sexta-feira, 7 de setembro de 2007

12 - ROMANCEIRO * Aparição




Nevado de anos, roxo de amargura,
do tempo sem memória me levanto.
Os séculos de treva e de clausura
de fel enrouqueceram o meu canto.

Sangrenta a crença, bárbaro o costume,
sofri as vergastadas do martírio.
Sem culpa nem perdão, em dor e lume,
morri perante as turbas em delírio.

Restou de mim tão pouco, um quase nada,
que vem gritar, do pó do esquecimento,
que a cinza do meu corpo dói, gelada,
à míngua do fulgor do pensamento.

Ampara-me o carinho que me chama
e lava a negação da minha lama.


José-Augusto de Carvalho
11 de Março de 2004.