domingo, 5 de dezembro de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * História - um trabalho de Augusto Buonicore

A memória histórica
como campo da luta de classes (I) e (II)

por Augusto Buonicore

Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, ela rapidamente nos diria: É algo que trata de factos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (factos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente.
O artigo é de Augusto Buonicore, publicado originalmente no "site" da Fundação Maurício Grabois.


(I)

Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los a desvendar e, principalmente, a transformar o mundo em que viviam.
O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os factos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser colectados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.
Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.
No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exactas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.
Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos factos puros, duros e irretorquíveis.
Contra os factos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os factos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os factos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os factos que vêm à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de factos históricos que existem objectiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.
No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.
É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direccionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.
A história não é a simples catalogação neutra de factos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos factos podemos construir várias e contraditórias interpretações.
O historiador marxista tem como objectivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objectos da história.
As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.
Mas qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.

Por que os trabalhadores devem conhecer a história?

Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.
Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.
Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egipto foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais subtis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.
Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egipto, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.
No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foi contado por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.
Somente na segunda metade do século XIX, ao começar a ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.
Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exacta da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessário para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiriam ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeças do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.
Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.
Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará a travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.
Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a acção consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente activo de sua própria história.

Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983


(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.


***
Mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.


(II)


D. Pedro I: um grito parado no ar

Vejamos agora como se constroem socialmente os factos e personagens históricos, tendo como referência a história do Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico facto histórico. Acredito que ninguém, actualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional.
É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objectivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Braganças, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República.
O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didácticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis.
Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817).
No 7 de Setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina.
Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além-mar.
Em Fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de Julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola.
Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída.
Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação.
Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e acção dos sectores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.

Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas

Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin.
Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “acto de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.
Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, foram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – quem mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional.
Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários, etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes.
A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.
Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.

Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial

Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo.
Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza.
Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu sector mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como o legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus.
Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.
O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e factos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, correctamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos.
Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.
Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O acto solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.

Quem e como se faz a história


Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como colecção de fatos puros (objectivos), distribuídos cronologicamente.
Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.
As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.
Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

Bibliografia[/b}
BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980.
BUONICORE, Augusto, Marxismo, história e revolução brasileira, Ed. Anita Garibaldi, SP, 2009
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978.
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991.
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998.
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988.
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988.
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980.
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981.
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983.


* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010.
http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro

terça-feira, 19 de outubro de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Halloween


(De “Cartas de uma judia a um pastor”)


Caro Pastor,

Em seu sermão, você falou nos males de se comemorar Halloween. Isto me fez lembrar de algumas coisas.
Natal é o Solstício de Inverno, uma festa nórdica pagã. Para apaziguar e satisfazer o povo, a Igreja comprometeu as profecias escritas na Bíblia, erradicou diversos de seus livros (agora considerados "Apócrifos"), e promoveu a maior fraude de todos os tempos: o Natal, inclusive com Iggdrasil, a árvore eternamente verde da mitologia nórdica.
Amigo, se formos erradicar cada festividade pagã de nosso calendário, vamos lá – comecemos por aqui mesmo, erradicando o Natal.
Para começo de conversa, de acordo com as Escrituras, tanto judias quanto cristãs, Jesus teria que ter nascido em outubro, durante as festividades de Succot (a Festa dos Tabernáculos), quando os pastores ainda podiam estar “nos campos com as ovelhas”. Em dezembro, amigo, nem mesmo o pastor mais lunático estaria fora à noite, em campos cobertos de neve. Muito menos ovelha!
Como você pode ver, se vamos ser exatos, cortemos o Festival de Inverno do Natal, com seus bonecos loiros representando um Jesus nórdico, em um Festival nórdico de orgia invernal.
Cortemos também a Páscoa, já que estamos cortando tudo, porque ela não tem nada a ver com o histórico bíblico da ressurreição do Cristo, que aconteceu três dias depois do Shabbat, portanto numa quinta-feira, logo após a Passover que, naquele ano, caiu bem no Shabbat. É só estudar os festivais através dos séculos, e tem-se a data.
Vamos também dar um fim no Dia de Ação de Graças - Thanksgiving -, que comemora o fim, sem nunca ter havido um começo, da boa vontade dos Peregrinos, recém-chegados ao Novo Continente, para com os nativos americanos. Logo depois disto, eles começaram a roubar a terra deles, matando-os e destruindo suas tradições – tudo em nome de fazer para si mesmos um lugar onde pudessem ser livres para “adorar a Deus”...
Vamos nos livrar também do Dia da Bandeira, Dia do Soldado, Dia da Descoberta da América... ora, todos os feriados, já que eles, todos eles, sem nenhuma exceção, comemoram a vitória de um grupo, com a destruição de outro.
Agora voltemos ao Halloween, Dia das Bruxas, que deu início a tudo isto. Ele existe? Sim. É o Dia dos Mortos, no qual, aqui no Brasil e em muitos países, as pessoas vão aos cemitérios honrar seus parentes falecidos. E por que não? Abraão honrou o local onde Sara fora enterrada. José honrou seus próprios ossos e ordenou que fossem levados à Terra Prometida. Segundo o Novo Testamento, Jesus foi colocado na tumba de um homem rico. Honrar os mortos com um dia especial não tem nada a ver com o mal. O que há de errado nisto?
Deixe que as crianças brinquem, meu amigo. Exorcizemos Halloween, fazendo com que flores cresçam onde descansam cinzas. Por que lutar com medo contra o que se vê como sendo o mal? Encaremos nossos medos! Deus fez cada um dos dias. “Este dia foi feito pelo Senhor. Vamos nos regozijar e ser felizes nele.” Salmos 118:24.
Deixe que as crianças se fantasiem, brinquem, comam doces: cada dia pretence ao Senhor, deixe-os se regozijarem e serem felizes nele. Até mesmo o Novo Testamento diz, em Tito 1:15: “Para o puro todas as coisas são puras, mas para os impuros e descrentes, nada é puro; mas até a mente e a consciência deles está corrompida.”
Bom, agora que você está completamente horrorizado e perguntando-se de onde fui tirar todas estas idéias, deixe-me contar-lhe: é sempre bom basear sua fé em fatos reais. Até mesmo o Cristo – ele baseou suas obras e suas palavras no que Deus já havia feito aos judeus e não nos temores do povo. Ele rompeu todas as regras, mantendo apenas o essencial: pureza e amor – que são os atributos de Deus.
Tudo o mais é somente isto, meu amigo: tudo o mais...

