domingo, 9 de dezembro de 2012

06 - ROMANCEIRO * Assombração



Caem noites nas sombras da insónia.
Solitárias, bocejam as ruas.
Erram bruxas infrenes e nuas,
em febril e fatal cerimónia.

Doem ermos os montes sombrios.
Uivam feras agouros danados.
Atrevidos, há répteis alados
inventando cruéis desafios.

Fixamente, o insondável medita.
O delírio das bruxas porfia.
É o mundo no fim, pressagia
a crendice... e o lapuz acredita.

E o poeta, a cabeça meneando,
rosna, incrédulo: oh, Povo, até quando?


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Dezembro de 2012.

sábado, 1 de dezembro de 2012

03 - CORREIO * Comunicado


Exmos. Leitores:

Alargando o meu espaço de intervenção, neste meu dever de cidadania

 activa, indico os endereços de novos espaços:

http://vivoedesnudo.blogs.sapo.pt

http://temposdoverbo.blogs.sapo.pt

Aguardarei o favor de visitas e comentários, sempre decisivos para quem 

comunica.

Até sempre!

Cordiais saudações

José-Augusto de Carvalho

Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

08 - CIDADANIA * Se...


Se eu me apresentasse a sufrágio, três interrogações me colocaria:

1ª.- Serei eu um candidato esperado pelos meus concidadãos?
2ª.- O que esperarão de mim os meus concidadãos?
3ª.- O que poderei prometer (para cumprir) aos meus concidadãos?
Depois destas interrogações, outras três me colocaria:

1ª.- Que colectivo irei eu integrar?
2ª.- Quais os recursos disponíveis para ponderar o êxito da tarefa?
3ª.- Quais os recursos outros a desenvolver?
E depois destas, ainda mais cinco interrogações me colocaria:

1ª.- Que prioridades exige a população?
2ª.- Que necessidades mais urgentes a debelar?
3ª.- Como motivar a população para participar no seu bem-estar?
4ª.- Como motivar a população para o desenvolvimento da comunidade?
5ª.- Como motivar a população a participar na "res publica"?
Uma candidatura é um desafio. E desse desafio é parte maior a entrega sem limites ao dever de servir e de cumprir.
Uma candidatura pressupõe ainda a existência de um  projecto, o qual determina, para além da gestão corrente, a criatividade,  o desenvolvimento, o rigor na defesa da identidade colectiva e a superação do Presente rumo ao Futuro.
Assim seria se eu me apresentasse a sufrágio.
Será uma hipótese remota, mas a Vida ensina-nos a nunca dizer nunca. Hipótese seguramente remota porque nem eu luto por isso nem os meus concidadãos; mas esta realidade objectiva não poderá jamais impedir-me de expressar o que penso, hoje, e o objectivo por que me bateria.

Até sempre!

domingo, 30 de setembro de 2012

08 - CIDADANIA * O POVO SAIU À RUA

Lisboa, 29 de Setembro de 2012.
Foto retirada, com a devida vénia, do jornal francês Le Mone Monde, de 30.9.2012

O inesquecível José Afonso está presente no título deste registo e na sua emblemática canção «Grândola, Vila Morena», cantada pelos manifestantes durante mais esta impressionante jornada de luta e de afirmação de cidadania.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Carta Aberta a um Procurador


