quinta-feira, 6 de setembro de 2007

06 - ROMANCEIRO * Pão






Quis ser um caule mais, promessa dos trigais,

semente germinada, anseio na raiz,
rasgando o duro chão das dores ancestrais
e ser, em mim, o pão da fome que não quis.

Estóico resistir aos frios invernais,
às águas temporãs dos céus primaveris,
cantar na minha espiga os áureos madrigais
de anseio e perdição em alvo almofariz.

Ser a farinha branca, enlevo de fartura,
a massa levedada a árduas mãos tendida,
com artes e saber, em golpes de ternura.

Por fim, no forno ser, a bênção concedida,
a fome mitigando ausências de amargura,
lavada de sabor de dignidade e vida.


José-Augusto de Carvalho
15 de setembro de 2004
Viana  * Évora * Portugal