terça-feira, 8 de junho de 2010

06 - ROMANCEIRO * A verdade de mim!


Bendito seja o meu nome!
Semeio e colho este pão,
mas só migalhas me dão,
enganando a minha fome.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Arautos de feira exultam.
E com palavrinhas mansas
e falazes esperanças,
o meu dia a dia insultam.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Quem me promete o que é meu,
como se fosse oferenda?
Quem supõe que estou à venda?
Quem é aqui mais do que eu?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Da noite dos tempos venho,
vergado, chapéu na mão,
à deriva como um lenho
sem velame nem timão.

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Milénios já percorridos
de sofrimento e lições,
quando os terei aprendidos
por memória e por razões?

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Continuo um pé descalço,
um deserdado, a ralé,
a subir ao cadafalso
num qualquer auto de fé...

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Enredado em várias malhas
e presa dos maiores danos,
morro em todas as batalhas
só p'ra mudar de tiranos!

Zé-povinho assim me chama
quem de mim se não reclama!

Ah, que força, que arreganho
assim me tolhe a vontade
de me erguer e com verdade
ser livre e do meu tamanho?!

Até mudar de caminho,
serei sempre o Zé-povinho?



José-Augusto de Carvalho
Redigido em 21.03.1996
Corrigido em30.10.2009
Viana * Évora * Portugal

Nota: Este poema foi incluído no livro «Pátria Transtagana», editado em Outubro deste ano de 2014.

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