Senhor procurador Cléber Eustáquio Neves,


Escrevo-lhe esta carta porque soube que o Sr. entrou com ação na Justiça solicitando a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição do dicionário Houaiss, porque no verbete “cigano” há acepções ao seu ver carregadas de preconceito ou xenofobia, apesar da informação explícita no dicionário de que tais acepções são pejorativas. Para o Sr., o texto do verbete afronta a Constituição e pode ser considerado racismo. É para ajudá-lo nessa importante tarefa de cortar as afrontas linguísticas à Constituição que lhe escrevo esta carta aberta, na esperança de que ela lhe chegue às mãos.
Há outros verbetes racistas e preconceituosos que afrontam nossa Carta Magna, como “judiar”, “judiaria”, “judiação”, uma verdadeira apologia ao antissemitismo. Mande suprimir também o verbo “denegrir” que é um acinte aos afrodescendentes por sua significação pejorativa. Por que o luto tem de ser preto? Envie uma mensagem ao Congresso para que faça uma lei que proíba a cor negra para o luto. Mande retirar também dos dicionários o verbete “mulato”, que se origina do nome “mula” e é uma ofensa também aos que têm a cor da Gabriela de Jorge Amado. Aliás, também deve ser retirada dos dicionários a expressão “eminência parda”, por sua conotação negativa que agride os que são pardos.
Seria bom também retirar do dicionário o verbete “esquimó”. Na língua do povo mongólico que habita as regiões geladas da Groenlândia, Canadá e Alasca, a palavra “esquimó” significa “comedor de carne crua”, o que é altamente ofensivo para esse povo que prefere ser chamado de “inuit”, que quer dizer “povo”. Os esquimós, digo, os inuits, também merecem respeito, embora morem longe do Brasil.
Por que não mandar suprimir todos os palavrões dos dicionários? Pense num adolescente ou numa criança que, ao abrir o Houaiss ou o Aurélio, encontre um palavrão desses cabeludos que fariam enrubescer uma freira de pedra. Trata-se de pornografia explícita que deve ser extirpada.
Aliás, por que as notas musicais pretas são de menor valor que as brancas? Trata-se de racismo velado, já que uma semifusa, por exemplo, toda pretinha, vale bem menos que uma semibreve, toda branquinha. Mande tirar o negrume das notas musicais e mande apreender todas as partituras, de Bach a Villa-Lobos, por exemplo, porque todas contêm notas pretas de menor valor que as notas brancas.
Mande suprimir nos livros de Física a expressão “buraco negro”, e de todos os dicionários expressões como “magia negra”, “humor negro”, “ver as coisas pretas”, todas com conotações altamente ofensivas à raça que tanto fez pelo progresso de nossa Terra.
Aliás, por que não mandar recolher todas as gramáticas da língua que ensinam que a concordância nominal se faz no masculino mesmo que haja um único homem entre milhões de mulheres? Trata-se de um preconceito contra as mulheres ainda não previsto na Lei Maria da Penha.
Como vê, Sr. Procurador, sua tarefa é extremamente árdua. Haveria outras coisas a dizer, como o preconceito contra a raça branca, encontradiço também nos dicionários, pois passar a noite em claro, dar um branco (quando se perde momentaneamente a memória), arma branca, casamento branco, elefante branco, greve branca, intervenção branca, versos brancos, escravatura branca, viúva branca, ditadura branca, e outras mais, são expressões que devem ser abolidas por sua conotação pejorativa, nitidamente racista.
Se de todo for impossível acabar de vez com os dicionários e livros científicos, só lhe resta uma solução, dada a dificuldade de cumprir sua missão de salvar a língua portuguesa e a cultura brasileira dos preconceitos e afrontas à Constituição: aposente-se.


Um abraço do José Augusto Carvalho


Nota: Divulgo esta carta deste meu querido Amigo brasileiro, o qual, por coincidência, tem um nome igual ao meu. Abraço. José-Augusto de Carvalho

terça-feira, 17 de abril de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Corrupção: crime contra a sociedade

Segundo a Transparência Internacional, o Brasil comparece como um dos países mais corruptos do mundo. Sobre 91 analisados, ocupa o 69º. lugar. Aqui ela é histórica, foi naturalizada, vale dizer, considerada com um dado natural, é atacada só posteriormente quando já ocorreu e tiver atingido muitos milhões de reais e goza de ampla impunidade. Os dados são estarrecedores: segundo a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) anualmente ela representa 84.5 bilhões de reais. Se esse montante fosse aplicado na saúde subiriam em 89% o número de leitos nos hospitais; se na educação, poder-se-iam abrir 16 milhões de novas vagas nas escolas; se na construção civil, poder-se-iam construir 1,5 milhões de casas.


Só estes dados denunciam a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Se vivessem na China muitos corruptos acabariam na forca por crime contra a economia popular. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados como agora com o contraventor Carlinhos Cachoeira que para garantir seus negócios infiltrou-se corrompendo gente do mundo político, policial e até governamental. Mas não adianta rir nem chorar. Importa compreender este perverso processo criminoso.


Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, expressão que não consta na Bíblia mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra idade”(8,21). O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer:“somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, senão segue sua tendência.


Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.


A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então as pessoas para sobreviverem e guardarem a mínima liberdade eram levadas a corromper. Quer dizer: subornar, conseguir favores mediante trocas, peculato (favorecimento ilícito com dinheiro público) ou nepotismo. Essa prática deu origem ao jeitinho brasileiro, uma forma de navegação dentro de uma sociedade desigual e injusta e à lei de Gerson que é tirar vantagem pessoal de tudo.