Dalva, inutilmente abrindo a boca
Dalva Agne Lynch * www.dalvalynch.net

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

02 - POESIA VIVA * La Poesía es un arma cargada de Futuro

Gabriel Celaya (Espanha, 1911-1991)



Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.


Tal es mi poesía: poesía-herramienta a la vez que latido de lo unánime y ciego. Tal es, arma cargada de futuro expansivo con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada. No es un bello producto. No es un fruto perfecto. Es algo como el aire que todos respiramos y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado. Son lo más necesario: lo que no tiene nombre. Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

sábado, 21 de agosto de 2010

02 - POESIA VIVA * Balada para los poetas andaluces de hoy


Federico García Lorca
(assassinado em 1936)





¿Qué cantan los de ahora?
¿Qué miran los de ahora?
¿Qué sienten los de ahora?
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.
¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quien mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado.
Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.
¿Qué cantan los de ahora?
¿Qué miran los de ahora?
¿Qué sienten los de ahora?
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.
¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quien mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.



Rafael Alberti. 

Ora marítima, 1953.

sábado, 14 de agosto de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Carta Aberta


Carta Aberta
aos responsáveis pelo Forum Fernando Pessoa, em Poesía Pura


Exmos. Senhores:

Oportunamente, publiquei neste Forum Fernando Pessoa, sob o título «6 de agosto de 1945, nunca mais!», um poema do grande Poeta Vinicius de Morais e outro meu.
Quiseram alguns leitores honrar-me com comentários. Agradeci e reitero, agora, esses agradecimentos.
Paralelamente, apercebi-me de uma agitação entre alguns membros deste Forum. Porque não fui visado, não interferi nem tinha que interferir. Fiquei, evidentemente, desagradado com a situação e perplexo por não me ter apercebido de qualquer tomada de posiçao por parte de V. Exas.
Verifiquei, há momentos, que este espaço da minha publicação supra mencionada foi amputado de alguns textos. Ora, porque não descortino qualquer plausibilidade para este acto de grosseira censura, solicito a V. Exas. as indispensáveis explicações.
Independentemente da legitimidade que me assiste neste meu pedido e no dever de V.Exas. em atendê-lo, a bem da claridade, da transparência e da honestidade intelectual, sinto informar que todo o sucedido me retira condições para continuar colaborando no Forum Fernando Pessoa. Nesta hora de despedida, saúdo todos quantos me honraram com a sua estima.
Na expectativa da resposta que V.Exas. não deixarão de dar-me, subscrevo-me com a devida consideração.

José-Augusto de Carvalho
12 de Agosto de 2010.
Viana * Évora * Portugal

PS- Reservo-me o direito de publicitar esta carta aberta noutros espaços.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Da manipulação


Neste tempo que vivemos, que transformou a esperança no dia de amanhã numa ansiedade angustiada, creio ser oportuno meditar no texto abaixo.




CHOMSKY E AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA
O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:


1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a at enção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.


2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.


4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.


5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.


6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…


7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.


8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…


9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!


10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro

terça-feira, 27 de julho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Assim vai a Junta de Freguesia de Alvalade, em Lisboa


Diz um velho rifão: «Se queres ser bom, morre ou vai-te!...»

Pois é, a Assembleia de Freguesia de Alvalade, em Lisboa, não pensa assim.
Casualmente, chegou às minhas mãos o PRESTA CONTAS nº.17, da CDU, correspondente aos meses de Junho e Julho de 2010. E leio:



«A Assembleia de Freguesia de Alvalade, reunida em 24 de Junho de 2010, delibera manifestar o seu profundo pesar, a sua enorme mágoa pela morte do escritor José Saramago e expressar as suas sentidas condolências à sua companheira Pilar del Rio e restante família.»
Voto de pesar recusado com 4 votos a favor (1 PCP e 3 PS) e 7 votos contra (PSD).


