sábado, 18 de junho de 2016

15 - DESTAQUE * Alem Tejo (1)

Jornal TORNADO
OPINIÃO / REGIÕES

Além Tejo (1)

TEXTO: MARIA DO CÉU PIRES ·
 6 MARÇO, 2016




As generalizações sobre o Alentejo e sobre os alentejanos padecem do mesmo mal que todos os estereótipos: são categorizações, “gavetas” onde colocamos uma realidade complexa de modo a agilizar a nossa orientação na vida social.

São crenças rígidas que dão uma imagem simplista de determinada realidade e, ao atribuírem a todos os membros de um grupo uma certa característica, ignoram outras importantes e esquecem, igualmente, o facto de que cada pessoa é um ser único.

Posto isto, direi que o Além Tejo é, para mim, uma pátria. A Pátria Transtagana de que fala o poeta José-Augusto de Carvalho.

Tem uma identidade própria (que integra a identidade social de todos os que aqui nascem) e que deve ser encarada não como algo estático pairando num etéreo céu intemporal mas como uma construção espácio-temporal e em relação com outros grupos culturais.

Não nos podemos afirmar como alentejanos sem conhecermos a nossa história e como se edificou, como continua a ser feita do cruzamento de muitas outras histórias.

Sim, porque se Além Tejo é açorda e migas, é também a razão de ser delas, da açorda e das migas… e de tudo o que à sua volta gira…

O meu Além Tejo é a pátria da resiliência, de uma longa caminhada de luta pela justiça, dos senhores e dos servos, das praças de jorna e das greves pelas 8 horas de trabalho.

É a dor e o sofrimento dos tempos negros, o desenho da esperança que, apesar dos seus erros, foi a Reforma Agrária.

Aqui nunca se aceitou a desigualdade como coisa natural, sempre se enfrentou a ignomínia, por vezes com sangue ou até com a vida.

Sempre se exigiu aquilo que, por direito, é devido a cada ser humano. Como já escrevi num outro lugar, aqui é o lugar do sonho por uma “terra irmãmente lavrada e cuidada”.

Para além da paisagem e da gastronomia, há um património de valores que se torna importante preservar pois em tempos de mediocridade e de individualismo como os que hoje se vivem, é importante não esquecer os seres humanos íntegros e honrados que habitaram esta planície.

A maior solidão e a maior solidariedade estão em nós, são a nossa riqueza. Por isso, somos “levantados do chão”.

Também por isso, ninguém poderá compreender nem escrever sobre o Além Tejo sem antes ler Manuel da Fonseca!

O resto é ignorância que não vale a pena comentar…

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