A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo, na indigente democracia e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo não se distingue a esfera pública da privada. As elites trataram a coisa pública como se fosse sua e organizaram o Estado com estruturas e leis que servissem a seus interesses sem pensar no bem comum. Há um neopatrimonialismo na atual política que dá vantagens (concessões, médios de comunicação) a apaniguados políticos.


Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista. Se tomarmos tais valores como critérios, devemos dizer que nossa democracia é anêmica, beirando a farsa. Querendo ser representativa, na verdade, representa os interesses das elites dominantes e não os gerais da nação. Isso significa que não temos um Estado de direito consolidado e muito menos um Estado de bem-estar social. Esta situação configura uma corrupção já estruturada e faz com que ações corruptas campeiem livre e impunemente.


A cultural: A cultura dita regras socialmente reconhecidas. Roberto Pompeu de Toledo escreveu em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos que de fato são. Via de regra podemos dizer: quanto mais desigual e injusto é um Estado e ainda por cima centralizado e burocratizado como o nosso, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.


Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico Lord Acton (1843-1902): ”o poder tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava:”meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.


Por que isso? Hobbes no seu Leviatã (1651) nos acena para uma resposta plausível: “assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Lamentavelmente foi o que ocorreu com o PT. Levantou a bandeira da ética e das transformações sociais. Mas ao invés de se apoiar no poder da sociedade civil e dos movimentos e criar uma nova hegemonia, preferiu o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiu a governabilidade a preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética. Um sonho de gerações foi frustrado. Oxalá possa ainda ser resgatado.


Como combater a corrupção? Pela transparência total, por uma democracia ativa que controla a aplicação dos dinheiros públicos, por uma justiça isenta e incorruptível, pelo aumento dos auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes; o Brasil apenas, 12.800 quando precisaríamos pelo menos de 160.000. Mais que tudo, lutar por um outro tipo de democracia menos desigual e injusta que a persistir como está, será sempre corrupta, corruptível e corruptora.




Leonardo Boff
(teólogo, filósofo e escritor)


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quinta-feira, 12 de abril de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * O Papa e o Marxismo

Adital


O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.
Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.
Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).
O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.
Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.
A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.
Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de "partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano". A isso Marx chamou de socialismo.
O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867."Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério", disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. "Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20".
O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de "sociais-éticos" os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de "selvagem" e "pecado", e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política."As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo", afirma o arcebispo.
O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de "querido homônimo", falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.




Frei Betto é escritor, autor do romance «Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros, e assessor de movimentos sociais.http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro

terça-feira, 3 de abril de 2012

08 - CIDADANIA * A sede do município em questão


Durante séculos, a sede do município foi no castelo, naturalmente. Suponho que ainda no século XVII ou já no início do século XVIII, foi a sede transferida para o edifício construído na Praça hoje designada da República. Passava, portanto, de um lugar nobre para outro não menos nobre.
Já nos nossos dias, isto é, na segunda metade do século XX, entenderam os políticos da época transferir a sede do município para um edifício afastado da zona nobre da vila. Não conhecemos os motivos que determinaram a mudança, mas, ainda que desconhecendo-os, permitimo-nos rejeitá-los exactamente porque nos recusamos a entender a sede do município noutro local. Compreendemos, evidentemente, o argumento de o edifício da Praça da República ser insuficiente para todos os serviços municipais, mas tal argumento, válido, com toda a certeza, não poderia nem deveria ter determinado uma mudança integral.
Em muitas cidades e vilas do nosso país, os serviços municipais estão distribuídos por vários edifícios, mantendo sempre, todavia, as sedes nos locais originários ou nobres. Assim sendo, que estranha originalidade a nossa!
Quanto à Biblioteca Municipal, espaço terá no edifício camarário da Rua Brito Camacho por permuta com alguns dos principais serviços municipais a regressarem à Praça da República. E que esta sugestão seja entendida como provisória, isto é, até outro local ser encontrado, quer em edifício construído quer se tentada a adaptação porventura da Escola de São João, quando esta for definitivamente abandonada como espaço escolar.
Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Viana, 3 de Abril de 2012.

Em tempo: Ainda que tardiamente, aqui reclamamos o direito à opinião.