Votos de pesar apresentados por outro partido:

O PCP votou a favor de um voto de pesar pelo falecimento de José Saramago.

(Aprovado com 7 votos a favor e 4 abstenções.)

O PCP votou a favor de um voto de pesar pelo falecimento de Saldanha Sanches.

(Aprovado com 10 votos a favor e um voto contra.)
O PCP votou a favor de um voto de homenagem a Tito de Morais, por ocasião dos cem anos do seu nascimento.
(Rejeitado com 4 votos a favor e sete votos contra.)

Assim vai a Freguesia de Alvalade, em Lisboa...


José-Augusto de Carvalho

segunda-feira, 26 de julho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Ainda Israel

El diputado Jordi Pedret, iba a Gaza con sus compañeros a visitar
proyectos educativos, sanitarios y los campamentos de la ONU.(Foto:Efe)

Israel niega entrada a Gaza a políticos para evitar que sean ''manipulados''
El diputado Jordi Pedret, iba a Gaza con sus compañeros a visitar proyectos educativos, sanitarios y los campamentos de la ONU.(Foto:Efe)
Autoridades israelíes le impiden el paso, a cuatro diputados españoles, a la Franja de Gaza. ''Veníamos a visitar proyectos educativos, sanitarios y los campamentos de verano de la ONU'', aseguró un parlamentario socialista. Por su parte, el gobierno israelí asegura que la negativa se debe a que Hamas se aprovecha de las visitas para manipular.


Lea también
Israel califica de ''provocación'' querella presentada por activistas españoles por asalto a flotilla
Ejército israelí reconoce 'errores a nivel superior' en ataque a flotilla Libertad
Turquía romperá relaciones si Israel no pide perdón por ataque a Flotilla
David Segarra afirmó que Israel planeó una masacre con asalto a Flotilla de la Libertad
Líbano responsabiliza a Israel de cualquier ataque contra su flotilla
Israel advierte violencia si flotillas continúan intento de entrar a Gaza
Israel reitera amenaza de interceptar barco libio con ayuda humanitaria



TeleSUR _ Hace: 16 horas

Israel no autorizó la entrada de cuatro diputados socialistas españoles que invistados por la ONU se disponían este domingo a visitar la Franja de Gaza, pues aseguran que la entrada a ministros y políticos a Gaza no está permitida para imperdir que Hamas "manipule" a los visitantes. . "Veníamos a visitar proyectos educativos, sanitarios y los campamentos de verano de la Organización de Naciones Unidas (ONU)", aseguró el socialista Jordi Pedret."En ningún caso se puede interpretar como una visita de apoyo a Hamas. Pero si Israel no nos deja ver lo que pasa dentro de Gaza, entonces nace la legítima sospecha de que cuando la ONU habla de que los problemas en Gaza son en parte consecuencia del bloqueo, tiene razón", reclamó el diputado.Por su parte, Fátima Aburto, quien también forma parte de la misión, relató que los israelíes comunicaron la decisión por medio del Consulado General español en Jerusalén, sin ofrecer explicaciones. El portavoz del Ministerio de Exteriores israelí, Yigal Palmor, negó que no se haya explicado la situación y dijo que la razón es que "Hamas aprovecha para manipular la visita". "Les hemos dicho, que nos hemos dado cuenta de que cada vez que políticos o ministros entran en Gaza, Hamas aprovecha para manipular la visita y hacer creer que se trata de un acto de legitimación y reconocimiento por parte de la comunidad internacional. Por eso hemos decidido no permitirles la entrada", insistió Palmor. De este modo, "no se puede permitir la entrada regular en Gaza de políticos a nivel parlamentario o ministerial", subrayó."Estamos indignados. Consideramos un error que Israel trate de ocultar la situación en la región. Nosotros no somos ninguna flotilla, sino parlamentarios españoles que hemos venido en coordinación con la Agencia de Naciones Unidas para los Refugiados Palestinos (Unrwa), subrayó Aburto.El grupo de los cuatro diputados españoles: Fátima Aburto, José Antonio Peres Tápies, Jordi Pedret y Meritxell Cabezón, del Intergrupo Parlamentario por Palestina, tenía previsto llegar este sábado a la Franja, invitados por Unrwa. Pese a la problemática, Pedret aclaró que continuarán con el resto del programa, que apunta la visita a Cisjordania y Jerusalén Este. La delegación "seguirá con el programa visitando los proyectos de la Unrwa fuera de Gaza y tendrá también encuentros con movimientos sociales y con palestinos e israelíes que trabajan por la paz", afirmó Pedret.A pesar que el portavoz del ministerio israelí afirma que "no se oculta nada de lo que está pasando en Gaza", la diputada dijo que entendía que "si tienen que ocultar la verdad es porque algo muy malo hay detrás" y el hecho de que no le dejen entrar a territorio palestino "es bastante sospechoso".Los parlamentarios socialistas, que llegaron este jueves a Israel, permanecerán en la nación con el objetivo de visitar las ciudades cisjordanas de Ramala, Belén y Hebrón. En esta última, los diputados se desplazarán acompañados por los integrantes de la organización Rompiendo el Silencio, formada por ex militares y militares en la reserva israelíes. La organización Rompiendo el Silencio, denuncia los abusos del Ejército de Israel en los territorios ocupados palestinos.La Alta Representante de Política Exterior y de Seguridad de la Unión Europea, la británica Catherine Ashton, fue la última persona de occidente que visitó Gaza, que se encuentra bloqueada por Israel desde el año 2007, cuando Hamas ganó las elecciones en la Franja. Israel, tampoco ha permitido la entrada a Gaza por vía marítima, pues mantiene a la Franja aislada del mundo tanto por tierra como por mar. El pasado mes de mayo el Ejército israelí asaltó una flotilla humanitaria que llevaba toneladas de ayuda humanitaria a territorio palestino, en la que murieron nueve activistas turcos. Después, el pasado mes de junio, una Flotilla de origen libio intentó romper el bloqueo, pero Israel amenazó con violencia.

