quarta-feira, 21 de maio de 2008

06 - ROMANCEIRO * Aforismos





É quando a morte chega à Feira das Vaidades

que ganha nitidez a nossa condição.


É quando o sal amarga e queima as veleidades

que a morte nos reduz à nossa dimensão.


É quando a luz do sol, cegando o vaga-lume,

esmaga a pequenez da néscia presunção.


É quando por grasnar chilreio se presume

que uma qualquer lamúria intenta ser canção.


É quando a Lua-cheia incita à tentação

que a noite se revela enleio enamorado.


É quando não há mais varinhas de condão

que o charlatão se quer o príncipe encantado.


É quando já ninguém consegue acreditar

que o verso em armas faz da vida o seu altar.




José-Augusto de Carvalho
In «Da humana condição»
EdiumEditores, Março de 2008

4 comentários:

Maria João disse...

Enquanto existirem "astros que nunca se rendem/aos tentáculos do anoitecer", acontecem sonetos belíssimos como este e a literatura não deixará de ser o espaço da utopia.
Parabéns, José-Augusto de Carvalho, pela sua Poesia tecida de denúncia, inquietude, ânsia de mais... Ela é necessária e urgente. Cada vez mais. Poesia não serve para entreter. E, como disse Jerónimo Sardinha, "se dermos tempo ao tempo, chegará uma altura em que não haverá mais tempo".

Um abraço

Maria João Oliveira

Maria João disse...

Enquanto existirem "astros que nunca se rendem/aos tentáculos do anoitecer", acontecem sonetos belíssimos como este e a literatura não deixará de ser o espaço da utopia.
Parabéns, José-Augusto de Carvalho pela sua Poesia tecida de denúncia, inquietude, ânsia de mais... Ela é necessária e urgente. Cada vez mais. Poesia não serve para entreter. E, como disse Jerónimo Sardinha, "se dermos tempo ao tempo, chegará uma altura em que não haverá mais tempo".

Um abraço
Maria João Oliveira

Anónimo disse...

venha participar em www.luso-poemas.net

vai adorar e nós ficaremos honrados com a sua presença!

Luiz Modesto disse...

Muito bom.
tomei a liberdade de incluir-te entre as minhas indicações.
Abraço