08 - CIDADANIA * Do Castelo a São João

Supomos saber que a rua principal de Viana será a actual Rua Cândido dos Reis, rua que ligava o Castelo (o poder político vigente) à Igreja (o poder religioso vigente) existente no local onde hoje encontramos a Escola Primária de São João. Seria certamente a rua directa, directa que, por corruptela, viria a dar direita. Ainda, em muitas povoações, perdura a rua direita.
Seria mais avisado designá-la por Rua de D. Dinis, homenageando o monarca a quem Viana muito terá ficado devendo, mas os senhores da política usam de razões que temos dificuldade em entender e aceitar como razoáveis.
A Praça da República, excelente nome!, se atendermos a que deriva de res publica, que significa coisa pública, situa-se à esquerda da rua supracitada, considerando o sentido Castelo - antiga Igreja.
Como terá sido desde recuados tempos, conviria que a rua e a praça tivessem mantido o piso empedrado (calçada). Também mal-avisado terá andado quem determinou o piso actual e o asfalto. Parece que, finalmente, teremos, para breve, o regresso desse antigo piso empedrado. Aplaudimos a ideia.
Outra situação a rever existe – a do trânsito. Parece-nos que a rua e a praça deveriam ser de uso exclusivo de peões, proporcionando a todos nós um passeio público na zona nobre da vila.
Na praça, as árvores existentes, atendendo à desarmonia que provocam, devido às suas dimensões, deveriam ser substituídas; e não só pelo motivo indicado mas, também, porque afectam a estátua, em boa hora erigida a António Isidoro de Sousa.
Evidentemente que a estátua não é apenas afectada pelas árvores de exagerada dimensão para a área da praça; também as crianças que nela se empoleiram afectam a sua dignidade. Talvez um pequeno lago no espaço circular existente evitasse a irreverência infantil. E, porque não, desse mesmo lago partindo um ou diversos focos luminosos para que, durante a noite, a estátua ficasse bem visível?
Finalmente (?), para quando a remoção do fio eléctrico distendido desde o edifício da Repartição de Finanças ao edifício da Câmara dita velha, do qual pende uma solitária lâmpada sobre o tabuleiro da praça? Não sabemos a quem se deve tão canhestra ideia. Aqui ficam o reparo e a censura a quem teve a ideia e também a quem a perpetua.
Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Viana, 3 de Abril de 2012.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

08 - CIDADANIA * Memorial


A grande questão que se nos coloca é por onde começar. As situações que se nos deparam são várias. Graduar as prioridades não será tarefa fácil porque divergem as perspectivas de análise e graduação. Ora porque assim é, decididamente será preferível ir abordando as situações, não ao acaso, mas como elas nos ocorrerem. E sem preocupação de interesses outros que não os da cidadania, estes, sim, os únicos que nos movem. Não buscamos prebendas nem aplausos. Aprendemos a viver com pouco; deixamos os aplausos para os que se exibem em palanques.

Não diremos nada de original. Lá diz o rifão que nada de novo há sob o sol. Apenas nos limitaremos a salientar o que foi soterrado, designadamente valores e bom-senso.
Entre diversas lacunas, salientamos, agora, a de um memorial dos filhos desta terra que deram a vida por causas ponderáveis ou não. Falamos dos mortos na I Grande Guerra e na Guerra Colonial. Falamos de cidadãos que foram chamados a intervir em conflitos. As causas que os provocaram já foram ajuizadas pela História.
Considerando que Viana é sede de município, a lacuna referida será semelhante nas povoações de Aguiar e Alcáçovas, exactamente porque integram este município.
Trata-se duma homenagem devida e consensual, evidentemente.
É muito séria a decisão que provoca o derramamento de sangue.
Da reparação de tamanho dano, falamos da perda de vidas, as entidades públicas ajuizarão. Para tanto (também) servem. A bem da justeza, oxalá que bem ajuízem.
Até sempre!


José-Augusto e Carvalho
Viana, 2 de Abril de 2012.

terça-feira, 13 de março de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Dia da mulher. Que mulheres?