teleSUR-Efe-El país/yi - FC

domingo, 25 de julho de 2010

10 - JORNAL DE PAREDE * Israel: um monstro nasceu entre nós


Israel: um monstro nasceu entre nós

24/7/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Telavive
http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1279969692/


Desde que testemunhei a ascensão dos nazistas na minha infância na Alemanha, meu nariz avisa quando há fascismo no ar, desde o primeiro sinal.
Quando começou o debate sobre a “solução Um Estado”, meu nariz coçou.
“Calma, nariz”, disse eu. “Dessa vez, você errou. A “solução Um Estado” é ideia da esquerda. É ideia de gente credenciada, de grandes nomes de Israel e de todo o mundo, há entre eles até importantes marxistas.” Mas meu nariz não parava de coçar. Agora, afinal, parece que meu nariz não errou.
Não é a primeira vez que um plano de judeus ‘puros’ e de esquerda -- a esquerda kosher --, leva a conseqüências de extrema direita. Já aconteceu antes, por exemplo, no mais horrendo símbolo da ocupação da Palestina: o muro do apartheid. Foi ideia de judeus ‘puros’, de esquerda.
Quando se multiplicaram os ataques ‘terroristas’, políticos da esquerda israelense chefiados por Haim Ramon apareceram com uma solução milagrosa que tudo resolveria: construir obstáculo intransponível entre Israel e os Territórios Ocupados. Diziam que bastaria um muro para conter os ataques, sem ser preciso recorrer a ações brutais na Cisjordânia.
A Direita opôs-se veementemente. Para a Direita, seria golpe-conspiração para demarcar fronteiras fixas, que contribuiria para promover a Solução Dois Estados, a qual, para a Direita, seria (como ainda é) ameaça existencial aos planos da mesma Direita.
Mas, de repente, a Direita mudou de tom. Perceberam que o muro seria excelente oportunidade para anexar grandes porções de terras da Cisjordânia e entregá-las a colonos judeus. E aconteceu: o muro não foi construído ao longo da Linha Verde, mas bem dentro de território da Cisjordânia. E, sim, roubou grandes porções de terra de vilas palestinas.
Hoje, há manifestações da esquerda, todas as semanas, de protestos contra o muro; a direita manda soldados; os soldados atiram contra os manifestantes; e a Solução de Dois Estados permanece esquecida.
E a Direita ‘descobriu’ a Solução Um Estado. Meu nariz não para de coçar.
Um dos primeiros direitistas a falar sobre “um Estado” foi Moshe Arens, ex-ministro da Defesa. Arens é direitista extremista, membro fanático do partido Likud. Pôs-se a falar sobre “um Estado”, do mar Mediterrâneo ao rio Jordão, no qual seriam garantidos plenos direitos aos palestinos, inclusive direitos de cidadania e de voto.
Esfreguei os olhos. Seria o mesmo Arens? O que teria acontecido? Mas o mistério logo encontrou solução, solução simples.
Arens e seu grupo então ante um problema matemático que parece insolúvel: têm de converter o triângulo em círculo.
O projeto deles tem três lados: (a) querem um Estado judeu; (b) querem toda a ‘grande Israel’; e isso tem de ser (c) Estado democrático. Como fazer desses três lados bicudos, um círculo harmonioso?
Entre o mar e o rio vivem hoje cerca de 6,5 milhões de judeus e 3,9 milhões de palestinos – proporção de 59% judeus, para 41% palestinos (incluídos os habitantes da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, de Jerusalém Leste e os cidadãos árabes-israelenses. E sem incluir, é claro, os milhões de refugiados palestinos que vivem fora de Israel).
Vários ‘especialistas’ têm tentado desmentir esses números, mas estatísticos respeitados, dentre os quais vários israelenses, aceitam-nos, com pequenas correções para um lado e o outro.
A proporção, aliás, está mudando rapidamente a favor dos palestinos. A população de palestinos em Israel duplica a cada 18 anos. Mesmo que se considere o aumento vegetativo da população de judeus em Israel e a imigração previsível no futuro imediato, pode-se facilmente prever com precisão matemática o momento em que os palestinos serão maioria na população entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. É tempo que se calcula em anos, não em décadas.
A conclusão é uma só e inevitável. É possível atender duas, nunca as três aspirações abaixo, simultaneamente: (a) se se pensar em implantar Estado judeu em todo o país, esse Estado não será democrático; (b) se se pensar em implantar Estado democrático em toda a Israel, esse Estado não poderá ser judeu; e (c) se se pensar em Estado judeu e democrático, o Estado de Israel jamais corresponderá à “Grande Israel” dos sionistas.
