta a 1.143, século XII, falamos de um ibero-lusitano que viveu e morreu (grosso modo) 1.200 anos antes de Portugal existir como país. E aqui chego à nostalgia dos tempos idos. A célebre resposta “Roma não paga a traidores” que terão recebido os assassinos de Viriato quando pretenderam receber o prémio da acção para que haviam sido aliciados está conforme as relações entre vencedores e vencidos. “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

O Império Romano procedeu como sempre procedem os dominadores: autoridades pela razão da força, trouxeram inegavelmente saber e desenvolvimento e exploraram as riquezas naturais como proprietários que eram de facto.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / ganhando sempre novas qualidades”, precisou lucidamente Luís de Camões num dos seus sonetos mais famosos.

Está estudada a romanização de muitos e muitos países que surgiram na fase pós-romana. E não tenho conhecimento de os naturais destes países reclamarem o pouco ou o muito de que se apropriou o Império Romano ou de se permitirem apodá-lo de ladrão. E o motivo é claro: conforme o tempo que se vivia, os territórios ocupados eram propriedade do ocupante.

Ao que me consta, corre por aí uma “bem-pensante” teoria de que se deve reescrever a História e, mais ainda, ler o Passado com os olhos do Presente. E assim sendo, avante o julgamento do Passado! Ora do passado mais remoto ao mais recente se reclama a evolução da Humanidade. O Presente não mais é do que o resultado das lutas evolutivas, ora ganhas, ora perdidas, lutas onde venceram ou foram vencidos aqueles que querem hoje sentar no banco dos réus do tribunal do Presente.

Nesta miscigenação actual, quem me garante que no meu sangue não há vestígios de mártires ou de verdugos, de justiceiros ou de rendidos com honra ou sem ela?

Eu, português, aqui me situo como consequência do tudo que me gerou.

Sem preconceitos, sem jactâncias nem penitências e para o Bem e para o Mal, aqui estou na afirmação do que sou, conforme o tempo que vivo.



José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 28 de Setembro de 2018.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Terra antiga


CLAVE DE SUL
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Terra antiga 

Dórdio Gomes, Pintor Alentejano
(Com a devida vénia)

Para
Andrade da Silva e Serafim Pinheiro,
Capitães de Abril, meus Amigos



Na manhã sem palavras, a brisa 

orvalhada desliza 

no meu rosto. 

Na carícia de honesta ternura, 

sinto o gosto 

e o perfume da fruta madura. 

Terra antiga, 

suada e desnuda, 

que não muda 

quando a noite é de treva e castiga. 

Terra antiga de mágoas carpindo 

quando a força esmorece… 

Terra antiga do sonho mais lindo 

que entre mágoas e dor se levanta 

e manhã na manhã que amanhece 

polifónica canta. 

Terra antiga de Abril e de Maio maduro, 

que é de mar e de pão e de vinho! 

Terra antiga inventando o caminho 

do futuro 

com açordas de audácia e pão duro… 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Setembro de 2018. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

02 - POESIA VIVA * Poema de Jorge de Sena


LIBERDADE E CIDADANIA 
Poema de Jorge de Sena
*
Liberdade, Liberdade, 
Tem Cuidado Que Te Matam



Da prisão negra em que estavas
a porta abriu-se p´ra rua.
Já sem algemas escravas,
igual à cor que sonhavas,
vais vestida de estar nua.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
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Na rua passas cantando,
e o povo canta contigo.
Por onde tu vais passando
mais gente se vai juntando,
porque o povo é teu amigo.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
.
Entre o povo que te aclama,
contente de poder ver-te,
há gente que por ti chama
para arrastar-te na lama
em que outros irão prender-te.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
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Muitos correndo apressados
querem ter-te só p´ra si;
e gritam tão de esganados
só por tachos cobiçados,
e não por amor de ti.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
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Na sombra dos seus salões
de mandar em companhias,
poderosos figurões
afiam já os facões
com que matar alegrias.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
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E além do mar oceano
o maligno grão poder
já se apresta p´ra teu dano,
todo violência e engano,
para deitar-te a perder.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
.
Com desordens, falsidades,
economia desfeita;
com calculada maldade,
Promessas de felicidade
e a miséria mais estreita.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
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Que muito povo se assuste,
julgando que és tu culpada,
eis o terrível embuste
por qualquer preço que custe
com que te armam a cilada.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
.
Tens de saber que o inimigo
quer matar-te à falsa fé.
Ah tem cuidado contigo;
quem te respeita é um amigo,
quem não respeita não é.
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Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

*

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Pesadelo


NA ESTRADA DE DAMASCO
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Pesadelo 



Avanços e recuos --- as propostas. 