Antes de celebrar o Dia da Mulher a 8 de março, há que comemorá-lo. Os dois verbos têm diferentes significados, embora frequentemente empregados como sinônimos. Celebrar é promover cerimônia, destacar, tornar célebre, donde celebridade. Comemorar é fazer memória, resgatar o passado, atualizar lembranças.
De que mulheres tratamos nesta efeméride? Da empregada doméstica que a família preza como parente para camuflar a sonegação de seus direitos trabalhistas, a falta de carteira assinada, de férias regulares e salário digno?
É também o dia das babás, a quem é negado o direito de estudar, aprimorar-se profissionalmente, e exigido cuidado e afeto aos bebês da família? Quem se lembra das mulheres chefes de família, largadas à deriva por seus maridos, obrigadas à dupla jornada de trabalho para tentar educar os filhos?
As mulheres são a metade da humanidade. A outra metade, filhos de mulheres. E, no entanto, bilhões prosseguem submetidas ao machismo irreverente, proibidas de dirigir carros em alguns países árabes, obrigadas a suportar a poligamia em clãs africanos, forçadas à infibulação (castração feminina) em culturas fundamentalistas, menosprezadas ao nascer na China patriarcal.
Pobre Ocidente que, do alto de sua arrogância, mira tais práticas como se aqui as mulheres tivessem alcançado a emancipação. É verdade, multiplica-se o número de mulheres chefes de Estado ou de Governo, como, atualmente, Dilma Rousseff (Brasil); Cristina Kirchner (Argentina); Laura Chinchilla (Costa Rica); Ângela Merkel (Alemanha); Tarja Halonen (Finlândia); Pratibha Patil (Índia); Dália Grybauskaité (Lituânia); Eveline Widmer-Schlumpf (Suíça); Ellen Johnson Sirleaf (Libéria); e Sheikh Hasina (Bangladesh).
Não olhemos, porém, apenas para o alto. Mirem-se nas mulheres de Atenas, sugere Chico Buarque. "Elas não têm gosto ou vontade. ¤ Nem defeito, nem qualidade; ¤ têm medo apenas. ¤ Não têm sonhos, só têm presságios. ¤ O seu homem, mares, naufrágios... ¤ Lindas sirenas, morenas.”
Há que mirar em volta: mulheres como isca de consumo, adornando carros e bebidas alcoólicas. Mulheres no açougue virtual da chanchada internáutica e nas capas de revistas que cobrem as bancas de jornais, a exibir, como vacas em exposição pecuária, seus atributos físicos anabolizados cirurgicamente.
Milhões de mulheres tentando curar suas frustrações, via medicamentos e terapias, por não corresponderem aos padrões vigentes de beleza. Mulheres recauchutadas, anoréxicas, siliconizadas, em luta perene contra as rugas e as gorduras que o tempo, implacável, imprime a seus corpos. São as gatas borralheiras sempre a fugir da hora em que a velhice bate à porta, tornando-as menos atrativas aos olhos masculinos.
Sim, é preciso fazer memória de mulheres que não foram ricas de imbecilidade nem se expuseram na vitrine eletrônica do voyeurismo televisivo em rede nacional. Refiro-me a Judite, que derrotou o general Holofernes; Maria, que exaltou os pobres, despediu os ricos de mãos vazias e gerou Jesus; Hipácia, filósofa e matemática de Alexandria; Joana d’Arc, queimada viva por desafiar monarcas e cardeais; Teresa de Ávila, que arrancou Deus dos céus e centrou-o no coração humano; Joana Angélica, monja baiana que se opôs ao colonialismo português; Olga Benário, combatente contra o nazifascismo; Zilda Arns, que ensinou dezenas de países a reduzirem a mortalidade infantil; e tantas outras mulheres anônimas que, literalmente, carregam o mundo no ventre e nas costas.
À tradição cristã se deve muito a demonização da mulher. A começar pela interpretação equivocada de que foi Eva a responsável por introduzir o pecado no mundo. Assim como o papa se penitenciou por ter a Igreja Católica condenado Galileu e Darwin, é hora de se aproveitar uma data como 8 de março para reabilitar a mulher na Igreja, permitindo-lhe acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado.
Jesus primeiro se revelou como messias a uma mulher – a samaritana do poço de Jacó. Ela pode ser considerada a primeira apóstola. E foi a uma mulher – Madalena - que primeiro Jesus apareceu ao ressuscitar.
E é bom sempre recordar a afirmação do papa Sorriso, João Paulo I: "Deus é mais mãe do que pai”.



Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

14 - CURIOSIDADES * Revisitando a juvenília

Arrumando e rearrumando papeis antigos, na presunção de manter viva a lembrança de um tempo que irremediavelmente desapareceu na voragem do movimento planetário que gera e cavalga o tempo, encontrei estes versos da juvenília. São dois glosamentos em forma imitada de Bocage. Não importa, agora, a qualidade; apenas dou a conhecer o que eu escrevia e como escrevia, na adolescência. Revisitar o passado é, muito vezes, acariciar a memória do que fomos.


I

O PENEDO

Oh, alta serra das neves
donde o penedo caiu!...
Ninguém diga o que não sabe
nem afirme o que não viu!

(quadra popular)


1
Nas asas do pensamento,
que nunca as houve mais leves,
encontrei-me, num momento,
«oh, alta serra das neves»,
no teu cume de cristal,
onde o reino vegetal
jamais medrou ou floriu!
Lá vi, do alto duma fraga,
essa parte, agora vaga,
«donde o penedo caiu».


2
Pelos fraguedos rolando,
que a desgraça a todos cabe,
foi ao mundo aconselhando:
«ninguém diga o que não sabe!»
Do tumular desfiladeiro,
já no esforço derradeiro,
que a voz do eco repetiu
por vales e por montanhas,
ainda arrancou das entranhas:
«nem afirme o que não viu!»




II

LUTA INTERIOR


Comigo me desavim,
sou posto em todos o perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Francisco Sá de Miranda
(1481-1558)




1
Cansado de procurar
a Lei do Princípio e Fim,
sem a poder encontrar,
«comigo me desavim».
Que razão em vão procuro
do Passado e do Futuro?
Como louco me persigo!
Quero hoje, amanhã não quero!
E, com tanto desespero,
«sou posto em todo o perigo».


2
Este viver, mar de fel,
a todo o instante maldigo.
Não posso viver com ele,
«não posso viver comigo»!
Esta vida, este martírio,
este constante delírio,
só na morte terá fim...
Meu destino está traçado:
Não posso fugir do Fado
«nem posso fugir de mim»!


Nota:
Textos com uma única publicação, no jornal República (suplemento República das Letras e das Artes), em 27 de Agosto de 1965.
Cordiais saudações.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

10 - JORNAL DE PAREDE * Salvar vidas ou o capital?

Frei Betto
(Escritor e assessor de movimentos sociais)

Adital



O melhor Papai-Noel do mundo mereceram 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano!


Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!


Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…


Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o Mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19).


No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.


Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa - como a fé em Javé - exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do Mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício "necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.


Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus - que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.


Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.


O deus da razão do Mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana.


O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente através do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente.


A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada. Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.


A lógica da vida encara o relato bíblico pelos olhos de Isaac. Este não sabia que seria assassinado, tanto que indagou ao pai onde se encontrava o cordeiro destinado ao sacrifício. Abraão cumpriu todas as condições para matar o filho. Subjugou-o, amarrou-o, colocou-o sobre a lenha preparada para a fogueira e empunhou a faca para degolá-lo.


No entanto, inspirado pelo anjo, Abraão recuou. Não aceitou a lógica da morte. Subverteu o preceito que obrigava os pais a sacrificarem seus primogênitos. Rejeitou as razões do poder. À lei que exigia a morte, Abraão respondeu com a vida e pôs em risco a sua própria, o que o forçou a mudar de território.


Se não mudarmos de território – sobretudo no modo de encarar a realidade -, como Abraão, continuaremos a prestar culto e adoração a Mamom. Continuaremos empenhados em salvar o capital, não vidas, e muito menos a saúde do planeta.


[Frei Betto é escritor, autor de "Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes), entre outros livros.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

08 - CIDADANIA * Agenda


Agenda

(Do latim agenda – coisas que devem ser feitas; de ager= agir, fazer)