É simples e é lógico. Ninguém precisaria ser um Moshe Arens, engenheiro de profissão, para entender. Assim sendo, a Direita procura hoje outra lógica, qualquer lógica, que lhes permita fantasiar um Estado judeu e democrático em toda a Israel.
Semana passada, o jornal Haaretz publicou notícia realmente surpreendente: personalidades destacadas da extrema direita israelense – de fato, da mais extrema extrema direita –, de repente, falavam da Solução Um Estado do mar ao rio. Falavam de um Estado no qual os palestinos seriam cidadãos plenos, com plenos direitos.
Aqueles direitistas citados na matéria de Noam Sheizaf
[1] não escondiam seus motivos: seu único interesse é impedir a criação de um Estado palestino ao lado de Israel, o que implicaria o fim da empreitada de colonização da Palestina e a evacuação de colônias e postos avançados de ocupação da Cisjordânia. Visavam também a calar a crescente pressão internacional a favor da Solução de Dois Estados.
Entre os esquerdistas do mundo que defendem a Solução Um Estado, a notícia foi recebida com aclamações de júbilo. E não faltaram ironias contra o campo da paz israelense (por que será que a esquerda tanto gosta de inventar discussões dentro da própria esquerda?), acompanhados de elogios à ‘visão’ da direita israelense. Que inteligência! Que generosidade! Com que facilidade adotaram ideias opostas! Só a Direita israelense entende de paz!
Pois se esses bons companheiros lessem os artigos e declarações, descobririam que não, não é nada disso. A verdade é exatamente o contrário.
Todos os seis líderes da direita israelense citados naquele artigo têm várias ideias em comum, que merecem consideração atenta.
Primeira: todos excluem a Faixa de Gaza do ‘um Estado’ proposto. Só nesse detalhe, já desaparecem 1,5 milhão de palestinos, o que diminui o risco de desequilíbrio demográfico. (Esquecem que, pelo acordo de Oslo, Israel reconheceu a Cisjordânia e a Faixa de Gaza como território contínuo. Mas a direita, afinal, sempre entendeu que o Acordo de Oslo teria sido obra de esquerdistas traidores.)
Segunda: o ‘um Estado’ será, é claro, Estado judeu.
Terceira: a anexação da Cisjordânia será total e imediata, o que garantirá que a construção de novas colônias exclusivas para judeus possa continuar sem qualquer dificuldade. Na “Grande Israel” dos sionistas a empreitada colonial não pode ser limitada ou contida.
Quarta: Não há como garantir cidadania ‘antecipada’ aos palestinos.
O autor do artigo acima citado resume assim a posição daquela direita israelense: “um processo a ser completado num período estimado entre dez anos e uma geração, e, ao final do processo, os palestinos gozarão de plenos direitos individuais, mas o Estado será, nos símbolos e no espírito, Estado judeu (...). Não se fala de ‘Estado que pertencerá a todos os cidadãos’, nem em alguma ‘Isratina’, com bandeira na qual se unam a lua crescente e a estrela de Davi. O ‘um Estado’ significa soberania para judeus.”
Vale a pena conhecer os argumentos dos próprios interessados:
Uri Elitsur, ex-diretor geral do Conselho para Judeia e Samaria [ing. Judea and Samaria Council], organização dos colonos judeus conhecida como “Yesha”]: “Falo de um Estado judeu, Estado para os judeus, no qual existirá uma minoria árabe”.
Hanan Porat, um dos fundadores de Gush Emunim (dos colonos judeus religiosos; Porat é o homem que festejou e conclamou os judeus a festejarem o massacre de Baruch Goldstein em Hebron): “Sou contra a cidadania automática [para os palestinos] proposta por Uri Elitsur, que é ideia ingênua e levará a terríveis conseqüências. Proponho que se aplique a lei israelense nos territórios por etapas, primeiro nas áreas onde (já) há maioria de judeus. Depois, em etapas de uma década a uma geração, em todos os territórios.”
Porat propõe dividir a Palestina em três categorias de pessoas: (a) os que querem Estado árabe e estão dispostos a consegui-lo mediante terrorismo e luta contra o Estado (esses não terão lugar na “Grande Israel”). O que significa, é claro, que serão expulsos. (b) Os que aceitem seu lugar e submetam-se à soberania dos judeus, mas ainda não estejam dispostos a participar do Estado e cumprir todas as suas obrigações para com o Estado judeu (esses terão garantidos plenos direitos humanos, mas não terão representação no Estado judeu). E (c) os que declarem lealdade ao Estado judeu e jurem fidelidade a ele (esses receberão cidadania plena. E, claro, serão minoria).