O tom dum nepotismo autoritário. 

O trunfo é copas, ouros, paus, espadas… 

No pano verde sobem as apostas. 

O lucro fácil --- hausto perdulário 

exibe, em transe, as faces alteradas, 



Às portas da cidade, as sentinelas 

garantem a desordem ordenada. 

Além do fosso, jaz a terra imensa, 

exausta e quase estéril por querelas, 

rasgada e dividida em cada tença 

devida à hidra nunca saciada. 



E deus, que vive em glória nas alturas, 

nem olha por receio das tonturas 




José-Augusto de Carvalho 
In Vivo e desnudo, Editorial Escritor, 1996

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Confissão



NA ESTRADA DE DAMASCO
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Confissão 




Confesso que não sei,
assim, na praça pública e desnudo,
e sem recurso à lei
que impõe saber de mim o nada e o tudo.

Não sei por que reclamo o sol do estio,
as chuvas outonais,
as neves da invernia - céus, que frio
doendo-me de mais!

E o sol da primavera
beijando cada ninho em construção
enquanto o Tempo espera
o parto, em oração.

E quando cada espiga me mitiga
a fome só de vê-la,
escrevo uma cantiga
no lucilar ardente duma estrela.



José-Augusto de Carvalho
14 de Junho de 2011
Alentejo * Portugal 


sábado, 1 de setembro de 2018

17 - POEMÁRIO * Os tempos velhos


CLAVE DE SUL 
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Os Tempos Velhos 

O “Pulo do lobo”, 
no nosso muito amado Odiana. 
Foto Internet, com a devida vénia. 



Uma mancha de arvoredo…
Treme o caminho de medo!
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Um grito de raiva corta
o silêncio do montado.
Quem supunha a noite morta
neste sossego assombrado? 



II 

Numa janela da aldeia
tremeluz uma candeia…
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Que sombra furtiva passa,
tragada pela escuridão?
Há um silêncio de ameaça
que perturba a solidão. 



III 

Andam malteses a monte
nas terras sem horizonte!
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Soam secos estalidos…
navalhas de ponta e mola!
Há abafados ruídos
de passos que a lama atola… 



IV 

Cicatrizes purpurinas
de balas de carabinas!
.
Homens de pele trigueira,
curtida pelo relento!
Aventuras de fronteira
e entregas sem juramento…
.
Nos beijos livres da noite,
sangram flores do laranjal!
Que amor na sombra se acoite,
na pureza natural… 




O medo, o medo guardando
no arrojo do contrabando!
.
Malteses de olhos sombrios
assumindo a perdição
de ousios e desvarios
que lhes levedam o pão! 


Uma sombra no arvoredo…
Treme o caminho de medo! 



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016

02 - POESIA VIVA * Tempo clandestino


TEMPO REBELADO
Tempo clandestino 


Para todos aqueles que se deram na luta 
contra o fascismo, no rigor da clandestinidade. 




As ruelas de terra batida 

ocultaram a minha partida. 


O negrume da noite tragou-me 

numa cúmplice fuga. 

Uma sombra furtiva e sem nome 

que do rosto uma lágrima enxuga. 


Em redor, o silêncio pesado 

dos malteses do medo e do espanto 

e os rafeiros rosnando ao cajado 

que à distância mantém o levanto. 


Chego, enfim, à estrada deserta. 

Doravante, o caminho é obscuro. 

E assim vou, de sentidos alerta… 

E assim vou esventrando o futuro… 



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Março de 1997.