Todos nós temos a nossa agenda. Uns fazem-na; outros adoptam a(s) que lhes dão ou lhes impingem.
Hoje, importará falar da agenda do nosso dia-a-dia colectivo. Como é natural, a comunicação verbal é uma das partes mais importantes do nosso quotidiano. Falamos com os familiares, com os amigos, com os colegas, com os vizinhos, com os conhecidos e até com desconhecidos. Falamos muito e essa prática é boa. Por vezes, é agradável conversar; por vezes, nem tanto; por vezes, é um dever de ofício ou de civilidade.
Com raras excepções, todos nós propomos ou aderimos a propostas de conversas sobre o tempo que faz ou não faz, sobre o estado de saúde dos nossos, sobre o último acontecimento ocorrido no nosso meio, no país ou na estranja, etc.
Para além destas conversas, são frequentes muitas outras provocadas pela dita Comunicação Social. Sabemos quanto nos influenciam (e quantas vezes condicionam) a Televisão, a Rádio, os jornais e revistas, exactamente porque são parte importante da nossa vida colectiva. E compreende-se: a função principal da Comunicação Social é informar e formar.
Chegados a esta definição da Comunicação Social (informar e formar), importará determo-nos na responsabilidade que impende sobre quem decidiu assumir a responsabilidade de contribuir para uma mais adequada informação e formação de todos nós. Ora, este exercício de análise, que se deseja constante, é fundamental para separarmos o trigo do joio. Porque queremos informação e não desinformação; porque queremos formação e não mal formação.
Ficamos entendidos? Oxalá!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 26 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

08 - CIDADANIA * «Tento na Língua»

Pela sua inegável importância, aqui se releva este trabalho do senhor António Marques, retirado, com a devida vénia, do seu blog http://tentolingua.wordpress.com/

Gralhas que por aí grasnam
Erros que por aí grassam


“Tratam-se de”?! Não! “Trata-se de” – erros de “excelência” abusadaAntes de mais, ‘abusada’, porque são incorrecções (que abusam da norma); de ‘excelência’, porque são cometidos por utentes da língua, por vezes grandes plumitivos, que tinham (têm) por obrigação dar exemplo. E, não só não dão exemplo, como até, às vezes, se arrogam o direito de se obstinarem no erro, como quem diz que assim é que deve ser. Ou seja, decretam a abolição da norma e, logo a seguir, decretam como norma a sua opinião, que não passa disso e ainda por cima é… incorrecta. Vejamos então alguns exemplos (maus exemplos…).

“Só publicamos audiências do primeiro-ministro com outros governantes quando se tratam de primeiros-ministros […] “ (DN 13/NOV/07, p. 20. Negrito nosso).

Este erro é um dos que se ouvem e se lêem a toda a hora nas televisões, nas rádios e nos jornais, saído muitas vezes da pluma de grandes plumitivos, mesmo em jornais ditos de “referência”, como neste caso. Trata-se nem mais nem menos do que da expressão verbal tratar-se de que, nesta acepção, é impessoal, ou seja, só se usa, como todos os verbos impessoais, na 3ª pessoa do singular: trata-se disto, trata-se daquilo. Trata-se, aqui, de confusões gramaticais, de incorrecções, de ignorância. Corresponde ao francês il s’agit de, também impessoal, quer se trate de uma só coisa ou de muitas coisas. E quer se trate do português – trata-se de, tratou-se de, tratava-se de –, quer do francês – il s’agit de, il s’agissait de –, os dois casos têm a ver com o latino agitur (= trata-se), donde herdaram, certamente, a sua impessoalidade.

Outro caso: “A Al-Arabiya exibiu duas novas fotografias de soldados americanos, pousando [sic] ao lado de um iraquiano morto enquanto sorriam e exibiam os polegares erguidos, indicando que se tratavam [sic] de novas imagens de abusos cometidos em Abu Ghraib.[…] “ (DN 21/Maio/07, p. 14)

Vejamos, devidamente corrigida, a incorrecção referida (segunda sublinhada): “…indicando que se tratava de novas imagens de abusos cometidos…”. Vejam bem: “que se tratava” e não “que se tratavam”. Digo-lhes uma coisa: se eu fosse a contar as vezes que, num só dia, leio ou ouço esta incorrecção linguística, era capaz de passar da dezena…

Na segunda linha da citação, podemos ver outro erro que, já agora, vamos também tentar explicar: trata-se do verbo pousar, incorrectamente usado em vez de posar. Temos em português o neologismo posar (pronunciar como se o ‘o’ tivesse acento circunflexo) que nos veio do francês poser e que, segundo os dicionários, que de data recente o registam como neologismo/galicismo, significa: “Tomar posição conveniente para se deixar pintar ou fotografar. / Fazer-se notado, assumir atitudes de quem está sendo muito observado.” Presente do indicativo: eu poso, tu posas, ele posa, nós posamos, vós posais, eles posam. No texto jornalístico, confundiu-se posar com pousar que tem significado diferente, deriva do latino pausare e significa: colocar, pôr, assentar. Podem ser considerados parónimos e é daí certamente que vêm estas confusões. De notar que o francês poser abrange os significados dos dois parónimos portugueses.