Tzipi Hutubeli, deputada da extrema direita do partido Likud: “No horizonte político deve haver cidadania também para os palestinos da Cisjordânia e de Gaza (…) Acontecerá gradualmente (...). O processo acontecerá ao longo do tempo, talvez uma geração. Nesse período, a situação em campo será estabilizada e os símbolos e características do Estado judeu estarão ancorados na lei (...) Removeremos o ponto de interrogação que paira sobre a Cisjordânia e Gaza. Antes de tudo, prevalece a fé profunda que tenho no direito dos judeus à “Grande Israel”. Shiloh e Bet-El [na Cisjordânia] são para mim a terra dos nossos ancestrais no mais pleno sentido da palavra (...). Nesse momento falamos em dar cidadania aos que vivem na Judeia e em Samaria, não em Gaza. Sejamos claros: não reconheço qualquer direito político a qualquer palestinos, sobre a “Grande Israel” (...) Entre o mar e o rio Jordão só há espaço para um Estado: um Estado judeu.”
Moshe Arens: “A integração da população árabe (dentro de Israel) numa sociedade israelense é precondição, e só depois poderemos falar sobre cidadania para os palestinos dos territórios.” Isso significa que Arens pensa na integração dos árabes-israelenses em Israel – o que jamais aconteceu nos 62 anos de história de Israel. – Só depois de esses árabes-israelenses estarem ‘integrados’ é que pensarão sobre a questão da cidadania dos palestinos que vivem na Cisjordânia.
Emily Amrussi, colono que organiza reuniões entre palestinos e colonos judeus nas vilas limítrofes: “Não digam que pressiono para que se implante a solução “Um Estado”. No fim, talvez cheguemos lá, mas ainda estamos muito distantes. Falemos, primeiro, sobre um só país (...). Não falamos sobre cidadania, mas de relações de convivência entre vizinhos (...). Primeiro, eles têm de aprender a ser nossos bons vizinhos. Depois, lhes daremos direitos (...). No futuro, algum dia, será necessário que todos tenham cidadania.”
Reuven Rivlin, presidente do Parlamento: “O país não pode ser dividido (...) Sou contrário à ideia de um Estado para todos os cidadãos, e também sou contrário à ideia de um Estado binacional. Estou pensando sobre o que fazer para que haja soberania na Cisjordânia sob Estado judeu, talvez um regime com dois Parlamentos, um judeu, outro árabe (...) A Cisjordânia talvez venha a ser um condomínio (...). Mas tudo isso exige tempo. Parem de tentar me assustar com a demografia.”
O regime acima descrito não é estado de apartheid, é pior que isso. É Estado judeu no qual os judeus decidirão se e quando, ‘doar’ alguma cidadania a alguns árabes. As palavras “talvez numa geração” voltam e voltam –, palavras muito vagas, e não por acaso.
Mas o mais importante: há estrondoso silêncio em torno da mãe de todas as perguntas: o que acontecerá quando os palestinos forem maioria nesse ‘Um Estado’ judeu? Não é questão de “se”; é questão de “quando”. Não há nem sombra de dúvida que acontecerá, não “no período de uma geração”, mas muito antes.
Esse estrondoso silêncio fala por ele mesmo. Quem não conheça Israel talvez creia que os direitistas israelenses estejam dispostos a aceitar tal situação. Só a mais absurda ingenuidade permitirá sonhar com repetição do que houve na África do Sul, quando uma pequena maioria branca entregou o poder a uma grande maioria de negros sem banho de sangue.
Já se sabe que é impossível fazer de um triângulo bicudo um círculo harmonioso. Mas é claro que se pode tentar fazê-lo. Pelo genocídio. Pela limpeza étnica. O Estado judeu pode ser Estado democrático e, simultaneamente, ser ‘um Estado’ e judeu: basta que nenhum palestino sobreviva entre o mar e o rio Jordão.
Há limpeza étnica dramática (como se viu em Israel em 1948 e no Kosovo em 1998) e há limpeza étnica silenciosa e sistemática, por dúzias de métodos sofisticados, como se vê acontecendo hoje em Jerusalém Leste. Mas não há qualquer dúvida de que alguma limpeza étnica é a solução final prevista no “um Estado” judeu com que sonha a direita israelense. No primeiro estágio, Israel tentará cobrir o território com colônias exclusivas para judeus e, assim, demolir qualquer possibilidade de que se implementem dois Estados. Sem dois Estados, jamais haverá paz.
No filme “O bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, uma linda jovem dá à luz um bebê, o filho de Satã. O que a esquerda israelense vê hoje como atraente solução de um Estado é filho do mesmo monstro direitista de sempre.