Senhores jornalistas, orais ou escreventes, daqui lhes peço, pelas alminhas que lá têm, que não cometam mais esses abusos linguísticos. Trata-se, para classe de tanto poder, de coisas que têm a ver com honra, com brio, com orgulho de classe, pois então!…

08 - CIDADANIA * A rendição

Foi anunciado com pompa e circunstância um acordo na Concertação Social.
Intervenientes: Governo+Associações Patronais+UGT (União Geral de Trabalhadores).
No acordo assinado há apenas perdas para os Trabalhadores. E porque assim é, o que mereceu a concordância final da Central Sindical  (UGT)?
A História de Portugal e a História do Movimento Sindical Português registarão, para reflexão dos vindouros, a rendição do Povo Trabalhador, sob a assinatura da UGT.

***
Nota importante:
A CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses) abandonou os trabalhos, recusando, indignada, a rendição.

sábado, 14 de janeiro de 2012

14 - CURIOSIDADES * Piano

Este instrumento fue inventado en 1698 por el fabricante florentino de clavecines Bartolomeo Cristofori, cuyo primer modelo quedó listo en 1709 y se llamó gravicembalo col piano e forte (clavecín con suave y fuerte), aunque fue más conocido inicialmente como pianoforte, que más tarde se abrevió a piano y así llegó a nuestra lengua. En la actualidad se conocen dos pianos fabricados por Cristofori: uno de ellos, de 1720, está en el Museo Metropolitano de Arte de Nueva York; el otro, fechado en 1726, se exhibe en el museo de la Universidad Karl Marx, de Leipzig.
Cristofori llevó adelante su proyecto del piano al constatar que el clavecín no permitía hacer que los tonos fueran más suaves —en italiano, piano— o más fuertes o recios —en italiano, forte—.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

13 - CALEIDOSCÓPIO * Lição de História

Judas traiu,

Pedro negou,

Roma lavou as mãos e sorriu...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Janeiro de 2012.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

06 - ROMANCEIRO * O grito



Aqui chegado, páro.


É tempo de balanço.


Se pródigo não fui, também não fui avaro.


E, agora, como avanço?



No velho cais, resiste


a lusa lenda alada, antiga doutras eras.


Não só o fado triste


chorando a perdição de mortas primaveras.





No velho cais, existe


o grito que ficou e a pedra glorifica.


O grito desta voz que viva não desiste


e nem rendida fica.






 

José-Augusto de Carvalho

9 de Janeiro de 2012.

Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

06 - ROMANCEIRO * Oh, minha terra amada!




Sofremos, e na dor do sofrimento,
gerámos esta força de ir avante.
Oh, minha terra amada, dá-me alento
p'ra que de cada queda me levante!



Regámos cada morto com o sal
das lágrimas choradas no desgosto.
Oh, minha terra amada, tanto sal
abriu em chaga as rugas do meu rosto!



Fizemos um poema de louvor
das modas p'lo trabalho consagradas.
Oh, minha terra amada, e tanto amor
por jornas de tão baixas desgraçadas.



Sentimos que chegara um tempo novo
naquele amanhecer de Abril em festa!...
Oh, minha terra amada, tanto povo
sofrendo agora o nada que nos resta!



Mas sempre nesta força de ir avante,
não esmorece o tempo nem o alento.
Oh, minha terra amada, que o teu Cante
não silencie o teu encantamento!




José-Augusto de Carvalho

5 de Janeiro de 2012.
Viana*Évora*Portugal
In «Clave de Sul», em preparação

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

06 - ROMANCEIRO * Estes (meus) dias!...




Os dias acontecem devagar,
ao ritmo do relógio que inventámos.

Em Maio vem o tempo de ceifar

o trigo que em Novembro não semeámos.


O ciclo natural do nosso pão,

alheio à míngua em dor da nossa mesa.

Ah, pátria minha, tanta provação

e tantos horizontes de incerteza!


Um rictus quase obsceno e vil enruga

a massa levedada que me fita.

No velho cais, em lágrimas, a fuga

acena a rendição desta desdita...

E eu fico olhando e nem me reconheço...

Que fiz de mim se já nem me mereço?




 

José-Augusto de Carvalho

5 de Janeiro de 2012.

Viana * Évora * Portugal