[1] “Endgame”, Noan Sheizaf, Haaretz, 16/7/2010,

sábado, 17 de julho de 2010

03 - O MEU RIMANCEIRO * Nihil sine causa

O MEU RIMANCEIRO

(QUE VIVA O CORDEL!)

*

Nihil sine causa



A feira dos medíocres continua!

Senhores, quem dá mais? Quem arremata?

Sujeita à turba e à provação da rua,

a chusma de alimárias à arreata!



Os guizos, nos molins, são uma festa!

Em algazarra, corre o rapazio!

Morenos pelo sol que em fogo cresta,

ciganos e malteses de ar sombrio...



Barracas de andrajoso amor comprado,

um vómito de nojo purulento!

E, ao sol deste martírio, o descampado

inteiriçado ao frio do relento...



Lá longe, na cidade bem guardada,

a corte, em seus festins, não dá por nada...



(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
26 de Janeiro de 2000.

10 - JORNAL DE PAREDE * A tirania dos títulos


Texto de Zoltan Zigedy

Noventa anos atrás Lenine afirmou que "sob as condições gerais da produção de mercadorias e da propriedade privada, a 'dominação' dos monopólios capitalistas torna-se inevitavelmente a dominação de uma oligarquia financeira". Ele desenvolveu a ideia de que "A supremacia do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital significa a predominância do rentista e da oligarquia financeira". Deixarei ao leitor curioso o exame de Imperialismo: A etapa superior do capitalismo para verificar a argumentação convincente que está por trás desta afirmação presciente. Mas seguramente ela decorre de um entendimento profundo da exposição de Marx da lógica do capitalismo e da evidência disponível no tempo de Lenine. Ironicamente, esta projecção agora antiga – esta previsão da dominância do capital financeiro – diz mais da crise económica que agora devasta o planeta do que a multidão de laureados com o Prémio Nobel que pontificam acerca da causa da retracção começada em 2008. A dominância de uma "oligarquia financeira", como prevista por Lenine, atingiu o seu zénite durante os últimos vinte anos com o sector financeiro a duplicar a sua fatia dos lucros corporativos nos EUA. Mas "dominância" não é meramente uma matéria de supremacia no lucro; ela inclui também a ascendência do poder político, social e ideológico. A viragem neoliberal introduzida solenemente no fim da administração Carter e vigorosamente alimentada por Reagan principiou um processo de desregulamentação que acabou por remover as algemas nas finanças estabelecidas pelo New Deal. O sector financeiro desencadeou a dívida como o mecanismo para escravizar consumidores, cidades, municípios, estados e países soberanos. Fundos de pensão foram ou privatizados ou atraídos para grupos de investimento especulativo. Cartões de crédito, hipotecas e títulos tornaram-se as ferramentas de dominação da oligarquia financeira. Ao mesmo tempo, os enormes lucros acumulados permitiram ao sector financeiro comprar uma influência decisiva no circo dos dois partidos, através de lobbies, contribuições de campanha e corrupção desenfreada. Com a notável excepção da descrição do perverso Gordon Gekko no filme de Oliver Stone, os banqueiros de investimento foram encarados como as figuras mais brilhantes, mais dinâmicas e mais invejadas da imaginação popular. Dominância inevitavelmente convida à tirania e o sector financeiro avidamente aproveitou a oportunidade. Hoje, a expressão desta tirania é a noção louca de que bancos são "demasiado grandes para falirem". Vemos esta tirania na arrogância da Goldman Sachs, a operar sem nenhum respeito pelos interesses nacionais ou a opinião pública e sem qualquer travão efectivo do governo. Analogamente, a timidez de legisladores em conceber regulação bancária efectiva destaca esta tirania. Mas nada sublinha mais esta tirania do que a actual crise da dívida europeia. CRISE EUROPEIA A Europa, hoje, é uma refém do mercado de títulos. Porque a União Europeia é um projecto comum incompleto com desigualdades, desequilíbrios e contradições histórica, ela é presa fácil para a oligarquia financeira. Estas condições de fraqueza abandonam as economias menos desenvolvidas aos abutres do capital financeiro. Mas o jogo não era a solvência porque nunca houve realmente qualquer questão – como as coisas estavam no fim de 2009 – de que a Grécia, Portugal, Itália, Irlanda, Espanha ou mesmo Roménia e Hungria pudessem cumprir suas obrigações de dívida ou assegurar novos empréstimos. Mais exactamente, a crise foi tramada pelos predadores financeiros. O ataque especulativo em grande escala por parte do sector financeiro estrangulou estas economias até à submissão, forçando-as, no momento em que a recuperação estava no equilíbrio, a abandonar quaisquer programas de estímulo e a abraçar uma extrema austeridade do sector público. Nove meses depois, este pânico da dívida propagou-se através do mundo, com governos a correrem para cortar empregos no sector público, benefícios e salários, eliminando programas sociais e privatizando obras públicas. Como carneiros, políticos, sabichões e comentadores acrescentaram suas vozes reverenciais aos mercados de títulos. O governo do PASOK na Grécia prosternou-se à oligarquia financeira, seguido pelos governos espanhol, português e irlandês. O novo governo do Reino Unido garantiu cortes profundos nas despesas do governo. Preocupações com dívida empurraram para o lado todas as outras questões nas eleições holandesas. O governo francês está a pressionar por um aumento na idade de reforma. E o novo governo da Hungria quase entrou em colapso ao sugerir que podia desviar-se do plano de jogo imposto pelo FMI de miserabilismo fiscal. Os EUA, embora não afectados pela agressão financeira, também sucumbiram à extorsão da oligarquia financeira. O presidente Obama pretende cortar a Segurança Social e o Medicare através da sua discreta Comissão sobre Responsabilidade e Reforma Fiscal. Para aqueles que se recusam a desafiar a dominância dos mercados financeiros e a tirania dos títulos, não há nenhum outro caminho senão aceitar e impor cortes profundos nos gastos públicos. O ataque à Grécia foi uma demonstração do poder do sector financeiro e a sua brutalidade ao utilizá-lo. Exactamente quando os cortes de despesas começam a sentir-se, a Grécia experimenta inflação explosiva, um desenvolvimento fatal nos seus efeitos sobre os padrões de vida da classe trabalhadora grega. Mas há uma resposta à tirania dos títulos, uma resposta que apela à mobilização em massa do povo trabalhador contra a oligarquia financeira. Essa resposta recusa-se a acatar um sistema que promete atrasar durante décadas a segurança e os padrões de vida do povo trabalhador e oferece-lhe um futuro negro. Os omnipresentes porta-vozes da oligarquia financeira apelam a sacrifícios para restaurar a ordem no sistema económico. Isto é um logro calculado. Não há qualquer nobre sacrifício em capitular à extorsão ou aceitar que há a inevitabilidade da dominação dos mercados financeiros. Trabalhadores na Grécia, liderados pelos comunistas gregos e o agrupamento de todos os sindicatos, PAME, estão na vanguarda da organização de greves e manifestações contra a oligarquia financeira. A sua determinação e apelos à unidade estabeleceram um exemplo para todos os trabalhadores europeus. Nos calcanhares das acções gregas, trabalhadores portugueses foram às ruas. A maior central sindical da Espanha, Comisiones Obreras, foi à greve em 8 de Junho, com 75% dos 2,6 milhões de trabalhadores da organização aderindo à acção e com uma greve geral prevista. Trabalhadores do sector público na Roménia organizaram várias acções militantes. Quando o combate se intensifica, a unidade é essencial – mas não a expensas da militância. Os resmungos das lideranças de muitos sindicatos europeus são bem vindos, mas devem ser apoiados por organização efectiva e mobilização de massa. Recentemente, vários líderes sindicais do Reino Unidos falaram iradamente dos cortes draconianos prometidos pelo novo governo, mas falharam em apresentar mais do que retórica estridente e futuras ameaças eleitorais. Nos EUA, uns poucos líderes têm falado contra o assalto encoberto da administração Obama a programas sociais, mas um movimento de massa ainda está por emergir. Uma confrontação de base classista com a oligarquia financeira enfrenta muitos obstáculos, o não menor dos quais é a quase total dominação do trabalho organizado no pós Guerra-Fria pelos colaboracionistas de classe, a liderança social-democrata. E os oligarcas financeiros estão plenamente conscientes desta fraqueza. Recentemente, o chefe da Comissão Europeia, presidente José Manuel Barroso, reuniu muitos dos líderes sindicais social-democratas para instruí-los sobre os perigos de resistir ao assalto aos padrões de vida provocados pela "crise" predatória da dívida. Conforme relatado pelo Daily Mail britânico: "Numa palestra extraordinária a responsáveis sindicais na semana passada, o presidente da Comissão José Manuel Barroso expôs uma visão "apocalíptica" na qual países atingidos pela crise no Sul da Europa poderiam tornar-se vítimas de golpes militares ou levantamentos populares quando taxas de juro subirem e serviços públicos entrarem em colapso porque acaba o dinheiro dos seus governos". São os "levantamentos populares" que Barroso teme, um temor que é partilhado pelos líderes sindicais social-democratas. Além disso, ele quer alistar estes líderes na tarefa de empurrar o programa de austeridade goela abaixo dos trabalhadores. John Monks, responsável do European Trades Union Congress, comentou: "Tive uma discussão com Barroso sexta-feira passada acerca do que pode ser feito para a Grécia, Espanha, Portugal e o resto e a sua mensagem foi brusca: "Olhe, se eles não executarem estes pacotes de austeridade, estes países poderiam virtualmente desaparecer do modo que os conhecemos como democracias. Eles não têm nenhuma escolha, é isto". Ao mesmo tempo, "o sr. Monks advertiu ontem que as novas medidas de austeridade poderiam por si próprias levar o continente 'de volta à década de 1930' ", segundo o Daily Mail. Claramente, sociais-democratas como o sr. Monks estão desejosos de remeter a classe trabalhadora europeia "de volta aos anos 1930" ao invés de arriscar levantamentos populares que desafiariam a oligarquia financeira. A Federação Sindical Mundial apelou a um dia internacional de acção do movimento sindical em 7 de Setembro de 2010. Devem ser feitos todos os esforços para preparar esta acção ao longo do Verão. Devem ser feitos todos os esforços para mobilizar o povo trabalhador contra a oligarquia financeira. Levantamentos populares é o que precisamos.

*